O que te faz mover?
24
Jan 14
publicado por P. Barbosa, às 17:41link do post | comentar | | | Partilhar


17
Dez 13
publicado por P. Barbosa, às 14:21link do post | comentar | | | Partilhar

Adormeci. Acordei. Estava a dar o noticiário na televisão da montra de electrodomésticos. 

 

Adormeci. Acordei. Doía-me o corpo, era escuro, estava num beco que não reconhecia, e um grupo de jovens riam-se muito. De mim. Acharam que eu era parvo. Tenho a certeza de que me acharam parvo.

 

Adormeci. Acordei. Olhei para o lado e o meu velho amigo chorava silenciosamente, disse-lhe, Não achas que o tempo está a passar depressa demais? Adormeci. Acordei. Vi o sol dependurado no céu.

 

Adormeci. Acordei. Está bem?, perguntou-me alguém.

 

Adormeci. Sonhei com o meu pai e com a minha mãe. Acordei. Estava deitado num lugar luminoso, mas em vez do amarelo do sol caía em mim uma luz branca vinda de todos os lados.

 

Não se mexa, disse-me alguém, Está no Hospital de Santa Maria. Estamos a cuidar de si. Não se mexa. Como se chama? Virei o olhar e vi uma cara angélica de bata branca auscultando o meu interior com um estetoscópio.

Aí não há nada, disse-lhe, enquanto ela procurava medir o meu coração. Enrugou a testa. Parou de me auscultar e olhou-me novamente, Como se chama? Lembra-se?

 

Meti a mão ao bolso, trémulo, tirei um velho lenço sujo com as iniciais, M.L., Chamo-me Manuel, o L já não sei o que representa. Não sei o dia certo em que faço anos. Não me lembro já quem é o meu pai e quem foi a minha mãe. Sei que sempre vivi em Benfica. Tenho um amigo chamado António que dorme comigo junto às Portas de Benfica, eu numa caixa de cartão de um frigorífico, ele numa caixa de cartão de uma arca frigorífica.

 

A médica cuidou de mim e mandou os outros cuidarem de mim. Sentia o peso fétido da minha velhice apodrecida. Ninguém se aproximava a não ser para me darem os remédios repetidos que me foram avivando a memória.

 

***

 

Os dias pareciam agora ser mais longos, e já era capaz de acompanhar o lento desfiar da luz do pôr-do-sol nas entre-sombras das persianas na parede defronte da minha cama. Concentrava-me muito, e acreditava que aquele lento mergulho da luz em direcção ao tecto era prova suficiente de que agora me encontrava no mesmo universo em que se encontravam todos os outros.

 

Eu sabia o que tinha. Eu sabia do que padecia. Eu sabia para onde tudo aquilo se encaminhava.

 

Já não me lembro do meu pai, sei apenas que sofre do mesmo mal que eu sofro. Sei que ele me amava, que me levava ao colo, que me levava pelo braço, e que depois de me ter largado na vida, depois de me ter dito que já era homem, abraçou-se a mim e chorou como se despedisse-se para sempre. Consigo recordar essa emoção, os soluços e as lágrimas contidas que caiam no meu ombro. Não me lembro da cara dele. Procuro olhá-lo e apenas vejo uma luz baça e ofuscante, de onde saem as palavras, Agora já és homem, não te esqueças de mim.

 

Sinto saudade.

 

 (Não Levo Saudade)


11
Nov 13
publicado por P. Barbosa, às 09:54link do post | comentar | | | Partilhar

Agora também disponível através do Google Play


Contos:

  • O Quarto Branco
  • Bicho da Pedra
  • Daniela, a Louca

 

Romance:

  • Não Levo Saudade


***

 

Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres...

 

Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.


***

 

 

 

Romance, 270 páginas

Published: Feb. 18, 2013
Words: 45,071 (approximate)
Language: Portuguese
ISBN: 9781301502349

 

eBook disponível no iBooks, Kobo, Scribd, Kindle, Nook, Goole Play , e no SmashWords.

Espero que gostem.



31
Out 13
publicado por P. Barbosa, às 01:29link do post | comentar | | | Partilhar
Somos destroços e procuramos destroços.

Vasculho incessantemente no meio do entulho que chamamos vida, que chamamos corpo, que chamamos alma. Tanto para tão poucas mãos, dois olhos, uma vontade.

Quero saber o que fazer com o pedaço de vida corroída pelo tempo que retiro da gaveta esquecida e secular que existe. Esboroa-se enquanto a olho impávido.

Existe e eu não sei porque existe, porque é um pedaço que não inteira, porque é apenas um pedaço na minha mão tão pequena para tanto que exige. Esboroa-se e eu não me incomodo, ou incomodo-me e imobilizo-me, ou imobilizo-me e aguardo que acabe de se esboroar num ponto final.

Aguardo, sempre.

Hoje foi uma espécie de ponto na minha vida. Não um fim, mas antes uma interrupção involuntária e temporária, trocas de universo, mordaz ironia que promete e faz sofrer. Sorri agora para mim. Fito-a na minha louca estupidez.

O desespero é sempre melhor que o medo, sim, percebo-o agora bem, não é uma teoria, é uma verdade comprovada pelas tripas contorcidas pela vontade do tempo e do espaço que guardo dentro, deste presente que me agarra como uma âncora ao fundo de um oceano impávido sem oxigénio para respirar.

O futuro será o que será, triste estupidez nascente da minha ignorante estupidez. Procuro, agora, equilibrar-me num fio que já lá não está. Procuro equilibrar-me quando é necessário voar.

Estatelar-me no chão, eis o destino premeditado por mim e pelo espaço e tempo que guardo dentro. Oculto essa verdade como se fosse algodão acolchoado, queda amparada pela invisível força de uma determinada gravidade.

Abro as mãos, fecho os olhos, deixo o corpo, a alma, a vida estatelar-se no chão.

Destroços.

10
Out 13
publicado por P. Barbosa, às 13:10link do post | comentar | | | Partilhar


24
Set 13
publicado por P. Barbosa, às 14:13link do post | comentar | | | Partilhar

(...)

 

 

Dizia,

 

Algures, algures em Janeiro de 1986,

 

Tudo isto aconteceu, tudo o resto é imaginação.

 

Vejo um esqueleto, ou um homem (não estou certo de quem faz quem), porque é só ossos, mas também porque se mexe como se estivesse vivo.

Está sentado, escreve. Um candeeiro a azeite alumia a mesa tosca de madeira. Coloca a mão no osso da testa. Osso contra osso, ouve-se um som oco. Está indeciso. Depois, após essa breve pausa que é o pensamento, escreve furiosamente até deter-se novamente. Repete e repete. Ao fim de cinco minutos daquilo noto (nota) que se acabou a folha branca. Abana a cabeça, desapontado. Amarrota a carta (pelo menos penso que é uma carta, de despedida) e recomeça numa folha nova.

Infinito é o pensamento, que nunca se acaba, pois não pode pensar que já não o é mais. Foi assim que ele fechou a sua carta de despedida. Agora só falta decidir-se quanto ao seu início.

Sentado, tudo à sua volta é negro, apenas a luz do candeeiro a azeite o sustenta. O esqueleto (ou o homem) não está certo do que acontecerá após terminar aquela carta.  

 

É um monte de ossos. É um homem inteiro.

A despedida acontece quando nos esquecemos de nós próprios, quando olhamos para dentro e já não somos capazes de ver coisa alguma, não porque descobrimos que o conteúdo está vazio, mas porque perdemos o dom da visão.

Foi assim que ele decidiu abrir a carta de despedida. Agora só faltavam as palavras que vão preencher a carta entre o princípio e o fim.

Não, ainda não. Amarrota a folha e atira-a para a escuridão que se encontra à sua direita. Não se ouve barulho algum. A carta foi engolida e desapareceu, para sempre. Foi como se nunca tivesse existido. Depois dele, depois de todos aqueles que hão-de ler estas palavras, depois de todos aqueles a quem foi contada esta história que outros leram, depois. Esta carta de despedida não existiu. 

Decide recomeçar.

 

O azeite está já no mínimo. A luz diminui de intensidade. Ou acabas tu ou acabo eu. O monte de ossos move-se por uma vontade. Sente-se a ansiedade na impaciência de um esqueleto que não pára quieto. Desconforta-se na cadeira. Ameaça levantar-se, mas depois lembra-se que tem medo de se afastar da luz pequena e mergulhar na escuridão que o envolve já. Tem de escrever as letras que enchem a folha entre o princípio e o fim. Ou escreves tu ou escrevo eu. 

Ou escreves tu ou escrevo eu, não torno a avisar. Pega numa folha nova e repete o início e o fim que já conhece. O meio é um buraco branco para o qual perdeu o dom da visão. Esforça-se, sem saber se deve escrever a mentira ou a verdade. Falta-lhe a vontade, e as forças últimas perseguem-no já. Apressa-te. Colocou o lápis na folha branca e depois aguardou que este se mexesse sozinho. Escolheu a mentira. Escolheu a mentira, o cobarde. Apresso-me eu, não merece mais o meu tempo. Aproximo-me, escondido pela escuridão. Seguro na mão a última carta amarrotada. Lanço-me sobre ele e estendo-lhe o sopro que extingue a luz do candeeiro a azeite.  

Deixamos de ver. Aguardo que o monte de ossos se desfaça em sons ocos enquanto tombam no chão. Mas não, nada se ouve.

Estou agora certo; este homem nunca existiu.

 

 

(Não Levo Saudade) 


14
Set 13
publicado por P. Barbosa, às 15:25link do post | comentar | | | Partilhar

 

É impressionante e assustador que um dos pricipais componentes da nossa sociedade «moderna» - o automóvel - seja, na verdade, tecnologia do Séc IXX.

 

É altura de terminarmos de vês com os «caga-fumos». Estamos no século XXI, bolas!

 

O documentário abaixo é excelente.

 


31
Ago 13
publicado por P. Barbosa, às 10:22link do post | comentar | | | Partilhar

PREPARAÇÃO

 

Se és sério, então 

um plano maquiavélico tens de ter.

 

O conselho é bom,

mas quem o dá é suspeito,

pois trás mirra, ouro

e incenso,

e quem dá

não oferece,

apenas espera

retorno

em dobro.

 

O monte relvado 
ao lado do sítio

onde julgo

viver,

cresce em altura

três centímetros

a cada ano que passa,

não por causa de um

qualquer

choque de placas tectónicas,

mas sim da merda ininterrupta 

defecada por donos de cães,

ausentes, 

que por ali andam

continuamente,

sem um plano

maquiavélico

que os possa orientar,

também.

 

E o verde pontilhado

por excrementos

apenas assinala os lugares

onde homem e animal,

ambos,

seguros por uma trela,

se cruzam e confundem

num só.

 

 

O receio

não é o de o homem

se enfiar por um caminho

de urtigas,

mas apenas que esteja

consciente

do que é capaz.

 

Despedaçamos os

nossos sonhos,

com prazer,

pois a imagem

edílica

é sempre mais forte

que a realidade.

 

Cuidamos sempre

bem

das nossas ruínas,

é certo.

 

A mentira e a verdade

são lados opostos

de uma faca.

No gume afiado fica a verdade,

no contra-fio a mentira

(ou ao contrário, já não estou certo)

 

E tudo o que importa,

apenas, é o uso

que se dá ou não dá

à mão que vacila

de um lado

para o outro,

alma mecânica

e inquieta

entre o poder maquiavélico

da vontade,

e a vontade do poder maquiavélico,

como aquele

que me preparo

agora

para executar.

 

A brincadeira não é semântica,

é séria,

toca fundo o lugar entre ser

e desaparecer.

 

Tu escolhes, ou não,

a faca e o pão.

 

Por que precisamos de um plano

maquiavélico?

Em devida altura

tudo ficará

mais saliente.

 

Somos, sem dúvida,

fotografias

a preto e branco

de tempos idos, 

os nossos sorrisos

e a alegria incontida

vertidas para molduras

estáticas, passados

longínquos que sempre se parecem

com o presente,

só porque se sente,

ridícula e efémera ilusão,

que os séculos vindouros

confirmarão,

quando inóspitos descendentes

segurarem

nas suas mãos,

com um sorriso,

e apreensão, 

em fotografias pardas ilustradas 

por molduras cromadas,

o passado, 

o presente, 

o futuro.

 

Dizemos «Não».

A nossa condição,

de cautela, é feroz

e cobarde animal,

pois o que nos aflige, 

sempre,

é o plano maquiavélico 

que nos outros

julgamos existir

(e em nós não).

 

Posso provar tudo o que afirmo,

com o ridículo acrescido de que, 

para isso,

não preciso de dizer nada.

 

Ouve-me!

 

Homens sem planos

maquiavélicos

nunca lerão 

estas palavras,

pois tudo o que já foi lido,

para trás,

serviu apenas um único

e nobre fim:

fazer desistir todos aqueles que,

desajeitados na arte

da vontade própria,

nunca chegarão até

aqui.

 

Eu tenho um plano maquiavélico,

também.

 

Outros se seguirão,

se fores homem sério,

e um espaço nobre

para um plano maquiavélico 

em ti existir.

 

Não é bruxedo

nem artimanha

mental

para conduzir o homem a actos

tresloucados,

ou inteligentes.

É apenas a certeza

de que o meu plano

maquiavélico

tem uma certa beleza,

ditada pela lado da faca

que escolho

e agora em ti uso,

indolor mas verdadeiro,

e que assim melhor obtém o

sangue

que desejo extrair.

 

Ainda não estás a sentir?

É pena.

 

Roguemos.

 

A mente é trôpega, 

sempre,

na dúvida,

e o mecanismo

assim

fica mais fácil de manipular.

 

Não é necessária

a aflição,

pois prometo usar,

sempre,

o lado da faca

mais adequado 

e que deixe

menor dor.

 

E quando assim não dói,

e quando nada temos a perder,

e quando a direcção é sempre no sentido

da ascensão,

sempre abriremos os braços

(coitados),

para receber o que venha

ao nosso encontro,

nem que para isso, assim,

uma vida inteira 

tenhamos de ficar.

 

E assim, de braços abertos,

é certo que levaremos

com a faca afiada

pelas costas

adentro,

e o mal, sempre, 

não está na lâmina,

mas na mão decidida 

que a segura

e a enterra

na carne.

 

Fechemos os braços, então,

por agora,

e não os abramos

de qualquer maneira,

mesmo que uma barcaça

carregada de ouro

suba o Tejo

sem vela,

sem remos, 

contrariando as correntes 

descendestes evidentes

do rio,

contrariando assim uma verdade

(tão certa),

mas ofuscada pelo brilho

refulgente

de peças de ouro amarelo

que nos caem graciosamente

no colo.

 

Fechemos os braços. Fechemo-los!

(antes que seja tarde

de mais) 

 

Quem defeca?

És tu ou sou eu,

pensa o cão

com um ar trocista.

 

Este é o primeiro uso decente 

da faca

que faço,

e do sangue que agora extraio,

ainda incolor,

sem dor.

 

Nada se sente, portanto,

mas o sangue já corre.

 

Choremos, então.

 

Fim da Preparação.

 

 

 


18
Ago 13
publicado por P. Barbosa, às 11:52link do post | comentar | | | Partilhar

O Quarto Branco


19
Jul 13
publicado por P. Barbosa, às 23:40link do post | comentar | | | Partilhar

Estão bem umas para os outros.

 

Merecem-se. A ideologia perfeita não tem ideal. Ideal é sinal de fraqueza, prova de que o pensamento necessário não foi completamente executado.

 

Ideologias, teologias, manias; preguiças, conveniências do homem e dos seus ocultos desejos; arranja-lhe os pensamentos, ideias, convencimentos, bulas e mestrados para justificar o que já foi pensado (cospe para o lado).

 

Achamos por bem que sim, que a ideia é boa; boa porque nos convém. Nenhuma ideia desagradável e boa foi ainda inventada, estranha coincidência. Que fazer, então?

 

Os que pensam diferente gritam palavras de ordem e levantam o punho. Erguem barricadas e puxam do gatilho; pensam como toda a gente.

 

E alguns, poucos, apenas encolhem os ombros e seguem em frente: que se atulhem na merda que jorra de um lado e do outro da barricada. Subirei ao topo do monte mais branco e assobiarei para o lado para disfarçar o vento gelado que me queima a pele.

 

Ideologias e idiotas: quem as não tem?


29
Abr 13
publicado por P. Barbosa, às 18:39link do post | comentar | | | Partilhar

Porquê?
Havendo ideologias e idiotas, havendo comida para comer.
O ódio e o amor também,
E o ar, não pode faltar o ar,
E não nos esqueçamos daquele momento que não sabemos lembrar,
Daquele, quando o coração acabou de dar o batimento,
E fica ali, pendurado, a matutar,
Se vai em frente ou se resolve parar.
Um momento; 
Tenho de olhar.

 

1, 2, 3

Diga lá, como fez?


26
Abr 13
publicado por P. Barbosa, às 18:02link do post | comentar | | | Partilhar

Crónica da Morte de um Pai


24
Abr 13
publicado por P. Barbosa, às 23:51link do post | comentar | | | Partilhar

Um navio é sempre um objecto improvável; aço que não se resigna a ir ao fundo, montanha improvável flutuando no ar. O mar solto balança o navio de um lado para o outro. Gotas de água que nada podem enquanto se desfazem suicidas contra o casco. Corroem. Dão coices de lado. Cospem-nos sal para cima. Conjuram vento e chuva para nos levar ao fundo.

 

Resignamo-nos a não pensar.

 

Estou no convés. Estou aqui, fez agora duas semanas. Balanço para cima e para baixo. Balanço com o balanço do navio. Balanço com o balanço do navio que balança nas ondas. Não me resigno a ir ao fundo.

 

O mar não tem chão. Tem, lá no fundo que mata; o mar não tem chão. É um ser vivo revolto, inquieto. Bicho virulento que nos puxa para dentro se lhe tocarmos nas mãos líquidas que devoram. Se cair, só saberei nadar durante um tempo. Depois, faltar-me-ão as forças ou a vontade, tanto importa, e desaprenderei de nadar. E se por milagre boiar, o mar líquido encarregar-se-á de convocar criaturas marinhas desejosas de me desmembrar e engolir.

 

Porquê a poesia? Será poesia?

 

Ontem atirámos um homem ao mar. Vivo. Assim, sem mais nem menos.

 

O navio é o mundo. O mar, o resto do universo escuro e medonho onde não sabemos voar. O convés é um continente. A camarata outro. A messe

outro. A ponte de comando outro. É lá que vive o ditador. O navio é o mundo e não existe mundo para além dele. Durante o mês e meio de viagem através do Pacífico, se o vento ajudar, o meu mundo é plano e tem um abismo onde podemos cair. Flutuamos sobre um buraco negro que nos engole se não tivermos cuidado; se quisermos.

 

As regras da física não se aplicam. As regras do homem não se aplicam. Habito um mundo com meia dúzia de metros quadrados que obedece à vontade de um homem louco, que decide atirar homens fora, para o buraco negro, se assim desejar. É desta maneira que o monstro ganha força; o comandante e o mar.

 

Porquê a poesia? Não será antes medo?

 

É a minha primeira vez, e depois do que fiz tenho a certeza de que será a última. A viagem tem um tempo. O Pacífico tem um comprimento. O mundo tem um tamanho logo devorado assim que se avista terra firme. Antes de lá chegarmos o comandante há-de atirar-me borda fora.

 

Ele não me vai perdoar.

 

Ficarei sozinho a flutuar em nada, no silêncio do mar. Hei-de ver o navio encolher e desaparecer no horizonte. O mundo há-de morrer. Sentirei, finalmente, a água. Sentirei o bicho que se prepara para me devorar. Mas vai demorar. E se me acobardar, se fingir desfalecer, se desistir sem sofrer, então o mar trará os monstros de dentes afiados que virão, primeiro, docemente lembrar-me da sua presença, depois, roçar-se educadamente de boca aberta, e for fim experimentar o sabor da minha carne, mas sem matar, primeiro sem matar. Só quando não houver mais medo para sentir é que o golpe final será desferido. Foi assim o pesadelo sonhado. Sempre tive medo do mar fundo. Que estou aqui a fazer?

 

Morrer?

 

Aguardo pelo instante em que o comandante há-de enlouquecer? Surpreendo-os saltando no abismo? Tenho menos de um mês e não sei quanto tempo tenho.


18
Abr 13
publicado por P. Barbosa, às 12:31link do post | comentar | | | Partilhar

14
Abr 13
publicado por P. Barbosa, às 09:31link do post | comentar | | | Partilhar

Bem-vindo, Sol!

 

Está na altura de por o pézinho na água, de sentir o calor sobre o frio, de espreguissar o encolhimento, de abrir a janela e deixar sair.

 

 

 


Não Levo Saudade (eBook)

Romance, 270 páginas

Published: Feb. 18, 2013
Words: 45,071 (approximate)
Language: Portuguese
ISBN: 9781301502349

eBook disponível no iBooks, Kobo, Scribd, Kindle, Nook, Goole Play , e no SmashWords.

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