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Têm peçonha, não os suporto.

por P. Barbosa, em 30.03.11

Recuso-me a ver mais "notícias".

O estado a que o país chegou: Cena típica do estado a que chegámos: A Presidenta Dilma a sair de uma reunião qualquer e os "jornalistas", aos magotes, em cima dela, com os microfones estendidos como se fossem caixas de esmolas, "E o Brasil vai ajudar Portugal? o Brasil está disposto à ajudar...?", e repetiam aquela merda que me envergonha até não ter mais vontade de voltar a ligar a televisão. E a Dilma, com um sorriso falso, a pensar (tenho a certeza) "que parvos são, que país insignificante vim visitar".

Dilma, não ajudes. Não há nada para ajudar.

Se não me metesse nojo, seríamos anedóticos.

Têm peçonha, todos eles, não os suporto. Deve ser doença minha.

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publicado às 19:59

Vejo claramente isto tudo e faço nada

por P. Barbosa, em 25.03.11

...

Escrevo as ideias no caderninho que comprei com a moeda que roubei do meu pai, mas nunca sei se, por uma vez que seja, são verdadeiras. Escrevo para não me esquecer. Escrevo para acreditar. Gosto de pensar que posso trocar de corpo e lugar com alguém que possa chamar de irmão, mas ao mesmo tempo também não me é possível deixar de pensar que as ideias foram escritas por uma outra razão.

 

Talvez seja apenas pelo prazer de ver surgir letras pretas sobre a folha branca, e que essa é razão bastante para as ideias que têm de sair, estas ou outras quaisquer. Talvez me empenhe para poder ouvir o rabiscar do bico da caneta contra a folha pautada do caderno. Talvez ache que a ideia é minha, simplesmente porque as palavras se lembraram de aparecer na cabeça, e que tenha de as escrever para delas não me esquecer. Talvez seja apenas inspiração que obtive da leitura que fiz hoje de manhã, ou da paisagem que contemplei, ou da ideia que faço das pessoas que vão ler estas palavras.

 

Que importa? Ao contrário do homem, as ideias não têm dono, são livres e guerreiam-se no campo de batalha que somos por dentro. Lama; é o que somos. Vento, Chuva, Tempo; é o que somos. E esta ideia, e outras que lhe são companheiras, percorrem as clareiras da floresta que sou por dentro, receando que ideias inimigas façam pontaria às suas costas que são tão nítidas a partir da orla da floresta.

 

Achamos que vivemos no mundo quando é o mundo que vive em nós. Vejo claramente isto tudo e faço nada. Daqui a pouco esquecer-me-ei. Daqui a pouco tomo o comprimido na boca e a Terra dá mais uma volta na mentira que não quer ir embora.

Bragança.

 

 

(Não Levo Saudades)

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publicado às 22:08

Eythor Bender demos human exoskeletons

por P. Barbosa, em 24.03.11

Eythor Bender of Berkeley Bionics brings onstage two amazing exoskeletons, HULC and eLEGS -- robotic add-ons that could one day allow a human to carry 200 pounds without tiring, or allow a wheelchair user to stand and walk. It's a powerful onstage demo, with implications for human potential of all kinds.

 

 

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publicado às 16:59

Vai Dormir, Vai.

por P. Barbosa, em 18.03.11

Vai-te deitar, vai, disse-me.
António aconchegou-se em cima do pedaço de cartão que tinha ajeitado no canto das arcadas do centro comercial, primeiro deitado de lado, depois escarrapachado de barriga para cima. O calor incomodava. Abriu os braços, para deixar o calor escapar.
Vai-te deitar, vai, voltou a repetir.
Doía-me os pés. Doía-me a barriga das pernas, os ossos da anca, os ombros, cansados de me segurar. Doía-me a cabeça com o esforço que sempre faço para ficar acordado.

 

Vai-te deitar.

 

Obedeço, sempre, no fim do tempo.
Deito-me de lado, encolhido em mim mesmo, com a mão debaixo da cabeça, almofada de carne improvisada.
Fecho os olhos.
Dormir é um sentimento que se prepara para morrer. Dormir é pesadelo.
Fecho os olhos e finjo que não penso nele. Fecho os olhos (que mais havia eu de fazer?).
Nunca sei quando chega. Por vezes chega lesto, por vezes agoniza-me numa espera interminável.

 

Dormir é esquecer-me.

 

É uma cortina de esquecimento que se desenlaça lentamente sobre mim.
Aguardo, de olhos fechados. Sinto a aragem passar-me pelos cabelos. Sinto a dor dos ossos sobre a pedra do passeio. Nunca sei quando chega. Chega com uma aragem invisível que passa lentamente sobre mim. Esqueço-me dos meus pés. Já não lhes sinto a dor. Continua, imparável, lenta. Pouco depois, esqueço-me das pernas, a seguir os ossos da anca. Dois segundos depois (sim, já os contei), deixo de sentir a barriga, o estômago, as convulsões das tripas.

 

Vai-te deitar, vai.

 

Continua, sobe, directo, e o coração acelera momentos antes de o esquecer também. Engulo em seco. Fecho os olhos já fechados, medo (que mais posso eu fazer?).
A cortina transforma-me num fantasma a preto e branco.

 

Vai-te deitar, vai.
Esqueço-me.
É impossível levar saudades.

 

 

 

(Não Levo Saudades)

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publicado às 23:41

Democracia Camionista

por P. Barbosa, em 15.03.11

Este protesto dos camionistas é sintomático. Entendia-o se fosse dos taxistas ou de outra actividade que tivesse preço tabelado. Mas o negócio dos transportadores é livre, o preço é livre, e se estes acham que os custos de actividade subiram para além do razoável, então é normal que o preço do serviço suba. Aumentem o preço!

 

Mas não têm coragem. Perferem pedir ao papá que lhes resolva o problema... com subsídios, como sempre. Não estou a defender este governo (muito longe disso), ou as políticas (esse é outro problema), estou a criticar a atitude rasca que tão frequentemente se vê na TV.

 

Vão para a rua, exercer o seu direito democrático ao protesto e à greve, montando piquetes e obrigando os camionistas, que exercem o seu direito democrático de não aderir ao protesto, a parar. Pedras e tiros de caçadeira para aqueles que estão a atrapalhar. A democracia é tramada. A democracia dá trabalho.

 

O problema deste país é este: Somos camionistas, em luta (que mais sabemos fazer?), a atirar pedras democráticas àqueles que nos atrapalham a cobardia.  

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publicado às 20:15

Quero que fique bela, como tu.

por P. Barbosa, em 08.03.11

 

Desde muito pequeno que, ainda imberbe, sofria com a beleza alheia.


Vivia numa casa pequena e pobre. Tinha duas divisões, e em metade delas não havia telhado que merecesse o nome. As paredes seguravam apenas as paredes. Tijolo nu, num dos lados, pedra segura por barro, no lado oposto.


Apesar de já ter idade para ir à escola, não ia. Ficava a guardar as ovelhas e as cabras no monte, enquanto olhava as crianças da sua idade com a mochila às costas na rua que levava à escola. A mãe disse, um dia, ao jantar, à luz da única vela que havia, O miúdo devia ir à escola, para aprender a ler e a escrever...O pai não fez caso enquanto comia a maçã. Comia-a sempre com casca, comia-a sempre em talhadas direitas que cortava com a navalha. Comeu dois pedaços, e nesse silêncio que tremeluzia com a respiração pequena da mulher, disse, tumular, O miúdo dá-me jeito a cuidar dos bichos. Cortou um pedaço mais e comeu-o. Não levantou os olhos da maçã. Disse, tumular, As letras não matam a fome. Bebeu o vinho que restava no copo. Foi-se deitar. Não voltaram a falar.
Já não me lembro do nome dele. Chamemos-lhe António.

 

António levava as cabras e as ovelhas a pastar, mas desde essa noite, em que ficou decidido que ele não haveria de saber ler ou escrever, António fazia sempre um desvio no caminho. Passava pela colina sobranceira ao pátio da escola, e demorava-se a ver os outros miúdos através das janelas, sentados e escrevendo nas ardósias, enquanto a professora, de pé, maestro, falava e caminhava entre as filas de carteiras, fazendo festas nos cabelos dos alunos que lhe respondiam certo. Ela era uma professora diferente, e António sabia disso sem nunca ter ido à escola. Era bela e jovem, doía. A mais jovem que alguma vez havia aparecido naquela terra. Em vez de usar reguadas como remédio para respostas erradas, como era tradição, em vez disso a professora metia os dedos nos cabelos dos miúdos, em gestos lentos, sempre que lhe respondiam certo. António demorava-se ali, junto ao muro da escola, em passos atómicos, enquanto a olhava. Acelerava o passo apenas quando as cabras, já longe, o chamavam.

 

A mãe da professora, professora reformada, abnegava-se em acções de caridade pelas aldeias da redondeza. Ao longo desses anos, aprimorou os métodos e as estratégias de convencimento, quer junto daqueles a quem pedia, quer junto daqueles a quem oferecia. Descobriu, com tristeza solene, que precisava de distribuir igual esforço entre os dois. Usava a influência e o dinheiro do marido falecido. Usava o suborno. Usava o engano. Conseguia o que queria.

 

Meteu na cabeça que havia de ajudar a família de António. Ofereceu-se para fazer arranjos na casa. O pai de António disse-lhe que não. Insistiu uma e outra vez, ofereceu-lhe um copo de vinho. O pai de António cedeu.

 

Um dia, a professora e a mãe da professora apareceram para ver a casa, para decidir que arranjos podiam fazer. Nesse dia, António olhou-a como se não houvesse sol no céu. Ao fim de um tempo que não podia ser ignorado, a professora aproximou-se de António, abaixou-se, e perguntou-lhe, Como queres que fique a tua casa? Sorria, e António sorriu-lhe. Olhou para trás, para as paredes de tijolo cru, para as madeiras podres da janela e da porta, para o chão de terra, olhou aquilo tudo, certo do que estava a ver, voltou a olhar os olhos verdes da professora, e disse-lhe, Quero que fique bela, como tu.

 

A professora alargou o sorriso, acrescentando-lhe outra coisa que não pode ser medida, e passou a mão pelos cabelos encaracolados de António.

 

Chamemos-lhe Felicidade.

 

 

(Não Levo Saudades)

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publicado às 22:36

Chove, inverno

por P. Barbosa, em 07.03.11

 

 

 

Cinzento. Parado.

 

Na minha frente, três janelas. Um tríptico perfeito.
Trovão.

 

A chuva inicia. Cai em ondas oblíquas, em vagas de vapor conduzidas pelo vento, vento.
Trovão. Branco. Redondo, o som que caiu.
Belo.

 

A chuva desenha linhas pontilhadas a gotas no vidro do meu tríptico.
O mundo fica sempre mais belo quando lavado.
Esperança.

 

O trovão faz-me pequeno. O trovão aconchega-me; aconchego-me.
Quero o calor. O som da água no ferro e no vidro da janela. Fresca.

 

Chove, inverno.

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publicado às 21:28

Ninguém merece a alma que tem

por P. Barbosa, em 04.03.11

Preso por um atilho.

Ninguém merece a alma que tem.
Têm-na de oferta, dívida não pronunciada, mas sempre presente. Chama-se medo.

A corrente que prende chama-se medo. A verdade que me prende chama-se mentira.

Hoje vi um mendigo mendigar junto de outro mendigo. Uma realidade impossível que se tornou realidade. O mendigo olhou para aquela verdade, olhou para o outro mendigo que lhe pedia uma moeda, e não teve mais certeza do universo onde havia chegado.

O atilho transformou-se num baraço laço. Que foi apertando sem se notar. Conveniente vontade. Conveniente realidade.

Fechou os olhos, o mendigo, e deixou a verdade passar. Fechei os olhos também, com o sorriso que fiz ao contemplar aquele outro universo longínquo ao qual não pertencia, regido por uma lei da gravidade que não era.

Se naquele momento tivesse surgido um espelho na minha frente, teria deixado de sorrir. Mas estava já de olhos fechados, protegido de qualquer mal que por ali pudesse andar.

É um truque banal. É uma artimanha da humanidade.

Acautelo-me sempre. Chama-se medo.

Abano a cabeça. Abanas a cabeça. O teu universo é previsível como o vento. Humedeço o dedo com a saliva que aponto no ar. Sinto-o, está ali. É uma verdade banal. Chama-se mentira.

O baraço transforma-se num arame farpado que fere a carne que não te pertence. Pára de sentir a dor que não é tua. Culpado és por sofreres na pele e na carne emprestada. Que fizeste, malvado? Devolve-ma.

Chama-se cobardia. Chama-se medo. Tirano encurralado entre quatro paredes. Sentes os pés soterrados na lama. Sentes o céu cair-te em cima numa bátega de água sôfrega que te quer afogar. Que fizeste, malvado, para merecer? Chama-se medo. Inventas a mentira que te há-de salvar. Chama-se verdade. Que fizeste, malvado?

Devolve-me a verdade. Amanha-te com o medo.

Fica preso por um atilho.

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publicado às 01:07

Não há nada adiante, nada,

por P. Barbosa, em 02.03.11

(...)

O passado só tem força quando todo o futuro que temos pela frente se comprime no presente.

 

Não há nada adiante, nada, uma parede, um precipício, um vazio indiferente, uma planície sem horizonte, e nessa condição só nos resta olhar para trás, para o passado (para onde haveria eu de olhar?), para o sítio que não queremos lembrar.

 

António vivia nesse lugar. Eu não. Eu olhava para trás e via nada. Eu olhava para a frente e via uma névoa. Vivo no topo da agulha, nesse ponto singular que é o presente. Em volta é o deserto sem areia.

 

Dói. Equilibro-me. Esforço-me para equilibrar-me como se estivesse num número de circo, mas sei já que, faça o que fizer, nunca caio. Equilibrar-me, na verdade, exige-me o mesmo esforço a que está sujeito um sempre-em-pé. Quem me segura?

 

Não é uma pergunta de retórica. Não estou a exercer um direito poético. Estou a perguntar: Quem me segura? Aguardo resposta à minha carta de remetente conhecido.

 

(Não Levo Saudades)

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publicado às 00:38


Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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