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Micas gostava de cenouras às rodelas

por P. Barbosa, em 08.01.09

Micas gostava de cenouras às rodelas.

Era feliz. Não sabia ler nem escrever. Não ligava a política, arte, pintura ou filosofia. Não sabia o que era isso.

Ver telenovelas era topo da sofisticação que a Micas era permitido alcançar.

Gostava de cozinhar e cantarolar. De sair de casa manhã cedo quando a maior parte ainda estava a preguiçar, comprar o pão de pantufas calçadas, sentir o ar frio da cidade a correr-lhe na cara e meter conversa com a sua amiga do rés-do-chão.

Micas repetia esse acto todo o santo dia da sua existência. Era feliz com a repetição, e a repetição retribuía-lhe com a felicidade.

Micas gostava da sorte que lhe tinha calhado em caminho. Não sabia ler, é certo, mas tal tragédia era uma felicidade. Não tinha de ler a miséria que havia no mundo.

“Que infelizes”, pensava ela, “aqueles que sabendo ler, não podem desaprender, condenados a conhecer mesmo sem querer”.

Micas não sabia o que significava a palavra filosofia, mas sabia rimar.

Era um dom que lhe fazia sorrir a boca sempre que conseguia, que lhe dizia sem dizer que ela era tanto ou mais quanto os outros. Naquela rua, ninguém era capaz de rimar como ela.

Naquela rua, não havia mais ninguém que não sabia ler. Ela era única, todos os outros trágicas imitações uns dos outros.

Micas era feliz porque podia escolher. Podia, se quisesse, ir aprender a ler, enquanto todos os outros que já o sabiam não podiam desaprender. Micas era feliz porque podia escolher, mas nunca escolheu ir aprender a ler.

Olhava para aqueles que na rua sabiam ler e via as suas caras infelizes. Todo o santo dia do emprego para casa e vice-versa. Correndo loucamente sem saírem do lugar.

Ela não. Micas era feliz porque era capaz de ver aquilo tudo e compreender.

Micas preferia cozinhar, cantarolar, cortar cenouras às rodelas e comer.

Via  telenovela, ia cedinho de manhã ao pão, metia conversa com a vizinha do rés-do-chão, e era feliz porque mais ninguém era assim nem assim podia ser, mesmo que quisessem.

Ela era livre, os outros aprisionados, e essa felicidade não podia perder, por nada deste mundo.

Tinha até medo de aprender a ler sem querer, e por isso fechava as pálpebras quando os olhos se encontravam com letras no papel.

Preferia ficar na cozinha a cantarolar. Ligar a televisão e ver a telenovela enquanto se punha a cozinhar.

Mas do que ela gostava mais era de cenoura às rodelas.

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publicado às 22:59


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Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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