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Tanto rancor tem uma simples razão de ser...

por P. Barbosa, em 26.03.09

...

Mas tanto rancor tem uma simples razão de ser; levaram quem mais amava e queria proteger. Com um invisível estalar de dedos fizeram-na desaparecer.
 
Em menos de duas semanas, a minha pequena filha, que ainda não tinha completado o seu sétimo ano de vida, definhou e morreu. Levada por uma doença que nenhum médico foi capaz de compreender.
 
Foi o sinal que me faltava para entender. Nos seus últimos instantes de vida olhou-me nos olhos para se despedir, uma tristeza amedrontada que pedia desculpa ao pai por aquilo que estava a fazer, e que me fez revoltar as entranhas, vomitar, odiar, ter vontade de matar.
 
Procurei a vida toda, em vão, o pescoço do responsável para estrangular. Só muito velho me convenci que não há. No seu lugar só existe ar.
 
Depois de morta e ter ido a enterrar, afagaram-me as costas com o conforto dos inúteis.
 
Disseram-me que dizia palavras injustas e até de profanação, que Deus tinha um plano maior que nos cabia respeitar e que não éramos capazes de entender, que na nossa insignificância deveríamos apenas seguir e aceitar o caminho que nos tinha sido traçado, para percorrer.
 
Mas o ódio não desapareceu.
 
Posso ser insignificante na escala do tempo e da matéria, mas sou.
 
E ser é a razão de toda a complicação.
 
Ser é a pequena palavra que encerra o poder infinito capaz de transformar um simples átomo de matéria na vontade de se conhecer.
 
Ser é a força omnipotente que me permite elevar nos céus, acima de qualquer Deus, e esmagar todo aquele que se atreva a aparecer. Mas o meu poder infinito é de estranho formato, que podendo dar cabo do autor não é capaz de eliminar o seu efeito.
 
Agarro-me a ela num último e inútil movimento, esperando que uma qualquer propriedade de absorção a possa salvar, transportando para mim o mal que alguém lá fez nascer.
 
Choro sangue quando ela se despede com o seu último olhar, fechando os seus olhos para toda o sempre, e deixando-me vivo para sofrer.
 
Sofrer até ao fim; agarro-me ao sofrimento porque mais nada sobrou.
 
A minha sina, a minha salvação.
 
...

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publicado às 22:50


2 comentários

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De Maria Fragoso a 27.03.2009 às 08:09

Olá, vim parar ao seu blog por acaso e fiquei sem palavras ... há momentos na vida que não sabemos muito bem o que dizer, eu quase perdi a minha filha por negligência médica, ela sobreviveu com algumas limitações físicas e sabe contínuo magoada, revoltada por tudo o que aconteceu ... mas dói-me no fundo da ala sequer imaginar o seu sofrimento, pois é um sentimento de impotência total. Desculpe a intromissão ... Um beijinho e se quiser visite o meu cantinho
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De P. Barbosa a 27.03.2009 às 19:52

Vou visitar de certeza.

Beijinhos

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Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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