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O Caminho de Verónica

por P. Barbosa, em 27.08.09

Por vezes as aparências iludem. Por vezes o cordeiro devora o lobo. Por vezes não sabemos o que temos dentro de nós. Por vezes somos apanhados de surpresa com o que fazemos. Por vezes, não há nada a fazer.

Verónica tinha acabado de entrar nos quarenta. Dona de uma estranha beleza, capaz de atrair e repelir os homens de si. Sempre viveu só. Assim; contra a sua necessidade mais fundamental.

Era uma anónima secretária num banal edifício de escritórios. Ocupava um rectângulo no gigantesco mosaico de vidros que compunha a fachada. E nada mais.

«E nada mais», pensou ela no dia desse fatídico aniversário, em frente do quadrado de vidro no qual vivia. A nada mais tinha direito; à sua mãe, restos de uma família que nunca verdadeiramente teve. Vivia numa roulotte do outro lado do país, na Califórnia, emborcando garrafas de Whisky à velocidade de um sonho.Há já cinco anos que não trocava uma palavra com ela.

A nada mais tinha direito; aos seus colegas de trabalho, que nos dez anos que ali estava nunca tinham chegado a sê-los; colegas, quero dizer. Nem sequer sabiam que era dia do seu aniversário. E era tudo, não havia mais nada para contar.

«E nada mais», voltou a dizer, agora em voz baixa, com os braços cruzados, resignada.

Nessa noite, depois de ter vagueado pelas ruas de Nova York durante mais de duas horas, sentiu a solidão que tinha e toda aquela que ainda estava para vir. Secretamente, deixou cair a esperança do amanhã. Secretamente, convenceu-se que alguma coisa que tinha de mudar. 

Como se verificou tão grande mudança nunca me foi possível entender ou explicar. Apenas sei que sobre as três semanas seguintes ao seu aniversário se estendeu um manto negro que nunca me foi possível destapar. Por mais que procure, pergunte ou investigue nunca consegui encontrar o mais leve indício do que verdadeiramente aconteceu. Apenas posso especular.

E o véu de encobrimento só foi levantado sobre um beco em Harlem, três semanas depois, numa noite de lua nova, e com o chão manchado de sangue. Lá em baixo jazia uma criança que não tinha mais do que catorze anos.

Em pé, Verónica, com uma faca de talho na mão ensanguentada. Mas não era o sangue que impressionava, nem tão pouco a expressão lívida que a rapariga de cabelos loiros tinha agora na face. Ao longe, a pobre coitada parecia repousar numa tranquilidade angélica, uma paz que contrastava com o que mais ao perto se podia encontrar.  A barriga tinha sido aberta e as tripas puxadas cá para fora, num monte. Em cima desse monte de vísceras, um pedaço do seu pequeno útero, arrancado a golpes de principiante. Os seios tinham sido retalhados e jogados para o lado, as pernas decepadas pelo joelho. Sangue, fezes e urina por todo o lado. Vomitei. 

«Que fizeste tu?», perguntei-lhe, enojado com o cenário que estava montado. Não me ligou, não reagiu, não lhe vi sentimento algum. Ao fim de um tempo respondeu-me; «Vai-te foder».

 

(...)

 
 
 

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publicado às 00:24



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Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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