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O homem sonho

por P. Barbosa, em 19.02.11

É desolador viver a cem à hora, estando parado. Interrompa-se o sonho! Contemple-se a vida.

 

Sou lebre e tartaruga. Sou vencedor e derrotado. Interrompa-se a corrida! Contemple-se a vida.

 

Sabemos dizer não, mas nunca dizemos não. Não estou falar desse, do vulgar. Falo daquele que não é possível pronunciar. Feche-se os olhos. Digamos não.

 

A vida atrai-me como um íman, a morte também. Fico dependurado, num sítio qualquer, consumido pelos dois na voracidade do tempo.

 

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publicado às 16:24

...

O meu pai vive em Benfica.

 

Chama-se Lourenço. O meu nome é Manuel. Faço anos no dia 21 de Dezembro. A minha mãe morreu quando eu tinha três anos. Foi a primeira vez que vi a morte. Foi a primeira vez que a balança pendeu para um dos lados; não vale a pena levar saudades.

 

Levo saudades, minha mãe. Levaram a minha mãe e o meu pai tomou conta de mim. Sempre. Nunca me falhou como eu lhe falhei. Não estou certo que ainda esteja vivo mas sei que me amou e que eu também o amei, à minha maneira.

 

Cuidei dele e ele cuidou de mim. Cuidamos um do outro, à nossa maneira, até que a doença que já não me lembro do nome matou as saudades que tínhamos um do outro. Não levo saudades porque as já não tenho.

 

Saem-me lágrimas geladas pelo vento frio que varre o Cemitério dos Prazeres. Tiro o lenço sujo do bolso e limpo-as. M.L., são as iniciais bordadas. Chamo-me Lourenço, o M já não sei o que representa. Não me lembro do dia certo em que faço anos. Sei apenas que fica algures na terceira semana de Dezembro.

 

Não sei nada da minha mãe. Quero o meu pai mas não sei como. Tenho saudades e não sei porquê. Tenho de ir à Penha de França falar com uma velha que vive ao lado de um prédio que já caiu.

 

Tenho de descobrir como foi que Gervásio encontrou aquilo que eu procuro.

 

...

(Não Levo Saudades)

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publicado às 01:00

Não Levo Saudades

por P. Barbosa, em 12.02.11

...

Quarta-feira foi um dia solto. Reduzido o afluxo de clientes aos desempregados habituais que jogavam às cartas, e ao velho do costume que bebia copos de vinho três vezes ao dia, vagueei atrás do balcão, limpando repetidamente o mármore de serviço.

 

A cada passagem do pano rodava-me a manivela imaginária que debita ideias para dentro da minha cabeça, sem parar. Entravam aos trambolhões e tentava pegar nelas e dar-lhes uma ordem e arrumação. Mas mal pegava numa caía logo outra junto aos meus pés, e na atrapalhação que sempre me satisfez logo largava a ideia que tinha nas mãos para pegar naquela que acabara de chegar.

 

Sempre fui assim. É desta maneira que progrido nas ideias e nas imagens que fazem a minha vida. Vivo no meio de um monte de entulho que só não cresce até me soterrar porque à medida que as ideias chegam aos trambolhões outras desaparecem magicamente sem memória da sua passagem.

 

Esqueço-me de tudo o que passa por mim, e por isso imagino tudo o que há para sonhar. Sou um rastilho que crepita enquanto progride numa única direcção. Sei que nada há no fim desse fio que me consome sem ser ver. Nesse fim apenas há um último olhar, para trás, e que já esqueceu o pouco que fui.

 

Tenho a certeza absoluta que não levarei saudades.

 

...

(Não Levo Saudades)

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publicado às 22:46

TED: Keith Barry faz mágica cerebral

por P. Barbosa, em 08.02.11

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publicado às 23:07

"A renúncia é a libertação. Não querer é poder"

 

Livro do Desassossego, Fernando Pessoa.

 

Revejo-me nas palavras. As nossas "decisões" são não decisões. Podemos prever-nos com a eficácia de um relógio suíço. Somos estatísticas e probabilidades certeiras. 90% das decisões que vamos tomar amanhã já estão definidas.

 

Quando chove abrigamo-nos sempre. "Decidimos" dentro da conveniência que o mundo nos impõe. A razão; um instrumento de orientação. Vai por aqui, que tens menos dor. O sentimento; um tirano que nos torce o braço até partir. Não há livre arbítrio. Há, sim; quando dizes "Não"

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publicado às 12:48

(...)

 

Em mim, sempre houve a capacidade para renascer.

 

O esquecimento crónico que me começa agora a assentar tem, apesar de tudo, as suas vantagens. Ao esquecer-me de tudo esqueço-me também das coisas más. Estou, assim, a um passo da felicidade.

 

Esquecendo-me de tudo não me é possível mentir. Esquecendo-me a quem devo lealdade ou favor resta-me a justiça.

 

Por vezes penso que o esquecimento é o futuro da humanidade. E não me venham dizer que é preciso não esquecer o passado para evitar repetir os mesmos erros no futuro. O homem (que não eu) já provou que é tão amnésico quanto eu.

 

Especulo que a humanidade não quer ouvir ou ver. Elaboro a hipótese de que os erros repetidos não são erros repetidos mas tragédias calculadas. Desenvolvo a teoria de que o homem dotado da faculdade da memória perdeu a capacidade para renascer. Agora só tem medo de morrer.

 

Tiro o meu livrinho do bolso.

 

Escrevo.

 

Teoria:

O Homem é a memória de si e a memória de si controla o homem. Tudo o resto é um monte que vale nada.

 

...(Não Levo Saudades)

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publicado às 00:06


Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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