Não sei porquê, mas quando a porta do metro se abre é como se visse um filme de terror.
Recordam aquela imagem estereotipado dos filmes de terror, com zombies em passo lento e em grupo aproximando-se da vítima aterrorizada? Pois é assim que eu me sinto quando a porta do metro se abre e procuro sair. Tento sair enquanto um grupo disforme de mortos-vivos se vai aproximando, aproximando, eu tentando sair e eles em passinhos lentos fechando o espaço por onde tenho de passar.
Se o Metro colocar uma banda sonora adequada, vou começar a berrar e a correr.
Vamos lá esclarecer uma coisa: fiquem todos quietos enquanto não sair toda a gente (e parem de me assustar).
Dizem que somos o que comemos. Outros, porventura mais inteligentes, dirão que somos o que fazemos. Mas é tudo aparências, Tudo. O homem que somos por dentro é aquilo que faremos.
Sonho com um mundo idílico, perfeito, sonho com um lugar de casas, prédios, ruas, jardins, passeios; direitos. No comboio olho a janela e sonho, olhos abertos, com um mundo igual a este.

A mulher com duas barrigas de tamanho e cabelo pintado de amarelo ralo, a velha surrada pela vida (acabou agora de ser surrada, vê-se bem), a gorda de muletas que afoga as mágoas no bolo que come escondido do saco, a ameba humana, semi-homem, em pé encostado ao corrimão, olhar incerto, vermelho como um pimento, engravatado num fato barato, pobre coitado, a jovem andrógina, tem barba? Será rapaz? As crianças que disputam a atenção da mãe, que felicidade.
O Mundo passa por mim.
Passa à velocidade de um comboio que me transporta; para um destino.
O mundo passa por eles, pelos outros, indiferentes.
Viro o olhar. Do outro lado.
Duas filas mais à frente.
A rapariga jovem da cara sarapintada vive a felicidade dos dias novos, sorri e abraça-se ao namorado indiferente.
Sorri, aconchega-se, adormece.
Escrevo; escrevo para não me esquecer.
Vislumbro uma ideia de felicidade, quando olho para a rapariga jovem que se reconforta, que se aconchega.
Vislumbro uma felicidade nova e antiga, que já passou, que nunca tive, maior do que eu;
sempre foi maior do que eu.
A verdade. A realidade; novamente.
Volto para mim, volto para detrás dos meus olhos;
volto para de onde nunca saí
A falência é boa, seja qual for sua qualidade. Esfrego as mãos de contente, largo tudo e tudo é promessa de começo.
Não há alegria maior do que uma folha branca, um lápis e um esquadro. Tudo é futuro, e o passado perde todo o seu poder. A memória, o carro e a televisão são assassinos da [minha] liberdade.
A falência é boa, se resoluto [estou] em enfrentar a vertigem. A falência é tua. Caímos para os dois lados, agarramo-nos ao que estiver mais à mão.
A moral é relativa, a relatividade de tudo é uma moral. Sigo esconso pela beco fora, ignoro tudo, a sujidade, o mau cheiro, o prédio degradado, a puta que aguarda, o fedelho que chora, o proxeneta que sonha, o polícia que ignora, a ferida que sangra no meu pé, prego ferrugento espetado pela vida para me avivar a memória. Não o quero, que merda, não o quero, já disse, tudo o que decido é [sempre] certificado pelo passado, decido nada.
Sou apenas o que já fui. Desagua verme, alma naufragada abandonada nesta ilha planetária.
Procuro algo na rua de um sentido só, sem destino, só caminho, finjo, próprio de quem finge, próprio de quem sabe, próprio de quem tem medo da vertigem.
Sofremos por partes, mas a felicidade é sempre um todo. Dói-me o braço ou a alma
[mas nunca fui feliz de uma perna]
Somado, a felicidade é-me equívoco, estatística pequena no universo largo das possibilidades. Dividido, o sofrimento multiplica-se germe
[soma descendência pelas três dimensões]
Sobra-me a fuga em frente, incerto se devo sonhar alcançar a primeira
[ou sonhar fugir da última]
O todo desmorona-se, sempre. Corro, enfim, cobarde
[satisfaço-me com permanecer ao meio]
(Tentativa)
Sabes, gostava poder olhar-te e sentir que não estou frente a um espelho.
Temos a espessura de um vidro vulgar banhado a prata falsificada. Toco-te para saber se és real, e és. Olho-te para além do reflexo que és, e és nada.
Escondo-me no medo de encontrar essa sobra a cores que representas. Vejo-te repetir aquilo que já fiz; adivinho naquilo que fazes as coisas que um dia farei.
Prefiro não ver.
Temos a espessura de um vidro vulgar banhado a prata.
A bondade é uma artimanha da iniquidade. A bondade é o conforto do nosso desconforto, e nada mais.
A moeda que retiras do bolso tem o tamanho do incómodo que acertou nos teus olhos.
Olhamos a miséria ao nosso lado e incomodamo-nos. Olhamos a miséria ao fundo da rua e incomodamo-nos menos. Olhamos a miséria no horizonte e lançamos um suspiro.
Para lá do horizonte não sofre nem morre ninguém (acredita).
A bondade tem a espessura de um vidro vulgar banhado a prata falsificada.
A miséria é esperta.
A miséria sabe que jamais terá direito à comida que engorda o porco que se olha ao espelho enquanto palita os dentes.
A miséria sabe que o peso da moeda de oferta tem o tamanho do incómodo colocado em frente ao espelho banhado a prata falsificada.
A miséria quer ser miséria.
A bondade quer ser bondade.
A miséria não quer morrer, desaparecer.
A bondade não quer morrer, desaparecer.
Temos a espessura de um vidro vulgar banhado a prata falsificada.
Preferimos não ver; e não vemos.
Palitamos os dentes e gastamos o tempo olhando a imagem reflectida no espelho (vejo-te).
Não sabemos que temos a espessura de um vidro. Não sabemos que não vemos. Não Sabemos.
A bondade e a miséria sorriem; sorriem.
http://pt.scribd.com/doc/36482146/Temos-a-E