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3ª Tempo - A Mulher

por P. Barbosa, em 17.09.10

Nota introdutória: Este texto é antigo, mas como entretanto foi revisto, publico-o novamente. Faz parte de uma história maior, por isso façam um desconto ao contexto. E corrigi os erros de português...acho. Se encontrarem algum, sejam implacáveis...

 

 

De Segredos Perfeitos: A Mulher

 

 

Entrou como se fosse dona do mundo sem ter de o proclamar. Morena, esbelta como uma estátua, com cabelo comprido e ondulante em perfeita sincronia com a passada segura e medida para lhe acentuar a sensualidade, como num filme de Hollywood em câmara lenta.

 

Os olhos tinham a profundidade do carvão quando iluminados pela chamas da emoção. A pele, levemente bronzeada e pontilhada com pequenos sinais, estrategicamente colocados. O canto dos seus lábios vermelhos exibia uma inclinação sarcástica, que parecia dizer; «Apanha-me se és capaz».

 

Imaginou imediatamente o prazer de beijar aquela boca, tocar-lhe na língua e sentir o seu calor, primeiro suavemente para um lado, depois para o outro, sentido ao de leve a sua cara na dela, depois, mais intensamente, chupando-lhe a língua e os lábios, como quem prova uma ameixa madura.

 

O cabelo descaía em encadeadas ondulações sobre os seus ombros seminus, cobertos apenas pelas finas alças de um vestido que dificultava ou estimulava, não sabia, a tarefa de perceber o corpo que por debaixo se escondia. Ao mesmo tempo que escondia, mostrava, primeiro, os seios perfeitos. Capazes de, sozinhos, levantarem uma montanha com o poder da mente, eram firmes como o desejo. Tinham o tamanho perfeito para o amor; nem demasiado grandes para se tornarem um problema de logística, nem demasiado pequenos para limitarem a capacidade de exploração. Poderiam ser pousados na sua mão, aquecendo-a, encaixando naturalmente e transbordando como mel espesso.

 

Uma medida bem medida.

 

Mais abaixo, as ancas. Esbeltas, como que talhadas em mármore pelo próprio Diabo, desenhavam uma curva suave, mas pronunciada, perfeitas para serem agarradas, estimuladas, ondulando o necessário para produzir o efeito desejado. As pernas, intermináveis, dignas de uma verdadeira mulher imperial, desenhavam uma seta na direcção do desejo supremo que prometia o calor de mil sóis.

 

Ela aproximou-se de uma mesa, afastada uns seis metros de Zodiak, e meteu conversa com duas outras raparigas que aparentavam ser suas amigas. Permaneceu em pé durante um momento e depois sentou-se, trocando conversa e sorrisos próprios da idade e da ocasião.

 

A contemplação de tão profunda beleza tinha-lhe parado ou acelerado o coração, não o sabia bem, mas misturou-lhe na alma prazer e ansiedade.

 

Prazer, porque é essa a função da beleza. Nunca percebera o poder contemplativo das grandes obras de arte, seja ela a Gioconda, a Capela Sistina ou uma estátua Grega. Eram objectos mortos, estáticos, que não sabiam que existiam e que estavam ali. Não sentia nada de volta por eles. Ao contrário, a contemplação de algumas mulheres exercia sobre Zodiak um profundo poder hipnótico. Era capaz de permanecer horas seguidas observando, não por causa de um qualquer desejo sexual, mas simplesmente porque a beleza lhe dava prazer e uma estranha mistura de sensações lhe invadia o corpo e o não deixava mover.

 

Aquela que agora se passeava em frente dos seus olhos era especial. A visão daquele ser dá-lhe uma dose cavalar de urgência, de responder a uma necessidade que antes não sentia mas que agora sente e que não sabe controlar.

 

Talvez o desejo já existisse, talvez alguma parte de si tenha sido construída para responder com uma emoção mais poderosa que o próprio instinto da vida, mas está adormecida até que uma visão, um cheiro, um tocar, desperte o mecanismo e este tome conta da alma do homem, como se lhe dissesse sem dizer, de repente, «Esquece tudo. É aquilo que agora tens de procurar, conquistar e possuir, custe o que custar».

 

Zodiak sente agora uma confusa mistura entre o prazer prometido e o medo de não conseguir ter o que agora cobiça, um medo dele próprio, a angústia de um dia ter de se apresentar ao seu amo e dizer «Perdi-a, não consegui que ela fosse minha». Aquela confusão de emoções toldou-lhe a razão. Tinha de, conscientemente, manter a calma, dizer ao bicho que estava dentro de si «Acalma-te, deixa-me pensar, preciso de desenhar uma estratégia de aproximação e conquista».

 

E neste diálogo interior, entre o animal que sente e o animal que fala, um diálogo numa linguagem inventada como todas são, o primeiro cede à razão e o segundo planeia a emoção.

 

Ela levantou-se em direcção ao balcão. Ele fez o mesmo e aproximou-se dela. Na música ambiente tocava ‘Celebrate’ dos Kool&The Gang. Enquanto se aproximava, a beleza dela infundia-lhe um desejo crescente que ameaçava o incontrolável.

 

Enquanto ela pedia qualquer coisa ao barman a luz do holofote iluminou-lhe o cabelo e o pescoço, produzindo um milhão de tons de âmbar que nunca antes haviam sido vistos.

 

Era beleza pura, no seu estado mais selvagem, que merecia ser apreciada e tocada. Deviam chamar os poetas do mundo para a descrever, se fosse possível usar palavras para desenhar tamanha beleza e emoção interior, para que os infortunados deste mundo, para que aqueles que percorrem vidas inteiras a calcar o chão deste planeta, para trás e para a frente, sem rumo e destino, pudessem finalmente compreender que é aquilo que sempre procuraram sem saber, e que nesse momento único de êxtase perceberão que já não precisam de continuar a andar, que podem parar e desfrutar. 

 

Ou para aqueles que, não sabendo o que procuram, desconfiam, e, num movimento tão repetitivo quanto inútil, dedicam a vida inteira a prazeres constantes e incontrolados, a tesões que crescem e se esfumam à velocidade de um balão que se enche e, logo de seguida, por falta de fôlego, se esvazia. Ou ainda aqueles que desconfiam que nunca vão conseguir ter o que secretamente desejam e, assim, procuram enganar o seu animal interior com vícios e inúteis distracções.

 

Ou ainda aqueles que procuram sucedâneos e redenções como a caridade, bondade e fé. Ou ainda os realistas, que cansados de andar sem saber para quê, percebendo que já têm as solas rotas e que não vale a pena continuar sem ter nada para receber, que não tiveram a fortuna ou, por alguma razão inexplicável, o criador coloco-os no mundo apenas para sua troça e apreciação do seu sofrimento, resolvem colocar a vida ao cuidado da omnipresente e omnipotente força da gravidade.

 

Zodiak chegou ao balcão com os olhos postos nela, que lhe devolveu um olhar e um sorriso que lhe gelou o corpo. Virou-se para esconder o que sentia, contrariando a sua vontade mais fundamental, mas a sua alma ficou ali especada voltada para ela.

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publicado às 21:33


10 comentários

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De Blue Eyes a 01.05.2008 às 18:13

Que grande descrição!
Gostei!

Abraço
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De P. Barbosa a 05.05.2008 às 23:08

Obrigado pela tua contribuição.
No próximo vou passar à acção
(rima...)
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De R.Cheiros a 23.05.2008 às 21:21

A imaginação dos homens para descrever uma mulher não para de me surpreender!
Com a dificuldade agravada de quem não tem visão de RX sabe ao pormenor todas as curvas e texturas por baixo de um vestido. :)
Fantástico!!!
A historia tem mais alguns capítulos suponho..?

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De P. Barbosa a 23.05.2008 às 23:53

Mulher,

Não te vejo e já te estou a imaginar. Qualquer dia escrevo um post sobre ti.

A história terá mais capítulos...se tiver vontade.
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De Artemisa a 21.07.2008 às 10:15

=D


*
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De Bete do Intercambiando a 18.09.2010 às 20:58

Realmente o homem torna-se um poeta, diante de um "belo pedaço de carne"!..Pena, que no dia-a-dia, nem sempre ele consiga, transformar esse primeiro impulso, em algo sustentável, e que precise sempre de novos estímulos para sentir-se pleno!
Se o homem usasse esta "sensibilidade" no seu cotidiano, os casais com certeza seriam bem mais felizes.
Fiz um post a alguns dias sobre isso, bem engraçado!....É um piada, mas bem verdadeira! Se quiseres ver: http://intercambiando.blogs.sapo.pt/20915.html
Bete
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De P. Barbosa a 18.09.2010 às 23:18

É sempre uma mulher, nunca «carne». É claro, também, que o homem não sabe que deseja para além da mulher. É uma fraqueza que tens de nos perdoar...

Gostei do teu post. É macumba!

T
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De Bete do Intercambiando a 18.09.2010 às 23:24

Uma amiga, fez um comentário no post: porque será que Deus criou 2 seres tão diferentes?...E eu complementei: E porque será, que mesmo diferentes, gostamos tanto???????Realmente é um mistério!
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De ull de la tempesta a 21.09.2010 às 00:30

O poder de dominar é tentador.
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De P. Barbosa a 21.09.2010 às 13:00

Sempre. Mas ao mesmo tempo, também é assustador.

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Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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