P - E o que foi que ele te respondeu?
A - Respondeu-me com uma pergunta...
P - Qual...
A - ...perguntou-me se eu saltaria para um poço sem fundo.
P - Um poço sem fundo?
A - Sem fundo...
P - E o que foi que ele te respondeu?
A - Respondeu-me com uma pergunta...
P - Qual...
A - ...perguntou-me se eu saltaria para um poço sem fundo.
P - Um poço sem fundo?
A - Sem fundo...
John Lloyd inventories the invisible; muito bom mesmo. Gosto particularmente da afirmação, verdadeira, que todas as células do nosso corpo são substituídas a cada 7 anos, e a pergunta que se impõem de seguida; onde estamos nós, então?
Por vezes as aparências iludem. Por vezes o cordeiro devora o lobo. Por vezes não sabemos o que temos dentro de nós. Por vezes somos apanhados de surpresa com o que fazemos. Por vezes, não há nada a fazer.
Verónica tinha acabado de entrar nos quarenta. Dona de uma estranha beleza, capaz de atrair e repelir os homens de si. Sempre viveu só. Assim; contra a sua necessidade mais fundamental.
Era uma anónima secretária num banal edifício de escritórios. Ocupava um rectângulo no gigantesco mosaico de vidros que compunha a fachada. E nada mais.
«E nada mais», pensou ela no dia desse fatídico aniversário, em frente do quadrado de vidro no qual vivia. A nada mais tinha direito; à sua mãe, restos de uma família que nunca verdadeiramente teve. Vivia numa roulotte do outro lado do país, na Califórnia, emborcando garrafas de Whisky à velocidade de um sonho.Há já cinco anos que não trocava uma palavra com ela.
A nada mais tinha direito; aos seus colegas de trabalho, que nos dez anos que ali estava nunca tinham chegado a sê-los; colegas, quero dizer. Nem sequer sabiam que era dia do seu aniversário. E era tudo, não havia mais nada para contar.
«E nada mais», voltou a dizer, agora em voz baixa, com os braços cruzados, resignada.
Nessa noite, depois de ter vagueado pelas ruas de Nova York durante mais de duas horas, sentiu a solidão que tinha e toda aquela que ainda estava para vir. Secretamente, deixou cair a esperança do amanhã. Secretamente, convenceu-se que alguma coisa que tinha de mudar.
Como se verificou tão grande mudança nunca me foi possível entender ou explicar. Apenas sei que sobre as três semanas seguintes ao seu aniversário se estendeu um manto negro que nunca me foi possível destapar. Por mais que procure, pergunte ou investigue nunca consegui encontrar o mais leve indício do que verdadeiramente aconteceu. Apenas posso especular.
E o véu de encobrimento só foi levantado sobre um beco em Harlem, três semanas depois, numa noite de lua nova, e com o chão manchado de sangue. Lá em baixo jazia uma criança que não tinha mais do que catorze anos.
Em pé, Verónica, com uma faca de talho na mão ensanguentada. Mas não era o sangue que impressionava, nem tão pouco a expressão lívida que a rapariga de cabelos loiros tinha agora na face. Ao longe, a pobre coitada parecia repousar numa tranquilidade angélica, uma paz que contrastava com o que mais ao perto se podia encontrar. A barriga tinha sido aberta e as tripas puxadas cá para fora, num monte. Em cima desse monte de vísceras, um pedaço do seu pequeno útero, arrancado a golpes de principiante. Os seios tinham sido retalhados e jogados para o lado, as pernas decepadas pelo joelho. Sangue, fezes e urina por todo o lado. Vomitei.
«Que fizeste tu?», perguntei-lhe, enojado com o cenário que estava montado. Não me ligou, não reagiu, não lhe vi sentimento algum. Ao fim de um tempo respondeu-me; «Vai-te foder».
(...)
Mini-conto que tinha escrito alguns meses atrás, que revi e alterei. Se não for muito prática a leitura nesta página, clicar no link abaixo, ou fazer o download do PDF aqui
Espero que gostem.
Hoje resolvi escrever um post sem interesse nenhum. Não que os outros tenham grande interesse (para vossa informação, e segundo as estatísticas de navegação deste blog, 83% nem sequer se dão ao trabalho de verdadeiramente começar a ler).
Mas não é isso que quero dizer. O que escrevo tem interesse para mim, ou não me daria ao trabalho de o fazer. Embora também escreva para os outros, ou também não me daria ao trabalho de o publicar.
Mas, demasiadas vezes, fico a pensar nas coisas que as pessoas realmente querem, e aquilo que as faz mover (daí a razão deste sítio), porque sempre achei que isso era uma boa ponta por onde podia pegar, e tentar resolver o novelo da vida.
Não faço a menor ideia daquilo que cada um de vós procura, quando decide clicar naquela meia dúzia de caracteres que ficam pendurados numa página qualquer. Mas que a grande maioria clica desalmadamente, clica. Na verdade, acho que nenhum de nós sabe o que quer. Procuramos ao acaso as coisas que nos agradam, sem sabermos porquê.
São 21h30 da noite e estou na varanda da minha casa, deitado numa espreguiçadeira (que é a peça de mobiliário mais confortável que tenho – custou 15€). Junto ao canto da grade vejo a janela do prédio defronte. Um casal beija-se desalmadamente. Ontem, se bem me lembro, andavam aos berros um com o outro.
Há bastantes anos atrás, tinha eu uns 20 anos, presenciei a coisa mais estranha que alguma vez vi. Talvez tenha sido esse o momento em que comecei a me perguntar o que cada um quer, e o que faz para o conseguir. Andava eu no passeio, e um mendigo estava no chão com a caixa de esmolas a seus pés. Um outro mendigo andava uns metros mais à minha frente, a pedir dinheiro às pessoas com quem se cruzava. Quando passou defronte do outro mendigo, não é que lhe pediu esmola! A cara de espanto com que o mendigo que estava no chão ficou nunca me saiu da memória.
Bom, quem chegou até estas palavras finais pode ter a certeza que faz parte da restrita elite que se dá ao trabalho de ler até ao fim.
Obrigado e boa-noite (ou bom-dia…)
P
O rebordo das minhas imperfeitas palavras é o vinco que me vai tramar.
Queria tanto sentir que estou vivo, mas não sei por onde começar.
Queria garantir que não estou morto, mas as minhas mãos não param de mexer.
Hoje vi uma estrela cadente morrer.
Hoje vi um filme do outro mundo que falava da vida do taciturno.
Hoje queria beber. E bebi. Bebo enquanto o sono não me levar.
Escrevo enquanto a bebida não se acabar.
E depois, finjo que vou dormir, para me esquecer que amanhã vai tudo recomeçar.
Outra vez. A merda do recomeço é uma trampa que não tem fim.
Durmo para fingir que sou uma estrela cadente do anoitecer.
Durmo, finjo que vivo, paro para beber.
Um dia vou ser capaz de viver sem precisar de respirar.
Ah vou, nem que para isso tenha de sonhar.
Um dia, não vou acordar.
Nós os dois e mais ninguém.
Pior. As palavras que lês são uma armadilha.
Ressoo dentro de ti. A tua voz é a minha vontade. E ao contrário também é verdade. Tomo conta do teu pensamento e nada podes fazer. A não ser fechar os olhos e deixares de ler.
Mas não fechas.
Nada mais existe a não ser as palavras que agora ganham vida. Em ti. Controlo o rumo e a direcção. Falamos de morte ou ambição? De amor ou traição? De medos ou de segredos?
O que tens para pensar? Ou queres que eu pense por ti? Estamos aqui só nós os dois.
Agora, aí dentro, posso fazer o que me apetecer. Montar histórias que percorram o labirinto da tua alma; abrir as portas que entender, percorrer os teus segredos, virá-los ao contrário e descobrir o que os corrói e faz crescer.
Talvez esta porta já aqui à direita. Sim. Vê-se perfeitamente.
Quem foi aquele a quem mentiste e usaste? Aquele que traíste. Aquele que sofreu, pouco ou muito não importa, com a tua encenação. Achas que não? Que tinhas uma razão. Que és o bom e não o vilão. Penso que não. E tu pensas o que eu escrevo.
Dói no coração.
Talvez pares de ler. Ou a dor da verdade fique curiosa com o que a seguir te vou dizer.
Submetes-te a mim ou a ti? Que importa, é tudo igual. Vozes que falam cá dentro. É a minha vez, a tua, ou tudo isto é uma encenação?
E esta grande porta à minha esquerda? Está enferrujada ou és tu que não me queres deixar entrar? Deito-a abaixo se for preciso.
Sim, o amor que julgas ter. Aquele, que te faz palpitar o coração e que te trás a transpiração.
Que de teu não tem nada.
Sabes disso, e por isso não querias deixar entrar, porque também não queres ver. É mais bonito acreditar. De olhos fechados, pois não há outra maneira de tal coisa funcionar.
Abanas a cabeça em sinal de negação. Que não tenho razão. Não é preciso. Estás sozinho. Ou já acreditas que estou dentro de ti? Que somos dois? Acenas para as letras mortas que vivem no papel?
Tenho razão. O amor não. O verdadeiro amor é saber deixá-lo ir quando nos quiser abandonar. Só se possui o amor no momento do adeus, porque essa é a medida que nos é entregue por todo o amor que fomos capazes de dar. E a vida toda é só dor, à espera do momento em que o podemos perder. Nada a fazer.
Talvez esteja amargurado, talvez não seja capaz de fechar os olhos, talvez já tenha sido dominado pelas palavras que me estão a comer, a devorar por dentro tudo aquilo que eu queria esconder. E quando tudo se iluminar, o que vai acontecer?
Alguém entrou dentro de mim. Alguém me está a ver. Sentes a comichão da emoção? É o papão que te irá devorar. E mais não posso dizer.
Deixa de ler. Deixa de pensar.
...
Tatiana voltou.
Bateu à porta e fez-se anunciar. Trazia um papel qualquer na mão que o levantou e colocou frente aos seus olhos, mas ele não estava a olhar para a folha, estava a olhar para o Y que continuava perfeito ali entre os seus dois peitos.
Trazia um caicai branco de formato enrugado que não cobria muito mais que metade das suas mamas. O caicai dava-lhe um Y ainda mais pronunciado, criando um fosso ao meio para o qual não hesitaria saltar.
Aquele tipo de roupa, tinha a certeza absoluta, não era permitida numa Detective. Chegou a pensar que talvez ela se vestisse assim só para ele, trocando de roupa numa qualquer cabine telefónica antes de chegar, como o Super-Homem faz.
Mas as hormonas têm muitos pensamentos, quer de imagens sonhadas acordado, quer de palavras, coisas agradáveis que nós gostamos de sentir e ouvir e que nos dão desejo para conseguir.
E é estranha esta aparente conclusão, de que as palavras que surgem na cabeça são na realidade as palavras ditas por partes do corpo, que afinal falam, e que na verdade a consciência se limita a ouvir e a sentir muda essas experimentadas emoções.
Mas Zodiak estava enganado. A verdade é que Tatiana, depois de ter sido violada, quando era jovem de liceu, ficou congelada na sexualidade para todo o sempre.
Aquele momento duplo em cima da cama, com os dois colegas de liceu que a usaram à vez ou em atordoada coordenação, quebrara-lhe a vontade para aquilo que o seu perfeito corpo fora programado fazer.
E aqueles momentos no colchão resumiram, numa única tarde de domingo, uma vida inteira desde a alegria à desilusão.
De certa forma foi uma sorte, porque despachando desde logo o assunto ficou livre para viver a vida como nunca a teria podido viver.
Era esse o segredo para a sua rápida ascensão na sua profissão, para a qual não tinha a menor vocação.
Usava a sua castrada sexualidade apenas como mecanismo de provocação. Usava a roupa curta de mais para a profissão (para qualquer profissão na verdade, menos uma), expondo o corpo como um altar que não se podia tocar.
E as dores de olhar que provocava nos homens eram a sua forma silenciosa de retaliação.
A ela, bastava-lhe a tesão. Mas esse tesão, que num ser normal funciona como a estocada inicial que o conduz para a arena onde será finalmente toireado, em Tatiana funciona como sinal de alerta e de retracção.
...