Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Há Um Sítio Onde Podemos Ser Felizes

por P. Barbosa, em 28.07.10

Há Um Sítio Onde Podemos Ser Felizes

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:59

Devo ir, ou devo ficar?

por P. Barbosa, em 27.07.10

...

 

Olhou para tudo o que tinha sido e perguntou-se se a sua vida tinha valido a pena. Se a medida de tudo o que tinha feito e não tinha feito seria suficiente para lhe pôr um sorriso nos lábios ou angústia na alma. Olhou-se no espelho interior, percorrendo imagens de felicidade e tragédia, como quem vê filmes das férias.

 

Mas a realidade era apenas crua; não tinha ninguém, não tinha amor, era um falhado, sem ainda sequer ter começado.

 

Recordou, momentaneamente, a visita que fez em criança a um museu. Um quadro pendurado na parede branca, feito de cacos de loiça de várias cores. Ao perto era apenas isso, uma colecção sem sentido de lixo colado.

 

O seu pai aproximou-se e disse-lhe «Vai para ali e olha de novo». Afastou-se uns cinco metros e os cacos desapareceram, surgindo do caos a face de uma mulher de linhas suaves e lábios pintados de vermelho.

 

Fez um último esforço e olhou para os cacos que seguravam a sua vida. Olhou-os de vários ângulos e distâncias. Não via nada para além de entulho.

 

O destino estava traçado, mas tinha sido outra coisa a traçá-lo. Ele limitava-se a segui-lo. A tristeza apoderou-se de si, descendo cinicamente até às profundidades da sua alma e do seu corpo, estraçalhando com suprema violência toda e qualquer vontade que por ali restasse. Quando chegou ao fundo, quis morrer.

 

A vontade de viver já não queria mais.

 

Decidiu atirar-se da varanda. Arrastou-se até ao quarto, parou e pergunto se o devia fazer.

 

Amanheceu lá fora. O sol oblíquo entrou devagarinho na sua imponência educada, surgindo detrás de uma nuvem de aguaceiro. Aqueceu-lhe a face, e com o calor surgiu novamente  o cansaço da vida, lembrando-lhe ao que vinha.

 

Um pardal pousou no gradeamento da varanda, chilreando alegremente, contente com a vida que a vida lhe dava. Olhou para ele como quem olha para a felicidade dos outros e fica feliz com isso. Gostou do que sentiu.

 

Foi voar com ele.

 

 

...

 

 

Ainda abriu os braços, esperando ver surgir asas como as que foram entregues a Ícaro. Ainda chorou uma lágrima, que saiu com saudades do que já deixava para trás.

 

Depois chegou o chão. As veias rebentaram e a visão encheu-se de vermelho, antes de mergulhar na escuridão.

 

Ainda pensou que estava apenas a adormecer.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:50

Tatiana Voltou

por P. Barbosa, em 26.07.10

...

 

Tatiana voltou.

 

Bateu à porta e fez-se anunciar. Trazia um papel qualquer na mão que o levantou e colocou frente aos seus olhos, mas ele não estava a olhar para a folha de papel, estava a olhar para o Y que continuava perfeito, ali entre os seus seios.

 

Trazia um cai-cai branco que não cobria muito mais que metade das suas mamas. O cai-cai dava-lhe um Y ainda mais pronunciado, criando um fosso ao meio para o qual não hesitaria saltar. Aquele tipo de roupa, tinha a certeza absoluta, não era permitida naquela profissão.

 

Chegou a pensar que talvez ela se vestisse assim só para ele, trocando de roupa numa qualquer cabine telefónica antes de chegar, como o Super-Homem faz. Mas as hormonas têm muitos pensamentos, quer de imagens sonhadas acordado, quer de palavras, coisas agradáveis que nós gostamos de sentir e ouvir e que nos dão desejo para conseguir.

 

E é estranha esta aparente conclusão, de que as palavras que surgem na cabeça são na realidade as palavras ditas por partes do corpo, que afinal falam, e que na verdade a consciência se limita a ouvir e a sentir muda essas faladas emoções.

 

Mas Zodiak estava enganado. A verdade é que Tatiana, depois de ter sido violada na sua juventude, ficou congelada na sexualidade para todo o sempre. Aquele momento duplo em cima da cama com os dois colegas de liceu, que a usaram à vez ou em atordoada coordenação, quebrara-lhe a vontade para aquilo que o seu perfeito corpo fora programado fazer.

 

E aqueles momentos no colchão resumiram, numa única tarde de domingo, uma vida inteira desde a alegria à desilusão. De certa forma foi uma sorte, pois despachado o assunto, ficara livre para viver a vida como nunca a teria podido viver.

 

Era esse o segredo para a sua rápida ascensão na sua profissão, para a qual não tinha a menor vocação. Usava a sua castrada sexualidade apenas como mecanismo de provocação.

 

Usava a roupa curta de mais para a profissão (para qualquer profissão, na verdade, menos uma), expondo o corpo como um altar que não se podia tocar. E as dores de olhar que provocava nos homens eram a sua silenciosa forma de retaliação.

 

A ela, bastava-lhe a tesão. Mas esse tesão, que num ser normal funciona como a estocada inicial que o conduz para a arena onde será toireado, em Tatiana funcionava como sinal de alerta e de retracção.

 

...

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:01

Segredos Perfeitos

por P. Barbosa, em 24.07.10

 

Basta olhar para encontrar.

Os Segredos Perfeitos não podem ser ditos, apenas sentidos.

Basta olhar para encontrar.

O maior segredo de todos é aquele que não pode ser visto, porque é tudo.

Basta olhar para encontrar.

Está mesmo li, esfregando-se descaradamente na tua cara.

Consegues ver?

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 00:39

Por vezes somos lembrados da ilha onde vivemos. São imagens fugidias, ou seremos nós que fugimos dessas imagens, por medo, mas a ilha deserta que habitamos tem um tamanho do qual não podemos fugir.

 

Lembro-me desses momentos como me lembro do sol que bate na cara e passa através das pálpebras fechadas; o medo sempre me conduziu ao espanto. O medo sempre foi um vício. Fujo dele, mas nunca o deixo fugir de mim.

 

As palavras voam cá dentro sem dono e sem destino. Voam como se o meu crânio fosse oco e vazio, como se apenas ar o preenchesse e as palavras voassem abrindo as asas, flutuando em círculos cada vez mais fechados e cada vez mais abertos.


São abutres olhando para mim, para os ossos do meu medo e do meu espanto, que me hipnotizam e me ignoram. Olho para elas a partir de um lugar que não discirno, olho as palavras voadoras que giram sem parar, que dançam umas com as outras, que se entrelaçam e se juntam e separam, que voam como cobras pequenas e intermináveis, ambas infinitas.

 

Voam, flutuando, umas ao perto, outras ao longe. Está escuro, negro. É essa escuridão que define o tamanho de mim. Essas palavras vêm de um sítio que não distingo no horizonte negro que sou e me preenche. Voam em círculos e por vezes, esses círculos, são maiores do que eu, são maiores que a minha própria dimensão. Saem e entram, saem sozinhas e entram acompanhadas. Que fazem as palavras quando voam para fora de mim? Para onde vão elas? Haverá outros que, preenchidos pela mesma escuridão que me preenche, também as vêm chegar e voltar a sair? Estaremos deitados lado a lado, sem o saber?

 

As palavras, penso, são uma linha numa agulha que tece a manta de retalhos que nós somos. E o medo que sinto é também o meu maior anseio. Deitar-me nesta ilha que sou, junto a um mar calmo que me aconchega nas pequenas ondas que rebentam a meus pés, que os tocam e os refrescam, que os cumprimentam brevemente para logo a seguir se despedirem.

 

Deito-me ao luar das palavras que passam tranquilas lá em cima, sem medos e anseios. Vejo-as, e imagino histórias que possa contar com elas, tiritando os dedos na areia húmida. Falo com elas, com as palavras, e por vezes, por vezes, aquilo que digo surge, miraculosamente, nesse céu nocturno. Por vezes, esse medo que anseio transforma-se numa breve felicidade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:05


Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

Disponível em
iBooks, Google Play, Kobo, Kindle











Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2012
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2011
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2010
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2009
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2008
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D


Mais sobre mim

foto do autor