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Eram os Velhos que Diziam

por P. Barbosa, em 28.09.10

Houve uma altura que desabou em mim.

 

Que me desfez sob o peso do ar imenso. Que me transformou em pó e me elevou no ar, que me consumiu e me sorveu, que me fez dele e me fez, depois, desabar para cima de alguém, e que o consumiu e absorveu também, numa vida que nunca acaba, mas que também nunca existe.

 

Eram os velhos que diziam, não era eu.

 

Eu sou hoje o que já fui, e um velho, sendo velho, já foi tudo aquilo que era para ser, já é tudo e nada mais será. E o velho é tudo aquilo que ainda me está para chegar.

 

Eram os velhos que diziam, não era eu.

 

Pegarás nessa altura que cai para cima de ti, diziam eles, e sorverás todo o ar que couber em ti, todo o ar que precisares para viver desde hoje até amanhã, e assim, serás tu que desabarás para cima de quem te quer afogar, até que esse desista de querer.

 

Eram os velhos que diziam, não era eu. Eram os velhos que, no fim próximo que não tem mais nada para ser, sorviam golfadas de ar imensas, sempre que sentiam esse fim acabar, numa luta inglória, numa ideia de velho que não tem mais nada, nada, a não ser desaparecer. Eram os velhos que diziam, não era eu.

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publicado às 00:29

O Demónio

por P. Barbosa, em 26.09.10

Quando acordava não abria os olhos enquanto não pusesse a dentadura falsa. Não queria ver-se sem ela. Andava nu pela casa, exibindo bíceps e peitorais salientes. E fazia-o em movimentos lentos, em frente das dezenas de espelhos que tinha nas paredes.

 

Mas não era essa a sua vaidade. Depilava-se meticulosamente; não tinha um único pêlo no corpo, bronzeava a pele apenas um pouco, apenas o suficiente para lavar o branco, apenas o necessário para que as tatuagens listadas que cobriam o seu corpo - as tatuagens que imitavam a pele de um tigre africano - ondulassem nos músculos do corpo enquanto ele se movia em passos de câmara lenta em frente das dezenas de espelhos espalhados pela casa. Ficava horas naquela encenação, durante o dia, fechado em casa e com as persianas entreabertas. Via os raios de sol que entravam e desenhavam riscas nas paredes, que pareciam avançar com o seu próprio avançar, e ficava naquilo o dia todo, abrindo a boca o mais que conseguia exibindo os caninos falsos de tigre africano.
 

Não comia durante o dia, bebia apenas água gelada engarrafada, limpava o suor do corpo que o calor sufocante do quarto fechado lhe fazia crescer nos sovacos depilados, nas virilhas depiladas, na pele lisa que ondulava riscas de tigre africano em movimentos lentos e teatrais; aquilo tudo não era mais do que a preparação de uma caçada, a construção da ideia que o fazia sair à noite para devorar qualquer gazela que se atravessasse em frente dos seus caninos falsos de tigre africano. Tinha sido a última aquisição da colecção de Jaq. Não falava, não pronunciava palavra. Nunca. Respondia abanando a cabeça que sim ou que não, ou usando uma expressão de indiferença ou interrogação, ou exibindo um sorriso cínico e malicioso; não, não era um sorriso; era uma ideia voraz que lhe tomava conta da vontade. Não, não era uma ideia; era uma satisfação retardada que lhe lembrava a última mulher que tinha sido caçada e devorada. E a próxima a morrer não era mais que a preparação do sorriso cínico de satisfação que montava na cara pintada com bigodes tatuados de tigre africano, enquanto Jaq se aproximava dele e lhe dizia «É a tua vez».

 

Saía de casa embrulhado numa gabardine cinzenta que escondia aquele corpo tatuado fingido animal. Fechava-se nesse casulo para não se deixar ver e para se proteger do mundo exterior que o magoava com uma dor lancinante sempre que uma gota de chuva lhe tocava na pele, sempre que o perfume esvoaçante de uma mulher passava por ele, sempre que um sorriso de alguém lhe atravessasse o olhar. Era a dor de um passado esquecido mas sempre relembrado, era a dor que não se quer sentir mas que sempre volta para nos atormentar, e ele, assim, desde que se lembrava de ser assim, embrulhava-se dentro da sua gabardina cinzenta e suja e punha-se a ruminar ideias de vingança e a planear atalhos para saltar para cima das gazelas indefesas que atravessavam a rua.

 

Como estas pessoas vinham parar ao CC não se sabia bem. Talvez o mundo seja regido não apenas por uma única força da gravidade mas por múltiplas leis de gravitação, que atraem para um centro uns e outros que sejam iguais. E o mundo está repleto de gente de diferente qualidade e feitio que não sabe como chegou aqui. Perdidos na dúvida de um passado que não pode ser relembrado, existem como fantasmas futuros habitando o presente. E a sombra que são, daquilo que virão a ser, é o medo que os transporta para dentro de gabardines cinzentas ou para emoções encenadas que escondem o tigre amedrontado que há em nós. E se uns aí ficam quietos, vida fora, outros há que se consomem na comichão interior até não aguentarem mais, e depois de descoberto o seu vil interior, depois de expostas as cicatrizes na pele listada, terá de abrir a boca e mostrar os seus dentes, saltar para cima daquele que mais próximo se encontrar, saciar-se com o sangue alheio que lhe permita continuar, como um vampiro, como um vampiro que também é um fantasma futuro habitando o presente.

 

Aquele homem, que não tinha nome, era um ciclone do tempo futuro estraçalhado no presente, e que desaparecia num passado escuro que deixava de existir agora e somente existia aqui. Olhado de fora, olhado a partir do céu, era Satanás em pessoa, era o vácuo que suga tudo sem escolha ou comiseração.

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publicado às 23:33

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publicado às 00:08

3ª Tempo - A Mulher

por P. Barbosa, em 17.09.10

Nota introdutória: Este texto é antigo, mas como entretanto foi revisto, publico-o novamente. Faz parte de uma história maior, por isso façam um desconto ao contexto. E corrigi os erros de português...acho. Se encontrarem algum, sejam implacáveis...

 

 

De Segredos Perfeitos: A Mulher

 

 

Entrou como se fosse dona do mundo sem ter de o proclamar. Morena, esbelta como uma estátua, com cabelo comprido e ondulante em perfeita sincronia com a passada segura e medida para lhe acentuar a sensualidade, como num filme de Hollywood em câmara lenta.

 

Os olhos tinham a profundidade do carvão quando iluminados pela chamas da emoção. A pele, levemente bronzeada e pontilhada com pequenos sinais, estrategicamente colocados. O canto dos seus lábios vermelhos exibia uma inclinação sarcástica, que parecia dizer; «Apanha-me se és capaz».

 

Imaginou imediatamente o prazer de beijar aquela boca, tocar-lhe na língua e sentir o seu calor, primeiro suavemente para um lado, depois para o outro, sentido ao de leve a sua cara na dela, depois, mais intensamente, chupando-lhe a língua e os lábios, como quem prova uma ameixa madura.

 

O cabelo descaía em encadeadas ondulações sobre os seus ombros seminus, cobertos apenas pelas finas alças de um vestido que dificultava ou estimulava, não sabia, a tarefa de perceber o corpo que por debaixo se escondia. Ao mesmo tempo que escondia, mostrava, primeiro, os seios perfeitos. Capazes de, sozinhos, levantarem uma montanha com o poder da mente, eram firmes como o desejo. Tinham o tamanho perfeito para o amor; nem demasiado grandes para se tornarem um problema de logística, nem demasiado pequenos para limitarem a capacidade de exploração. Poderiam ser pousados na sua mão, aquecendo-a, encaixando naturalmente e transbordando como mel espesso.

 

Uma medida bem medida.

 

Mais abaixo, as ancas. Esbeltas, como que talhadas em mármore pelo próprio Diabo, desenhavam uma curva suave, mas pronunciada, perfeitas para serem agarradas, estimuladas, ondulando o necessário para produzir o efeito desejado. As pernas, intermináveis, dignas de uma verdadeira mulher imperial, desenhavam uma seta na direcção do desejo supremo que prometia o calor de mil sóis.

 

Ela aproximou-se de uma mesa, afastada uns seis metros de Zodiak, e meteu conversa com duas outras raparigas que aparentavam ser suas amigas. Permaneceu em pé durante um momento e depois sentou-se, trocando conversa e sorrisos próprios da idade e da ocasião.

 

A contemplação de tão profunda beleza tinha-lhe parado ou acelerado o coração, não o sabia bem, mas misturou-lhe na alma prazer e ansiedade.

 

Prazer, porque é essa a função da beleza. Nunca percebera o poder contemplativo das grandes obras de arte, seja ela a Gioconda, a Capela Sistina ou uma estátua Grega. Eram objectos mortos, estáticos, que não sabiam que existiam e que estavam ali. Não sentia nada de volta por eles. Ao contrário, a contemplação de algumas mulheres exercia sobre Zodiak um profundo poder hipnótico. Era capaz de permanecer horas seguidas observando, não por causa de um qualquer desejo sexual, mas simplesmente porque a beleza lhe dava prazer e uma estranha mistura de sensações lhe invadia o corpo e o não deixava mover.

 

Aquela que agora se passeava em frente dos seus olhos era especial. A visão daquele ser dá-lhe uma dose cavalar de urgência, de responder a uma necessidade que antes não sentia mas que agora sente e que não sabe controlar.

 

Talvez o desejo já existisse, talvez alguma parte de si tenha sido construída para responder com uma emoção mais poderosa que o próprio instinto da vida, mas está adormecida até que uma visão, um cheiro, um tocar, desperte o mecanismo e este tome conta da alma do homem, como se lhe dissesse sem dizer, de repente, «Esquece tudo. É aquilo que agora tens de procurar, conquistar e possuir, custe o que custar».

 

Zodiak sente agora uma confusa mistura entre o prazer prometido e o medo de não conseguir ter o que agora cobiça, um medo dele próprio, a angústia de um dia ter de se apresentar ao seu amo e dizer «Perdi-a, não consegui que ela fosse minha». Aquela confusão de emoções toldou-lhe a razão. Tinha de, conscientemente, manter a calma, dizer ao bicho que estava dentro de si «Acalma-te, deixa-me pensar, preciso de desenhar uma estratégia de aproximação e conquista».

 

E neste diálogo interior, entre o animal que sente e o animal que fala, um diálogo numa linguagem inventada como todas são, o primeiro cede à razão e o segundo planeia a emoção.

 

Ela levantou-se em direcção ao balcão. Ele fez o mesmo e aproximou-se dela. Na música ambiente tocava ‘Celebrate’ dos Kool&The Gang. Enquanto se aproximava, a beleza dela infundia-lhe um desejo crescente que ameaçava o incontrolável.

 

Enquanto ela pedia qualquer coisa ao barman a luz do holofote iluminou-lhe o cabelo e o pescoço, produzindo um milhão de tons de âmbar que nunca antes haviam sido vistos.

 

Era beleza pura, no seu estado mais selvagem, que merecia ser apreciada e tocada. Deviam chamar os poetas do mundo para a descrever, se fosse possível usar palavras para desenhar tamanha beleza e emoção interior, para que os infortunados deste mundo, para que aqueles que percorrem vidas inteiras a calcar o chão deste planeta, para trás e para a frente, sem rumo e destino, pudessem finalmente compreender que é aquilo que sempre procuraram sem saber, e que nesse momento único de êxtase perceberão que já não precisam de continuar a andar, que podem parar e desfrutar. 

 

Ou para aqueles que, não sabendo o que procuram, desconfiam, e, num movimento tão repetitivo quanto inútil, dedicam a vida inteira a prazeres constantes e incontrolados, a tesões que crescem e se esfumam à velocidade de um balão que se enche e, logo de seguida, por falta de fôlego, se esvazia. Ou ainda aqueles que desconfiam que nunca vão conseguir ter o que secretamente desejam e, assim, procuram enganar o seu animal interior com vícios e inúteis distracções.

 

Ou ainda aqueles que procuram sucedâneos e redenções como a caridade, bondade e fé. Ou ainda os realistas, que cansados de andar sem saber para quê, percebendo que já têm as solas rotas e que não vale a pena continuar sem ter nada para receber, que não tiveram a fortuna ou, por alguma razão inexplicável, o criador coloco-os no mundo apenas para sua troça e apreciação do seu sofrimento, resolvem colocar a vida ao cuidado da omnipresente e omnipotente força da gravidade.

 

Zodiak chegou ao balcão com os olhos postos nela, que lhe devolveu um olhar e um sorriso que lhe gelou o corpo. Virou-se para esconder o que sentia, contrariando a sua vontade mais fundamental, mas a sua alma ficou ali especada voltada para ela.

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publicado às 21:33

Os momentos que mais receio são estes.

por P. Barbosa, em 15.09.10

Sou pequeno. Mas a vontade é enorme.

 

O momento que mais anseio chegou. É um incómodo que se anuncia com uma hora de antecedência. É uma hora nocturna, sempre uma hora nocturna. Quando estou sozinho, quando estou deitado, quando estou vidrado em frente à televisão.

 

O momento que anseio é o que mais receio.

 

Não é meu, o momento. Por mais derrotado que esteja, por mais doente que fique, sei que tenho de me levantar, seja a que hora for. Sei que tenho de me sentar em frente ao computador, e escrever.

 

Não sei o quê. Nunca sei o que escrever, e só o saberei depois de estar escrito e relido.

 

Faço-o na maior velocidade possível. Sou apenas o escriturário da voz interior que debita palavras sem parar.

 

Tenho de me apressar, tenho de me apressar para não ficar para trás; porque ele não pára. Levanta o nariz empinado para tecto, volta-se de costas para mim e fica a ditar no vazio, letras agarradas a palavras, agarradas a frases, agarradas a ideias. Nunca lhe vi a cara.

 

***

 

Ele pára por um momento, talvez para pensar. Acautelo-me. Fico à escuta, à espera que ele recomece para poder matraquear as teclas sem parar.

 

Nunca penso.

 

Sou um simples escriturário que trabalha à noite com uma luz de vela tremeluzente, e que tenta não se perder no corre-corre do emprego que não pediu. Sei que nada me vale neste momento ansiado que receio. Só quando essa sombra se afasta dentro mim é que posso ter descanso.

 

Não valho nada, mas a vontade é enorme. A vontade é maior do que eu e eu não valho nada; nunca lhe faço frente neste momento ansiado que receio. 

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publicado às 00:15

"...Tive de reconhecer que as minhas convicções de criança também tinham sido abaladas ao mesmo tempo que crescia.

 

 Se calhar morremos todos pelo caminho da vida, devagarinho e sem darmos conta.

 

Somos simultaneamente o assassino e a vítima do acto diário que nos transforma"

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publicado às 00:10


Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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