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...

 

Olhava o filme que passava na montra sem me decidir. Uma mulher de meia-idade passeava o cão. Olhei para ela e senti o meu universo mudar sem lhe dar hipótese de o avisar.

 

Teria uma idade que não seria muito diferente da minha. Esquecemo-nos que a beleza é eterna. Esquecemo-nos que não envelhecemos com a idade. A beleza perde-se porque deitamo-la fora.

Escrevo:

 

Aqui jaz a beleza eterna.

Um monte de nada que vale tudo.

Sigo-a sozinho. Não quero ter saudades.

 

Larguei a montra e segui-a o melhor que soube. Ao fim de dez minutos de uma perseguição anacrónica, que nem ao cão soube enganar, ela voltou-se de repente para mim e fixou-me o olhar. Imobilizei-me sem saber se o universo tinha parado ou terminado. Esperava que ela gritasse pela polícia e por ajuda e socorro.

 

Virou-se na minha direcção, como numa repetição lenta de um anúncio de champô, e disse-me Leva-me, como se fossemos amigos de longa data. Sorriu, passou o braço dela por debaixo do meu e passeamos o cão como um casal de namorados.

 

Deixei-me levar por não saber o que fazer. Sentia-lhe o calor do corpo e o cheiro do cabelo. Sentia-lhe o roçar compassado das ancas. Aqueci por dentro num calor que me moía lentamente.

 

...

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publicado às 15:24

Peguei numa segunda carta.

Dizia:

 

16 de Dezembro de 1944


Amanhã atacamos. Amanhã conquistamos St. Vith. E a seguir Liege. E depois Antuérpia. Havemos de escorraçar os americanos e ingleses de volta para o Atlântico. É isso ou a derrota. O fim está próximo, e tanto me dá se o fim é a vitória ou a derrota. O fim está próximo, e apenas isso importa.


Ontem marchámos trinta quilómetros. Se não existisse a guerra, se conseguisse esquecer a fome, se os meus pés não caminhassem já tortos para fugir às chagas do frio, poderia olhar em volta e encontrar a beleza das Ardenas. Mas assim, como nos encontramos, de espingarda na mão, olhamos em volta procurando não encontrar a morte escondida entre as árvores.

 

Rezamos, quer queiramos quer não, para que não nos devolvam aquilo que fizemos semana passada; que nenhum americano ou inglês se lembre de fazer pontaria às minhas costas que são tão nítidas a partir da orla da floresta.

 

Caminhámos na estrada de terra e vimos animais mortos e despedaçados a obus. Congelados, pelo frio e pela morte, nem os cães doentes e magros de fome (que não há outros) lhes conseguem deitar o dente. Servem para nada, a não ser para nos relembrar a guerra e a morte.


Tenho saudades de Idanha-a-Nova. Tenho saudades dos meus filhos. Tenho saudades da minha mulher. Carta, manda dizer a todos que os amo e que preciso deles para sobreviver. Só a ideia de um dia voltar me segura. Guardo as cartas na pequena bolsa que penduro ao meu pescoço e que aconchego junto ao meu peito, para que o pouco calor que sobra junto ao meu coração afaste o gelo e a humidade que destroem as palavras que me seguram.


Não enviarei estas cartas enquanto a guerra durar ou enquanto eu não esteja certo de que irei morrer. Preciso delas (mais do que vocês) para não me esquecer das caras e dos nomes dos meus filhos e da minha mulher, e que Idanha-a-Nova não é um sonho que inventei para me enganar.

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publicado às 11:58

Peguei no comprimido embrulhado no lenço e tomei-o na boca.

Vou ao parque e sento-me no banco ao lado dos velhos que jogam às cartas. Espero uma hora ou duas, ou três ou as que forem necessárias, pois o sábado é o dia em que a esperança se renova. Gosto de olhá-la no seu vestido azul repetido e nos passos seguros e altivos que dá enquanto conversa com a amiga do costume.

Não sei como se chama. Sei que ela não será de mais ninguém a não ser dos meus olhos.

Finjo a certeza de uma amor futuro sabendo que nunca chegará.

No momento firme em que a imagino a meu lado o universo muda de repente sem me avisar e acabo com um monte de ossos nas mãos, um monte cheio de nada. Ainda antes do sol se pôr a esperança de sábado interromper-se-á abruptamente na volta que a Terra sempre dá. Do lado de lá não há nada.

Sinto a humilhação, a vergonha e o medo que escondo debaixo da língua com o comprimido que estava embrulhado no lenço. Engulo-o.

Parto sozinho. Não levo saudades.

 

(de «Não Levo Saudades»)

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publicado às 09:23

Hoje assisti à morte da sensibilidade

por P. Barbosa, em 18.01.11

(de «Não Levo Saudades»)

 

Abro o meu livrinho e releio as palavras escritas vezes sem conta até ter certeza que as não vou esquecer. Pego no molho de cartas enegrecidas pela guerra do tempo e puxo uma do meio.

 

20 Dezembro de 1944

 

Hoje assisti à morte da sensibilidade. Faltam cinco dias para o Natal mas é como se faltassem cinco séculos. Travámos uma batalha e morremos. Vi Erich desmembrado. Caiu um obus junto a nós e numa fracção de segundo ele ficou sem braços e pernas.

 

Não há nada mais aterrador do que ver um homem caído na lama por lhe terem faltado de repente as pernas, e tentando agarrar-se à vida com braços que se evaporaram no ar. Ficou por ali caído, esventrado e ensanguentado, mas ainda vivo, esperando a morte que chegava devagarinho.

 

Aproximei-me dele e despedimo-nos com o olhar, eu pelo menos despedi-me, ele tremia no corpo que sobrava sem saber o que dizer ou o que pensar. Nada mais havia. Assistia, enquanto as balas e as bombas continuavam a cair sem cessar. Disse-lhe Adeus, mas estou agora certo que essa palavra de despedida não era para Erich, mas para a sensibilidade minha e de toda a gente, que morreu nesse dia e foi para o céu. Já não estou certo se existe um mundo para além das Adernas.

 

Acredito piamente que nasci aqui, no meio da guerra, no meio da lama, que cresci e brinquei no campo de batalha, enquanto os tanques e as metralhadoras enchiam o ar com som ensurdecedor e cheiro a pólvora queimada. Sou uma obra do acaso. Enfio as botas cheias de lama na lama e já não acredito nas imagens idílicas que me vêem à cabeça.

 

Não existe essa Berlim onde penso que nasci, nem tenho um pai Nazi, nem um Portugal onde vivi, nem Lisboa, nem Idanha-a-Nova, nem uma mulher e cinco filhos. Mulher, tu não existes. Estamos todos nas Ardenas. Estamos na guerra, faltam cinco dias para o Natal mas é como se faltassem cinco séculos.

 

O Natal não existe. Hoje assisti à morte e enterro da sensibilidade. Não contem com ela. Persisto na guerra, pois não me lembro de mais nada.

 

A saudade é uma mentira enganosa.

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publicado às 21:13

Não Levo Saudades

por P. Barbosa, em 15.01.11

Desatei o nó e tirei a primeira carta. Abri-a.

Dizia:

 

4 Dezembro de 1944.


Hoje foi um dia mau. Hoje foi um dia igual aos outros.

 

Perdi a cor. Eu e os meus camaradas confundimo-nos com a lama da trincheira. Não sei se odeio mais a água que me ensopa a roupa ou o gelo que me mata os membros. Erich disse-me que vamos atacar em breve. Atacar o quê? Não temos forças para nos defendermos, quanto mais atacar e derrotar os americanos e ingleses.

 

Arrependo-me da decisão que tomei. Arrependo-me, não por achar que não sairei vivo desta guerra (estou certo disso), mas por ter sido conivente. Devia ter ficado por Idanha-a-Nova. Devia continua a achar-me português em vez de sucumbir aos apelos de um pai distante e achar-me alemão. Não devia ter lido a carta dele. Não devia ter voltado a Berlim.

 

Mal cheguei enfiou-me num comboio para a linha da frente. Para servir a pátria. Mal me cumprimentou. E aqui estou eu, no meio das Ardenas, com a roupa ensopada em lama gelada, no meio do nada, com uma arma na mão pronta a matar quem vier do outro lado. Aqui, defendo a loucura dos homens.

 

Ainda não te tinha dito, mas também eu já sucumbi a essa loucura. Matei um homem na semana passada. Matei um homem e não senti nada. Fizemos uma emboscada aos americanos e matámos quatro com a primeira rajada de disparos. Eles fugiram e nós fomos atrás deles. Vi-lhe claramente as costas, do inimigo, com a espingarda na mão. Vi-lhe claramente o vapor da respiração, enquanto corria na lama. Vi-lhe claramente o medo. Premeditei a matança.

 

Vi claramente isto tudo e depois fiz-lhe pontaria. Dei a ordem de execução ao indicador pendurado no gatilho.

 

No momento certo ele virou-se e olhou para mim. Ele soube o que eu me preparava para fazer. Ele olhou para mim e parou-se na morte instantânea que lhe entreguei. Caiu na lama. Ele transformou-se em lama. Olhei para cima e vi o que ele estava a ver.

 

Não senti nada por o ter morto. Não senti nada mas não durmo desde então.

 

Hoje foi um dia mau. Hoje foi um dia igual aos outros.

 

Virei a carta:

 

Aqui jaz a morte.

A mão invisível que nos estrangula e mata.

Vejo o medo. Quero ir embora.

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publicado às 11:12

IBM Watson trial run at Jeopardy

 


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publicado às 12:13


Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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