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Um dia não vou acordar

por P. Barbosa, em 28.07.09

O rebordo das minhas imperfeitas palavras é o vinco que me vai tramar.

Queria tanto sentir que estou vivo, mas não sei por onde começar.

Queria garantir que não estou morto, mas as minhas mãos não param de mexer.

Hoje vi uma estrela cadente morrer.

Hoje vi um filme do outro mundo que falava da vida do taciturno.

Hoje queria beber. E bebi. Bebo enquanto o sono não me levar.

Escrevo enquanto a bebida não se acabar.

E depois, finjo que vou dormir, para me esquecer que amanhã vai tudo recomeçar.

Outra vez. A merda do recomeço é uma trampa que não tem fim.

Durmo para fingir que sou uma estrela cadente do anoitecer.

Durmo, finjo que vivo, paro para beber.

Um dia vou ser capaz de viver sem precisar de respirar.

Ah vou, nem que para isso tenha de sonhar.

Um dia, não vou acordar.

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publicado às 00:01

Agora Que Estamos Aqui Só Nós Os Dois

por P. Barbosa, em 19.07.09

Nós os dois e mais  ninguém.  

Pior. As palavras que lês são uma armadilha.

Ressoo dentro de ti. A tua voz é a minha vontade. E ao contrário também é verdade. Tomo conta do teu pensamento e nada podes fazer. A não ser fechar os olhos e deixares de ler.

Mas não fechas.

Nada mais existe a não ser as palavras que agora ganham vida. Em ti. Controlo o rumo e a direcção. Falamos de morte ou ambição? De amor ou traição? De medos ou de segredos?

O que tens para pensar? Ou queres que eu pense por ti? Estamos aqui só nós os dois.

Agora, aí dentro, posso fazer o que me apetecer. Montar histórias que percorram o labirinto da tua alma; abrir as portas que entender, percorrer os teus segredos, virá-los ao contrário e descobrir o que os corrói e faz crescer.

Talvez esta porta já aqui à direita. Sim. Vê-se perfeitamente.

Quem foi aquele a quem mentiste e usaste? Aquele que traíste. Aquele que sofreu, pouco ou muito não importa, com a tua encenação. Achas que não? Que tinhas uma razão. Que és o bom e não o vilão. Penso que não. E tu pensas o que eu escrevo.

Dói no coração.

Talvez pares de ler. Ou a dor da verdade fique curiosa com o que a seguir te vou dizer.

Submetes-te a mim ou a ti? Que importa, é tudo igual. Vozes que falam cá dentro. É a minha vez, a tua, ou tudo isto é uma encenação?

E esta grande porta à minha esquerda? Está enferrujada ou és tu que não me queres deixar entrar? Deito-a abaixo se for preciso.

Sim, o amor que julgas ter. Aquele, que te faz palpitar o coração e que te trás a transpiração.

Que de teu não tem nada.

Sabes disso, e por isso não querias deixar entrar, porque também não queres ver. É mais bonito acreditar. De olhos fechados, pois não há outra maneira de tal coisa funcionar.

Abanas a cabeça em sinal de negação. Que não tenho razão. Não é preciso. Estás sozinho. Ou já acreditas que estou dentro de ti? Que somos dois? Acenas para as letras mortas que vivem no papel?

Tenho razão. O amor não. O verdadeiro amor é saber deixá-lo ir quando nos quiser abandonar. Só se possui o amor no momento do adeus, porque essa é a medida que nos é entregue por todo o amor que fomos capazes de dar. E a vida toda é só dor, à espera do momento em que o podemos perder. Nada a fazer.

Talvez esteja amargurado, talvez não seja capaz de fechar os olhos, talvez já tenha sido dominado pelas palavras que me estão a comer, a devorar por dentro tudo aquilo que eu queria esconder. E quando tudo se iluminar, o que vai acontecer?

Alguém entrou dentro de mim. Alguém me está a ver. Sentes a comichão da emoção? É o papão que te irá devorar. E mais não posso dizer.

Deixa de ler. Deixa de pensar.

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publicado às 22:59


Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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