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De repente, ficou tudo negro!

por P. Barbosa, em 11.11.08

De repente, ficou tudo negro.

Era um negro diferente. Não era o negro que se vê quando se fecha os olhos ou se desligam todas as luzes.

Essa escuridão é uma falsa negridão. É como tapar os ouvidos ou suprimir apenas um dos sentidos. Não, esta negridão era absolutamente vazia de tudo. K1 não sentia onde estava, ou sequer que estava em sitio algum, pelo menos não sentia o frio do chão, caso tenha caído e esteja agora estatelado no passeio.

Não sentia o frio do vento, nem sequer a sua pressão. Não sentia sabor, não sentia o odor ou ouvia qualquer tipo de som.

Da pele não vinha sinal algum, era como se tivesse perdido o corpo sem querer, a sua existência agora apenas acompanhada por meia dúzia de desorientadas vontades que não sabiam que fazer, uma imagem titubeante que se esfumou, um som imaginado que rapidamente se calou, um ou outro sentimento que, desamparado, esmoreceu e evaporou.

De repente, ficou sozinho.

Sozinho, como um homem só pode ficar depois de morrer.

Esta coisa de se tentar descrever um sentimento, como este que se quer descrever, é uma ingrata missão.

É como tentar pintar um quadro com palavras, e as palavras não foram inventadas para isso.

As palavras são um artifício económico e, tal como os números, servem apenas para nos entendermos uns com os outros, para nos organizarmos confortavelmente na monotonia da vida.

Não sei quem inventou os poetas, mas ser poeta é certamente a profissão mais frustrante do universo.

É como dar uma caixa de fósforos a um engenheiro e pedir-lhe para construir um arranha-céus. O mundo dos poetas ou é o mundo das lamechices, como o amor, ou dos segredos perfeitos que governam o universo mas que são inalcançáveis às palavras.

Os segredos perfeitos não podem ser descritos, apenas sentidos.

Nem com todas as explicações oferecidas por todas as combinações possíveis de todas as palavras que existem seria possível descrever o que K1 sentiu.

Assim, apenas pode ser pedido que, pegando nesta caixa de fósforos que são estas palavras que se oferecem, se tente sonhar e imaginar o que por detrás das palavras se pretende explicar. E, com sorte, algum dia, alguém há-de sentir igual e entender.

 

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publicado às 22:48


5 comentários

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De A Filha da Mãe a 12.11.2008 às 15:42

Concordo que não há missão mais ingrata do que tentar pôr o "sentir" por palavras... É quase contra-natura.. :)
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De P. Barbosa a 12.11.2008 às 20:50

Eu diria que, além de ingrata, é muitas vezes inútil

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De x_vadia a 19.11.2008 às 15:07

Todos os sentimentos são inexplicáveis ... são apenas informações que os seres biológicos são capazes de sentir nas situações que vivenciam!!!! *****
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De Isa_ a 25.11.2008 às 23:44

como é q sabes q k1 sentiu isso?! das 2 uma: ou tu és ele, ou tas a inventar! pq se a experiencia é a de se estar sozinho, n há ninguem q o ouça! faz sentido?!
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De P. Barbosa a 26.11.2008 às 00:32

Se eu soubesse o que sou poderia te responder...O que se escreve é sempre inventado, até ao momento em que se acredita no que se escreve.

É uma opção.

O que escrevo é fictício, uma imaginação. Mas não te esqueças que a imaginação é apenas uma verdade à espera da oportunidade.

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Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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