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de «O Caminho de Verónica»

por P. Barbosa, em 03.06.10

(...)

 

Lavava a roupa à mão no tanque debaixo do sol escaldante. Pegava na roupa e esfregava-a de encontro à pedra ondulante, de cima para baixo e de baixo para cima. Esfregava. Esfregava e suava. Molhava, ensaboava, esfregava. Lavava os calções da menina e a segunda muda de calças do marido. E mais meia dúzia de pares de meias, camisas e camisolas, saias e cuecas. Esfregava o mais rápido que podia. Ensopava-as na água, torcia-lhes a água fora, molhava outra vez, e repetia até se dar por satisfeita. Punha-as no monte de roupa lavada à sua direita. Era feliz. Sentia aquele trabalho duro na pele, mas era feliz.

 

Cada peça de roupa suja tinha um princípio e um fim, e através das suas mãos aquela roupa voltava a ter as cores e o toque que a fazia feliz sempre que a sua pequena filha vestia as roupas lavadas, quando lhe cheirava o perfume do sabão vulgar, quando o marido lhe dava o par de calças sujo do dia de trabalho duro debaixo do sol quente que lhe queimava a pele, e recebia um par lavado pronto para recomeçar. Ele dava-lhe um beijo na face e ela sorria. Era feliz.

 

Um dia a felicidade acabou. Lavava, a esforço. Parecia-lhe que o sol queimava mais que o habitual. Tinha de transpirar mais do que o normal. E aquela água toda escorria da face, escorria da testa para os olhos e ela, para não perder tempo, soprava para os olhos para escorraçar as gotas de suor salgado que lhe queimavam os olhos.

 

Quando não aguentava mais parava e limpava os olhos no braço. Continuava, e o esforço deixou de ser apenas suor e passou a ser rugas na testa e nos olhos que, assim, queriam segurar as forças necessárias para manter o ritmo frenético de lavar roupa. Não queria parar, não queria abrandar, não queria largar a felicidade.

 

Continuou a escalada de um Everest que não podia vencer, um Everest que não tem altura, apenas um crescendo infinito que não leva a lado nenhum, e assim, quando chegou alto o suficiente, quando lhe faltou o oxigénio e o frio gelado lhe tocou as veias, caiu.

 

Caiu para o lado, pois o coração tinha parado. Ficou ali, deitada, quieta, imitando o movimento do coração. Ficou à espera; à espera que o coração recomeçasse, mas ele não se mexeu. Ficou de olhos vidrados e boca aberta para enganar o coração, mas este não se demoveu.

 

Aguardou mais um pouco, para ter certeza que ele jamais se mexeria, e quando se convenceu que já não havia mais nada a fazer levantou-se e acabou de lavar a roupa. Pegou no monte de roupa e foi estendê-la na corda de secar, ao vento e ao sol. Foi para casa. Não disse nada ao marido nessa noite. Ele também não percebeu. Deitou-se cedo e mais cedo ainda adormeceu. Ela não se deitou. Ficou por ali, a coser meias e farrapos.

 

No dia seguinte fingiu que se levantou cedo. Depois do marido ter ido para o trabalho deixou a pequena filha na vizinha e foi ao médico.

Explicou ao médico a situação, mas este não se deixou surpreender.

 

«O coração parou? Deixe-me ver lá isso»

 

Auscultou-lhe o peito. Após confirmar a morte do coração sentou-se na secretária a escrevinhar qualquer coisa. A mulher ainda aguardou uma palavra do médico, mas não havendo nada, perguntou-lhe:

 

«Doutor, isto é normal?»

 

O médico não ligou durante meia dúzia de segundos. Depois levantou-se e foi até à dispensa de medicamentos.

 

«Há certas pessoas que…», disse, mas ficou-se por ali. Era uma mania que tinha desde infância. Voltou com uma caixa que lhe pousou nas mãos.

 

«Tome um destes todos os dias em jejum, antes das sete da manhã»

 

«E quando acabar a caixa venho cá outra vez?»

 

«Não estarei cá», disse ele, olhando para tecto, magicando um futuro que não era possível descortinar «tome um todos os dias e não terá problemas». Ela foi para casa, convencida que a felicidade voltaria.

 

Mas era mentira. Dois dias depois o marido desapareceu e não voltou jamais. Dois dias depois Verónica tinha morrido.

 

(...)

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publicado às 14:33


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Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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