Um navio é sempre um objecto improvável; aço que não se resigna a ir ao fundo, montanha improvável flutuando no ar. O mar solto balança o navio de um lado para o outro. Gotas de água que nada podem enquanto se desfazem suicidas contra o casco. Corroem. Dão coices de lado. Cospem-nos sal para cima. Conjuram vento e chuva para nos levar ao fundo.
Resignamo-nos a não pensar.
Estou no convés. Estou aqui, fez agora duas semanas. Balanço para cima e para baixo. Balanço com o balanço do navio. Balanço com o balanço do navio que balança nas ondas. Não me resigno a ir ao fundo.
O mar não tem chão. Tem, lá no fundo que mata; o mar não tem chão. É um ser vivo revolto, inquieto. Bicho virulento que nos puxa para dentro se lhe tocarmos nas mãos líquidas que devoram. Se cair, só saberei nadar durante um tempo. Depois, faltar-me-ão as forças ou a vontade, tanto importa, e desaprenderei de nadar. E se por milagre boiar, o mar líquido encarregar-se-á de convocar criaturas marinhas desejosas de me desmembrar e engolir.
Porquê a poesia? Será poesia?
Ontem atirámos um homem ao mar. Vivo. Assim, sem mais nem menos.
O navio é o mundo. O mar, o resto do universo escuro e medonho onde não sabemos voar. O convés é um continente. A camarata outro. A messe
outro. A ponte de comando outro. É lá que vive o ditador. O navio é o mundo e não existe mundo para além dele. Durante o mês e meio de viagem através do Pacífico, se o vento ajudar, o meu mundo é plano e tem um abismo onde podemos cair. Flutuamos sobre um buraco negro que nos engole se não tivermos cuidado; se quisermos.
As regras da física não se aplicam. As regras do homem não se aplicam. Habito um mundo com meia dúzia de metros quadrados que obedece à vontade de um homem louco, que decide atirar homens fora, para o buraco negro, se assim desejar. É desta maneira que o monstro ganha força; o comandante e o mar.
Porquê a poesia? Não será antes medo?
É a minha primeira vez, e depois do que fiz tenho a certeza de que será a última. A viagem tem um tempo. O Pacífico tem um comprimento. O mundo tem um tamanho logo devorado assim que se avista terra firme. Antes de lá chegarmos o comandante há-de atirar-me borda fora.
Ele não me vai perdoar.
Ficarei sozinho a flutuar em nada, no silêncio do mar. Hei-de ver o navio encolher e desaparecer no horizonte. O mundo há-de morrer. Sentirei, finalmente, a água. Sentirei o bicho que se prepara para me devorar. Mas vai demorar. E se me acobardar, se fingir desfalecer, se desistir sem sofrer, então o mar trará os monstros de dentes afiados que virão, primeiro, docemente lembrar-me da sua presença, depois, roçar-se educadamente de boca aberta, e for fim experimentar o sabor da minha carne, mas sem matar, primeiro sem matar. Só quando não houver mais medo para sentir é que o golpe final será desferido. Foi assim o pesadelo sonhado. Sempre tive medo do mar fundo. Que estou aqui a fazer?
Morrer?
Aguardo pelo instante em que o comandante há-de enlouquecer? Surpreendo-os saltando no abismo? Tenho menos de um mês e não sei quanto tempo tenho.