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A Consciência de Schrödringer

por P. Barbosa, em 27.11.08

- A consciência é uma coisa fascinante.
- Nem por isso
- Porquê?
- Se me estás a dizer que é apenas esse pontinho minúsculo na radiografia…
- Que interessa o tamanho? Já te disse que é uma partícula quântica.
- E…?
- Já te expliquei…ouve, um famoso cientista chamado Schrödringer desenvolveu a mecânica quântica, e criou uma famosa metáfora para explicar como esta teoria funciona, conhecida por o “gato de Schrödringer”.
- Gato…?
- E que diz que se imaginarmos um gato dentro de uma caixa, com cinquenta por cento de probabilidades de estar vivo e cinquenta por cento de probabilidades de estar morto, então, enquanto não abrirmos a caixa e verificarmos como está o gato, temos de considerar que ele está, ao mesmo tempo, vivo e morto.
- Que estúpido…
- É assim que funciona a física das partículas muito pequenas.
- E a alma de um gajo é uma coisa pequena…
- Sim…minúscula.

 

O fascínio da contemplação de que se está vivo, que se respira, sejam elas moléculas de oxigénio ou outra coisa qualquer, é fascinante porque esse sentimento só pode ser sentido por quem pensa e sente que está ali, e mais ninguém.

Em certa medida, esse fascínio é o sentimento do sentimento, a palavra mestra que, pronunciada, automaticamente materializa a alma de um homem.

Se a alma vive uma existência quântica semelhante a um gato de Schrödringer, então, quando o homem sente esse fascínio por saber que está ali é o momento em que se olha para dentro da caixa e descobre que o gato está vivo.

E no entanto, a K1, todos ou quase todos negavam-lhe a existência, recusavam acreditar e a crer que ele era vivo, que tinha uma vontade própria e um caminho seu para percorrer.

Negavam-lhe a vida, e isso doía.

Nesses momentos, se ele pudesse olhar para dentro da sua caixa iria certamente encontrar o gato morto.

Desta triste melancolia, K1 ficou sem saber se, nesta teoria quântica da alma, tem de ser outros a olhar para dentro da caixa e afirmar que o bicho está morto ou vivo, ou se aquele que dentro da caixa vive pode olhar-se ao espelho, pode ele próprio abrir a sua caixa pelo lado de dentro.

Talvez seja isso que distinga o homem dos outros animais, essa capacidade para abrir a sua caixa a partir do lado de dentro e descobrir que está vivo, pois o contrário não poderia encontrar, numa relação infinita e insondável entre o acto que o define e a sua própria definição.

Coisas que um gato não sabe fazer. 
 

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publicado às 00:01

De repente, ficou tudo negro!

por P. Barbosa, em 11.11.08

De repente, ficou tudo negro.

Era um negro diferente. Não era o negro que se vê quando se fecha os olhos ou se desligam todas as luzes.

Essa escuridão é uma falsa negridão. É como tapar os ouvidos ou suprimir apenas um dos sentidos. Não, esta negridão era absolutamente vazia de tudo. K1 não sentia onde estava, ou sequer que estava em sitio algum, pelo menos não sentia o frio do chão, caso tenha caído e esteja agora estatelado no passeio.

Não sentia o frio do vento, nem sequer a sua pressão. Não sentia sabor, não sentia o odor ou ouvia qualquer tipo de som.

Da pele não vinha sinal algum, era como se tivesse perdido o corpo sem querer, a sua existência agora apenas acompanhada por meia dúzia de desorientadas vontades que não sabiam que fazer, uma imagem titubeante que se esfumou, um som imaginado que rapidamente se calou, um ou outro sentimento que, desamparado, esmoreceu e evaporou.

De repente, ficou sozinho.

Sozinho, como um homem só pode ficar depois de morrer.

Esta coisa de se tentar descrever um sentimento, como este que se quer descrever, é uma ingrata missão.

É como tentar pintar um quadro com palavras, e as palavras não foram inventadas para isso.

As palavras são um artifício económico e, tal como os números, servem apenas para nos entendermos uns com os outros, para nos organizarmos confortavelmente na monotonia da vida.

Não sei quem inventou os poetas, mas ser poeta é certamente a profissão mais frustrante do universo.

É como dar uma caixa de fósforos a um engenheiro e pedir-lhe para construir um arranha-céus. O mundo dos poetas ou é o mundo das lamechices, como o amor, ou dos segredos perfeitos que governam o universo mas que são inalcançáveis às palavras.

Os segredos perfeitos não podem ser descritos, apenas sentidos.

Nem com todas as explicações oferecidas por todas as combinações possíveis de todas as palavras que existem seria possível descrever o que K1 sentiu.

Assim, apenas pode ser pedido que, pegando nesta caixa de fósforos que são estas palavras que se oferecem, se tente sonhar e imaginar o que por detrás das palavras se pretende explicar. E, com sorte, algum dia, alguém há-de sentir igual e entender.

 

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publicado às 22:48


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Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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