O que te faz mover?
29
Abr 13
Por P. Barbosa, às 18:39 | comentar | | | Partilhar

Porquê?
Havendo ideologias e idiotas, havendo comida para comer.
O ódio e o amor também,
E o ar, não pode faltar o ar,
E não nos esqueçamos daquele momento que não sabemos lembrar,
Daquele, quando o coração acabou de dar o batimento,
E fica ali, pendurado, a matutar,
Se vai em frente ou se resolve parar.
Um momento; 
Tenho de olhar.

 

1, 2, 3

Diga lá, como fez?


26
Abr 13
Por P. Barbosa, às 18:02 | comentar | | | Partilhar

Crónica da Morte de um Pai


24
Abr 13
Por P. Barbosa, às 23:51 | comentar | | | Partilhar

Um navio é sempre um objecto improvável; aço que não se resigna a ir ao fundo, montanha improvável flutuando no ar. O mar solto balança o navio de um lado para o outro. Gotas de água que nada podem enquanto se desfazem suicidas contra o casco. Corroem. Dão coices de lado. Cospem-nos sal para cima. Conjuram vento e chuva para nos levar ao fundo.

 

Resignamo-nos a não pensar.

 

Estou no convés. Estou aqui, fez agora duas semanas. Balanço para cima e para baixo. Balanço com o balanço do navio. Balanço com o balanço do navio que balança nas ondas. Não me resigno a ir ao fundo.

 

O mar não tem chão. Tem, lá no fundo que mata; o mar não tem chão. É um ser vivo revolto, inquieto. Bicho virulento que nos puxa para dentro se lhe tocarmos nas mãos líquidas que devoram. Se cair, só saberei nadar durante um tempo. Depois, faltar-me-ão as forças ou a vontade, tanto importa, e desaprenderei de nadar. E se por milagre boiar, o mar líquido encarregar-se-á de convocar criaturas marinhas desejosas de me desmembrar e engolir.

 

Porquê a poesia? Será poesia?

 

Ontem atirámos um homem ao mar. Vivo. Assim, sem mais nem menos.

 

O navio é o mundo. O mar, o resto do universo escuro e medonho onde não sabemos voar. O convés é um continente. A camarata outro. A messe

outro. A ponte de comando outro. É lá que vive o ditador. O navio é o mundo e não existe mundo para além dele. Durante o mês e meio de viagem através do Pacífico, se o vento ajudar, o meu mundo é plano e tem um abismo onde podemos cair. Flutuamos sobre um buraco negro que nos engole se não tivermos cuidado; se quisermos.

 

As regras da física não se aplicam. As regras do homem não se aplicam. Habito um mundo com meia dúzia de metros quadrados que obedece à vontade de um homem louco, que decide atirar homens fora, para o buraco negro, se assim desejar. É desta maneira que o monstro ganha força; o comandante e o mar.

 

Porquê a poesia? Não será antes medo?

 

É a minha primeira vez, e depois do que fiz tenho a certeza de que será a última. A viagem tem um tempo. O Pacífico tem um comprimento. O mundo tem um tamanho logo devorado assim que se avista terra firme. Antes de lá chegarmos o comandante há-de atirar-me borda fora.

 

Ele não me vai perdoar.

 

Ficarei sozinho a flutuar em nada, no silêncio do mar. Hei-de ver o navio encolher e desaparecer no horizonte. O mundo há-de morrer. Sentirei, finalmente, a água. Sentirei o bicho que se prepara para me devorar. Mas vai demorar. E se me acobardar, se fingir desfalecer, se desistir sem sofrer, então o mar trará os monstros de dentes afiados que virão, primeiro, docemente lembrar-me da sua presença, depois, roçar-se educadamente de boca aberta, e for fim experimentar o sabor da minha carne, mas sem matar, primeiro sem matar. Só quando não houver mais medo para sentir é que o golpe final será desferido. Foi assim o pesadelo sonhado. Sempre tive medo do mar fundo. Que estou aqui a fazer?

 

Morrer?

 

Aguardo pelo instante em que o comandante há-de enlouquecer? Surpreendo-os saltando no abismo? Tenho menos de um mês e não sei quanto tempo tenho.


18
Abr 13
Por P. Barbosa, às 12:31 | comentar | | | Partilhar

14
Abr 13
Por P. Barbosa, às 09:31 | comentar | | | Partilhar

Bem-vindo, Sol!

 

Está na altura de por o pézinho na água, de sentir o calor sobre o frio, de espreguissar o encolhimento, de abrir a janela e deixar sair.

 

 

 


09
Abr 13
Por P. Barbosa, às 17:58 | comentar | | | Partilhar

(...)

 

Qualquer dia escolho um rumo. Antes, quando o meu pai ainda não tinha partido nessa viagem pela galáxia fora, dizia-me, com uma repreensão compreensiva (com um tom de voz que misturava frustração e amor), que devia arranjar uma profissão e uma mulher. Prestava muita atenção às palavras dele, pois sempre as escolheu com a precisão de um relojoeiro suíço. Recordava-me frequentemente que compensava a escassez de palavras com a certeza do que dizia. 

 

Nunca quis ser o que quer que fosse. Ou então sempre tive medo de ser alguma coisa, fosse o que fosse. Sempre achei os caminhos demasiado estreitos (por serem caminhos). Têm bermas fundas que me assustam como o mais alto dos precipícios. Têm encostas íngremes e vias de um só sentido. Sempre preferi os campos abertos. Preciso de espaço, prefiro a ideia de poder olhar em volta e só ter a linha do horizonte como limite para os meus sonhos.

 

(...)

 

Não Levo Saudade 


29
Mar 13
Por P. Barbosa, às 14:39 | comentar | | | Partilhar

Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres...

 

Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

 

(Não Levo Saudade)


28
Mar 13
Por P. Barbosa, às 18:55 | comentar | | | Partilhar

Mars Gigapixel Panorama - Curiosity rover: Martian solar days 136-149 in Out of this World

24
Mar 13
Por P. Barbosa, às 17:45 | comentar | | | Partilhar

Não sou a vontade de comer e que alimenta o meu corpo. Mexo as mãos e abro a boca por ordem interior. Sinto o doce sabor da comida como recompensa pela obediência, ou a fome agonizante como castigo, tal e qual como quem treina um cão.

 

Não sou a vontade do sexo, nem do seu sucedâneo engano chamado amor, que procura apenas a necessidade prática da multiplicação. O dealer que vive comigo oferece-me gratuitamente as primeiras doses de heroína antes de me usar o resto da vida.

 

Não sou a vontade de viver, necessidade material e objectiva do meu corpo e que, por ignorância e cobardia, assumo também como minha.

 

Não sou a vontade de morrer, vontade que sobressai quando todas as outras desistem de querer.

 

Não sou o meu coração que se movimenta por simples instrução.

 

Não sou os meus membros pés e mãos, que me levam por este mundo e que obedecem apenas às vontades que os controlam.

 

Não sou a vontade de ficar velho, vontade essa maior que qualquer homem, vontade de um universo, de uma natureza maior que não é possível ser compreendida, apenas sentida.

 

Não sou a boca que fala, não sou as palavras que de lá saem, e que são apenas as representações materiais das vontades que vivem cá dentro, mas que não são minhas.

 

Sou o vazio que sobra disto tudo, o ponto equidistante entre vontade, palavra e corpo. Sou a simples intersecção imaterial das linhas invisíveis que os ligam, o centro de gravidade que olha e vê estas coisas à sua volta e, se tiver sorte julga-as por suas, se tiver azar compreende a verdade e se angustia, sem saber afinal o que é e para que serve.

 

Sou um vazio que sabe que é vazio, mas que não é nada.

 

Fecho os olhos e finjo? Abro os olhos e sofro?

 

Será isto uma alma? 

 

Quem sou eu?


20
Mar 13
Por P. Barbosa, às 22:41 | comentar | | | Partilhar


Por P. Barbosa, às 16:14 | comentar | | | Partilhar


06
Mar 13
Por P. Barbosa, às 09:35 | comentar | | | Partilhar

A falência é boa, seja qual for sua qualidade. Esfrego as mãos de contente, largo tudo e tudo é promessa de começo.

Não há alegria maior do que uma folha branca, um lápis e um esquadro. Tudo é futuro, e o passado perde todo o seu poder. A memória, o carro e a televisão são assassinos da [minha] liberdade.

A falência é boa, se resoluto [estou] em enfrentar a vertigem. A falência é tua. Caímos para os dois lados, agarramo-nos ao que estiver mais à mão.

A moral é relativa, a relatividade de tudo é uma moral. Sigo esconso pela beco fora, ignoro tudo, a sujidade, o mau cheiro, o prédio degradado, a puta que aguarda, o fedelho que chora, o proxeneta que sonha, o polícia que ignora, a ferida que sangra no meu pé, prego ferrugento espetado pela vida para me avivar a memória. Não o quero, que merda, não o quero (já disse), tudo o que decido é [sempre] certificado pelo passado, decido nada.

Sou apenas o que já fui. Desagua verme, alma naufragada abandonada nesta ilha planetária.

Procuro algo na rua de um sentido só, sem destino, só caminho, finjo, próprio de quem finge, próprio de quem sabe, próprio de quem tem medo da vertigem.


01
Mar 13
Por P. Barbosa, às 14:07 | comentar | | | Partilhar

 

Disponível na loja da Kobo, Scribd, Kindle, Nook e no iBooks do iPad.

Espero que gostem. 

 

                            ***  

 

Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres...

 

Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

 

                 

 

 

 

 

 


25
Fev 13
Por P. Barbosa, às 17:22 | comentar | | | Partilhar

sem palavras...

 

 


22
Fev 13
Por P. Barbosa, às 13:47 | comentar | | | Partilhar

Somos, sem dúvida,
fotografias
a preto e branco
de tempos idos,
os nossos sorrisos
e a alegria incontida
vertidas para molduras
estáticas, passados
longínquos que sempre se parecem
com o presente,
só porque se sente,
ridícula e efémera ilusão,
que os séculos vindouros
confirmarão,
quando inóspitos descendentes
segurarem
nas suas mãos,
com um sorriso,
e apreensão,
em fotografias pardas ilustradas
por molduras cromadas,
o passado,
o presente,
o futuro.


Não Levo Saudade (eBook)
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