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Foi Por Esta Altura...

por P. Barbosa, em 25.03.09

Foi por esta altura em que os sonhos de Zodiak se extremaram que me apercebi de uma verdade; vivia sozinho na cidade, num vazio que não tinha emoção.

Depois da morte da minha filha separei-me de toda a gente. Achava que esse acto rude que afastou a minha mulher e os amigos para longe de mim era na verdade o acto natural de quem não tem a certeza que ficou vivo.

Na verdade, a morte de Joana levou-me o amor e a emoção, mas deixou-me para trás.

Deixou-me para trás sem saber porque não fui também a enterrar. Vivia sozinho na cidade, como sempre vivi a vida toda desde que nasci.

E o ruído da cidade sempre me ocultou esta verdade. Nem mesmo quando este ruído era composto por silêncio absoluto. Nos recantos mais escondidos da cidade não existe sinal de uma mosca a esvoaçar ou de um canto de pássaro.

É o silêncio da morte que se espalha em redor de tudo aquilo em que a humanidade toca. Na cidade, o silêncio absoluto é ensurdecedor.

Um dia, sem mais, e para surpresa minha, fiz uma viagem às montanhas. Foi aí, numa encosta monumental, que me apercebi; faltava-me o silêncio dos pássaros.

O silêncio dos pássaros permite-nos ouvir coisas impensáveis, coisas que já foram esquecidas pela humanidade e ofuscadas pelo ruído e silêncio da cidade.

O silêncio dos pássaros dá-nos um dom especial de visão; a contemplação do recorte das cadeias de montanhas sobrepostas sobre o horizonte manchado pelo céu vermelho de um por de sol. As árvores infinitas que preenchem o mundo e que acenam ao vento às nuvens tranquilas lá em cima e que anunciam o início da noite.

O silêncio dos pássaros é a tranquilidade que permite reduzir o tamanho do mundo para metade. Ouvimos as palavras de uma criança que, ao longe, parecem perto, o ladrar do cão que ressoa nas montanhas e o faz triplicar, faz-nos sentir o peso da caruma que se parte como ossos por debaixo dos pés, faz-nos sentir o frio da neblina que inicia o seu deitar, ou ouvir o palpitar do sangue na veia junto à minha orelha.

O silêncio dos pássaros faz-me ser e pertencer, permite-me ver e sentir. Multiplicou-me por mil. Tirou-me do turpor do vazio e devolveu-me a razão. Compreender e até perdoar.

Sim, perdoei-Lhe.

Porque olhando aquela imensidão de mundo que se debruava a meus pés, percebi que o acto ignóbil que levou a minha filha não era ignóbil.

O grande mistério do mundo não é saber que Deus manda no mundo. O grande mistério do mundo é descobrir; Deus não sabe que existe. 

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publicado às 16:30



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Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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