Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Foi Assim Que a Levei Para a Cama...

por P. Barbosa, em 26.04.11

 

Explico-lhe que por causa do FMI, do aumento da Euribor e da descida do PIB, vou ter que lhe cortar na ração. Não me liga. Permanece indiferente roendo o pedaço de pau. Só arrebita quando a conversa lhe interessa. O meu cão tem uma excelente audição. O resto da humanidade, também.

 

 

 

 

Enquanto houver inocência há esperança. Rezo para que ele não seja como eu. Sou ateu. Rezo para que ele não me falhe como eu lhe falhei.

 

 

 

O homem que protesta com os animais que nos governam atira a beata para o passeio. A vizinha diz que sim, são todos umas bestas. Aguarda que o cão preso pela trela defeque no chão. Despedem-se cordialmente. É o país que temos, diz o homem enquanto esmaga a ponta da beata. É o país que temos, Sr. Manel, responde a mulher com um sopro de enfado, enquanto dá um puxão na trela do cão que cheira a merda que acabou de fazer.

 

É o país que temos, digo eu baixinho.

 

 

(PS: só clicamos naquilo que nos interessa)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:45

O Universo Mudou de Lugar Sem Me Levar

por P. Barbosa, em 22.04.11

...

 

Meto as mãos nos bolsos fundos do meu sobretudo. Toco o molho de cartas seguro por um baraço. Sinto, nos dedos, o papel velho, os altos da lama das Ardenas, e os buracos da guerra. Tiro uma ao calhas, como se estivesse a sortear um prémio. Sentei-me numa paragem de autocarro enquanto a chuva caía. Abri a carta.

Dizia:

 

1 de Outubro de 1949

 

Já não sabemos quem é o inimigo.

Hoje senti a morte pela primeira vez. Senti-a entrar, passar por mim, e depois deixou-me vivo para trás. Sempre achei que a morte fosse o menor dos sofrimentos, pois não há lembrança que resista a esse esquecimento. Mas não;


Está sempre frio. Um gelo que imobiliza. Ao fim de tanto tempo, não estou certo se é a guerra a culpada pelo gelo que sentimos, ou se foi o gelo deste sítio que pôs todos a disparar uns contra os outros. Já não estou certo se queremos matar para nos defendermos ou se para fazer um favor. Ao fim de um tempo desistimos.

 

Ao fim de um tempo desisti. Escondida atrás de uma porta; a casa estava esburacada pelas munições de diferentes calibres, mas a madeira da porta de entrada estava como nova. Distinguia-se claramente na fronte da casa como se tivesse luzes de néon. Era irresistível. Quando o é, irresistível, mesmo que desconfiados ou certos que a morte se esconde por detrás, somos sempre transportados para a sua frente, e depois de lá chegar é impossível desistir.

 

Chorei, em frente daquela porta fechada.

Abri a porta (que mais podia eu fazer?), abri a porta devagarinho, e esse movimento pareceu repetir-se uma e infinitas vezes, como se não se quisesse consumar, como se fosse uma fronteira que depois de atravessada fica fechada para sempre. Abri a porta, e por fim, quando ela acabou de abrir, levei com duas balas de canhão pelo peito adentro. Mal me segurei em pé.

 

Não queria acreditar no que estava a ver. Queria morrer mas as balas de canhão passaram por mim sem me beliscar. Atravessaram-me sem me matar, deixando apenas um dor que (estou certo) nunca irá acabar.

Olhei para o inimigo, no meio, empunhando a arma, ladeado por dois camaradas do meu pelotão. Riam-se, de mim, os três. Camaradas e inimigo confraternizando.

 

Fechei a porta devagarinho, uma e infinitas vezes, num movimento que não parecia terminar. Chorei, em frente daquela porta fechada. Estava no mesmo sítio que momentos antes, mas o universo já tinha mudado de lugar sem me levar.  

 

...

 

(Não Levo Saudades)

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:02

O Estafermo

por P. Barbosa, em 22.04.11

Doía-lhe o rabo em brasa. E a cabeça também. Fervilhava de raiva com a sua impotência para a vingança, que desejava, e que a sua pequenez por agora impedia. Prometeu a ele próprio que um dia haveria de ser ele a vergastar rabo alheio.

 

O nome dele não era em vão. Manel dos Ossos, naquele tempo, aos dezasseis anos, notava-se ao longe. Sofria de uma enfermidade que em Vila do Bispo não era propriamente original; os ossos das suas clavículas eram desproporcionadamente salientes, dando cabo da natural noção de proporção corporal. A magreza do seu corpo prejudicava a equação, e os habitantes de Vila do Bispo evitavam olhá-lo quando por ele passavam, como quem se desvia de uma encenação do Diabo. Para ele, naquela altura, tanto lhe fazia.

 

Mas agora doía-lhe o rabo. Mal podia andar com as dores angulares que lhe fustigavam as nádegas de todos os lados. O seu pai dera-lhe uma dúzia de vergastadas por ter roubado laranjas e maçãs na Terra Pequena de D. Januário. E a força com que as deu foi tal que ficou sem perceber qual a verdadeira razão para tamanha desproporção. O seu pai era um bêbado ausente da vida, da dele e da sua. D. Januário, por razões que só Manel sabia, não o castigou quando o apanhou na Terra Pequena em flagrante delito. «Seu estafermo», foi o que disse, sem convicção, quando o agarrou e o abanou de tal forma que as maçãs e as laranjas que segurava no regaço dos braços caíram ao chão.

 

O seu capataz, Juvenal, que o acompanhava para todo o lado, estranhou tanta leveza na acção. Em tempos não muito distantes, ele próprio teve de sofrer com a ira de D. Januário por muito menos que o roubo de algumas laranjas e maçãs.

 

- Pega nesta besta e leva-o a casa. – Manel sabia a razão de tão anormal comportamento. Olhava D. Januário directamente nos olhos, lembrando-lhe assim o que aconteceria se ele se atrevesse a levantar a mão contra ele.

- E avisa o pai de que se ele não o ensinar a ter respeito pela minha propriedade, então será ele próprio a sofrer o castigo pelo roubo daquilo que é meu. – completou D. Januário, mal disfarçando a frustração que sentia dentro de si.

- Sim, D. Januário. – o capataz apreçou-se a levar Manel pelo braço até à pequena casa construída à saída da Vila do Bispo atrás de um grande carvalho, escondida dos olhos dos transeuntes.

 

A escolha do local não tinha sido inocente. Apesar de serem os mais pobres da vila, apesar do seu pai ser um bêbado sem destino, e da sua mãe ser uma pobre mulher que sofria de verdadeiras enfermidades, que a não deixavam mover, a não ser pela força da sua enorme determinação, tinham um estranho orgulho oculto. A casa, se formos bondosos no adjectivo, era um quadrado com não mais do que o tamanho de dois homens deitados. O telhado estava coberto por palha semi-apodrecida, que já fedia, ou talvez fosse do chão, um lamaçal. Dentro de casa, objectos dignos de nome não havia.

 

Um molhe de pedras elevava um molho de feno, que assim podia passar por cama, e a casa era apenas isso, o sítio onde Manel vinha dormir e fugir das chuvas de inverno, e a espaços saber se havia alguma coisa para comer. O resto do tempo passava-o a deambular pela vila e pelas terras vizinhas, comendo o que ia encontrando ou roubando, de Verão dormindo ao relento e desaparecendo de casa dias e semanas seguidas a fio, como um guerreiro que vai para uma expedição a Jerusalém. Os seus pais pouco se preocupavam, e quando ele voltava dessas suas expedições nunca lhes sentiu qualquer tipo de cuidados com o seu desaparecimento.

 

Ele era um cão vadio. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 00:55

...

 

Andar é a maneira que eu tenho para permanecer quieto. Ando devagar, e as imagens passam lentamente por mim. Corto o ar de veludo, quente ou frio. Esqueço-me. Andar é preciso. Mesmo agora, início de outubro, cai uma borrasca e trovões imensos iluminação o céu. Um misto de medo e beleza atrai o meu olhar, enquanto procuro as arcadas e os beirais para fugir à chuva.

 

António não me compreende, chama-me louco quando me vê partir em caminhadas aparentemente inúteis. Encolhe-se no meio da sua cama de cartão e diz-me, Vai-te deitar vai. Mas eu não vou. Nunca vou.

 

Inquieto-me por dentro e as ideias não param em nenhum lugar. Sei bem que se não fizer nada tudo será pior. Andar é a maneira que eu tenho para permanecer sossegado. No fim dessas caminhadas sinto-me limpo e rejuvenescido. Acerto o compasso das ideias e a pouca memória que guardo faz novamente algum sentido. Parto sem levar saudades e chego tranquilo.

...

(Não Levo Saudades)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:54

O Conto do Vigário

por P. Barbosa, em 12.04.11

Andava eu na Fnac, depois do almoço, quando me deparei com um livrinho pequeno, um A6 miserável, intitulado "O Conto do Vigário". Desconhecendo que havia sido o Pessoa a escrever o conto, senti-me tentado a largar os 6€ solicitados pela editora CentroAtlântico. Prefácio de Bagão Félix.

Quando já o tinha na mão para me vir embora, veio-me de repente um ataque lúcido de sovinice e sentei-me num daqueles banquinhos da Fnac a folheá-lo. Folhei, prefácio. Muito bem. Folhei, folhei, ainda o prefácio. Fast-forward para o meio do livrinho, prefácio. Mais umas páginas, prefácio. Raios, fast-forward para o fim.

O "O Conto do Vigário" é a história do português espertalhão. Contado na pessoa de um lavrador negociante de gado do início do século passado, é hoje representado por banqueiros, políticos, editoras sem imaginação, na verdade, por todos nós.

O livrinho à venda na Fnac é um Conto do Vigário. São 33 páginas de prefácio, e 3 ou 4 páginas do conto propriamente dito.

Para ler o conto, basta aceder ao link AQUI. Quanto ao livro, poupem os 6€ e não caiam no Conto do Vigário.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:04


Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

Disponível em
iBooks, Google Play, Kobo, Kindle











Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2012
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2011
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2010
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2009
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2008
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D


Mais sobre mim

foto do autor