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4º Tempo - Simplesmente, Sexo

por P. Barbosa, em 17.05.08

 

   - Desejo-te Anna – diz, enquanto tenta controlar uma ansiedade que nasceu dentro de si e vai lutando para controlar a sua vontade.

 

 

    - Desejas-me? – Anna solta uma gargalhada que Zodiak não percebe se de desprezo se de surpresa. Na verdade, e para alguém que não era propriamente noviço nestas andanças, a abordagem era bastante amadora.

 

Anna olha de lado para Zodiak esboçando um primeiro sorriso cúmplice, enquanto avalia a proposta implícita na afirmação, avaliando numa balança mental o que pode tirar da oferta e o que tem de pôr em compensação, perguntando às diferentes vontades que vivem consigo, e que constituem aquilo que ela é, se deve ir ou se deve ficar.

 

E cada uma dessas vontades, cada uma delas voltada apenas para o seu umbigo, avalia e pondera se deve ir ou se deve ficar. Luxuria, prazer, preguiça, amor, vergonha, ansiedade, dor, e tantas outras votam e apresentam argumentos num parlamento mental até que uma decisão final é comunicada ao actor que encena a vida.

 

 

Anna esboça um segundo sorriso afirmativo, dá-lhe um beijo nos lábios, sai vagarosamente como quem vai deixando migalhas no chão, traçando um destino para Zodiak que avidamente segue julgando-o seu. E, ambos, fazem o que lhes mandam, Anna julgando que escolheu ter sexo com Zodiak, este escolhendo um caminho que apenas deseja e que pediu que fosse traçado.

 

 

Zodiak segue Anna, aproxima-se e toca-lhe suavemente com os seus dedos nos dela, aprecia a sua beleza debaixo da luz amarela mortiça da rua, absorvendo os movimentos seguros e hipnóticos das suas ancas que deseja tocar e agarrar, imaginando os prazeres repetidos que imagina há muito tempo.

 

Entram num pequeno beco onde Anna tem o carro estacionado, entre o fundo da ruela e um caixote do lixo que, como todos os caixotes do lixo, são o reflexo material, nas pessoas, do esgoto mental das coisas que já não desejamos, que deixaram de ser desejadas e que por isso se tornaram incómodas.

 

 

 

Quando se aproximaram do carro, Zodiak segurou-a pela anca, agarrou-a contra ele apenas com a força suficiente para que todo o seu corpo encaixe no dela, sentido-o como algo seu. Um novo sentimento percorreu Zodiak, um sentimento que ansiava ser sentido desde o início da sua existência, um sentimento que procurou a vida inteira sem saber que procurava, como se, encostado a ela, a outra metade do puzzle tivesse encontrado a primeira, sabendo agora as duas, numa só, para que servem e qual o seu destino.

 

 

Mas esta primeira emoção estava ultrapassada, estava sentida e usada, deitada para o caixote do lixo já ali ao lado, e outras queriam agora ocupar a frente do pelotão, e Zodiak nem a um décimo da sua vontade ia. Não tinha propriamente planeado o momento, embora o tenha imaginado de muitas formas e feitios, mas as coisas não acontecem quando ou como as pessoas querem, mas apenas quando a oportunidade se lhes apresenta, quando o veado por mero acaso se atravessa no destino do caçador e este aproveita para o perseguir e caçar.

 

Zodiak ia seguindo o que as suas emoções lhe diziam, como num livro de instruções para a montagem de um brinquedo. Pegou-lhe na boca e roubou os lábios com um beijo molhado mas suave, como quem morde primeiro meio morango para saber se é doce, antes de o engolir todo. Beijo-a duas vezes mais, espalhando mel em abundância, ela indo atrás da boca dele, ele num movimento mais brusco e agridoce mordendo-lhe o queixo. 

 

Empurrou-a para cima do capô do carro. Nenhuma palavra foi trocada, mas ela já sabe o que se segue. Abriu as pernas suavemente como quem desdobra cuidadosamente o mapa do tesouro, olhando-o de baixo para cima.  

 

Num impulso desaperta as calças, com a mão direita segura na perna dela e com a esquerda afasta a cueca de algodão, último obstáculo material entre ele e o desejo que o consome. Penetra-a, saboreando pausadamente a primeira estocada, depois uma segunda, terceira, quarta, quinta vez, acelerando o ritmo como se não quisesse deixar escapar o prazer único da primeira, momento que não se repetirá jamais, momento singular que medeia entre o não ter e o ter, entre o não sentir e o sentir, entre o não existir e o existir.

 

Zodiak persegue agora outra coisa, estocada atrás de estocada, a sua mente enevoando-se de sensações, os sentidos misturados e embrulhados, a visão que se esfuma, o cheiro do sexo que se mistura na boca, os grunhidos da sua voz misturados com a mão que toca no seio vibrante e teso, a carne que se agarra misturada com o suor do corpo.

 

Anna esta deitada no capô, costas arqueadas como que em transe hipnótico, a cabeça deitada para um dos lados e a boca aberta que grunhe prazer, êxtase, a vulva ganhando uma tesão que lhe tira o fôlego e a respiração, até que num movimento crescente de excitação, desaparecendo o espaço e o tempo, desaparecendo o ser que fala e conhece as palavras, o raciocínio e a razão, expulso para um lugar que se desconhece, expulso por um animal primordial que só sabe sentir, que aproveita o breve momento em que o mestre não está presente para brincar e gozar à vontade, sem regras e sem barreiras.

 

 

   - Aaaah..., foda-se – expele Anna. O orgasmo é o sinal de redenção, o momento em que as sensações intensas que vivem lá dentro se vaporizam e esfumam no ar, é o momento em que o ser falante volta a ocupar o corpo, em que o “Aaaah..., foda-se” serve para simultaneamente proclamar a reocupação da propriedade pelo ser que fala e porque este percebe que  o quarto está todo desarrumado. É o momento singular que medeia um mundo sem rei nem roque, sem espaço nem tempo, infinito e imortal, de um outro com regras predestinadas, com rotinas e monotonias, finito no espaço, finito no tempo.

 

 

Zodiak não se fica atrás e, num movimento simultâneo de contracção e espasmo, brota parte do seu ser para dentro de Anna, uma cápsula do tempo que, esta sim, tem uma vontade e um destino próprio que controla. Zodiak geme, uma dor transformada em prazer desde o início do tempo por vontade de alguém ou de alguma coisa que assim entende que é melhor.

 

A vontade já saiu e ele pára, tal como um autómato que perde as instruções de funcionamento.

 

 

Extenuado, colocou as duas mãos em cima do capô, encostou a cabeça na barriga quente e húmida de Anna e, de repente, ficou tudo negro.

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publicado às 22:50


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Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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