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Grito-lhe. Rasgo o vento com as palavras. Aponto-lhe o dedo ao centro do centro. Digo-lhe, certo de mim.

 

Nunca sei se a palavra que sai me constrói ou destrói. A viagem que escolho nas palavras que emprego tem o destino do destino. Escolho-as na esperança de uma salvação, mas não estou seguro se  cairei no abismo.

Agora não. 

Hoje foi o dia da revelação. Da minha, e de mais ninguém. Escrevo no meu caderninho preto transformado em negro. Há muito tempo que não escrevo no meu caderninho preto. Há muito tempo que escrevo sem escrever. O meu caderninho preto é agora negro como eu dentro. Sigo o trilho de letras fingindo. Sei o que me espera no fim desse caminho escuro. Salvo-me, por agora.

António sabe.

Agora não. Olha-me certo do trajecto e do destino escolhido nas palavras que emprego. Digo-lhe, Não merecem o meu esforço. Empreendo tão grande viagem, eu e tu meu irmão - António, no olhar, não está seguro disso- e depois desprezam-nos quando descobrimos-lhes a verdade. António diz que sim com a cabeça, mas não estou certo se a sua convicção é fruto das minhas palavras, da minha razão na razão, ou do machete afiado e manchado de sangue que seguro na mão. Aponto-o na sua direcção. Grito-lhe, Tenho ou não tenho razão? António diz que sim, com a cabeça. Dá-me razão. Insisto, Temos de matá-los, percebes?

Se soubesse o que sei hoje teria agido de outra maneira. Se souber o que sei hoje, esquecerei tudo ao fim de um tempo,e repetirei tudo novamente. Dia não é dia sem matança. Hoje treinei com o pato que engordava na horta que fica por detrás da casa, amanhã treino com o pastor ou com Catarina França. António não sabe que o sague é do pato que o há-de fazer lamber os beiços logo ao jantar.

Medo e gula vivem lado a lado sem o saberem.

 

 

 

(Não Levo Saudades)

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publicado às 12:32

Open-sourced blueprints for civilization

por P. Barbosa, em 17.05.11

A internet ao serviço do conhecimento. O conhecimento ao serviço da sustentabilidade e autonomia individual e colectiva: liberdade.

 

Parece pouca coisa, mas é brilhante na essência.

 

 

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publicado às 22:38

(...)

 

Catarina França levou-nos para sua casa. Ficava num lugarejo chamado Alfaião, a meia-dúzia de quilómetros de Bragança. Tinha pouco mais de cem vivalmas. Apesar de estar tão perto de Bragança, aquela meia-dúzia de quilómetros pareceu-nos ter transportado para uma época e para um tempo que já passou.

 

A casa de Catarina França acentuava essa ideia de que havíamos sido teletransportados para outro universo. De xisto, de cima a baixo, incluindo o telhado, tinha janelas de madeira velha, pintadas de vermelho já escamado pela idade, e uma porta branca coberta por uma latada que crescia ao lado. Por dentro, a casa era surreal. Nunca esquecerei a sensação penetrante que me ficou daqueles primeiros dias na casa de Catarina França em Alfaião. Não tinha electricidade ou água canalizada, ou qualquer sistema de esgotos. Era uma casa parada no tempo.

 

Quando acordava de manhã cedo, com o sol a espreitar inclinado através das janelas, via-se o pó a flutuar na luz do sol e o brilho baço e lento da cal irregular das paredes. Havia um cheiro único no ar. Havia um silêncio irreal. Agora, no mundo em que as outras pessoas vivem, é impossível assistir a este tipo de solidão. Há sempre um zumbido de um electrodoméstico qualquer, mesmo que pequeno, mesmo que não o notemos de tão habituados que estamos. Há sempre uma luz ligada. Há sempre um objecto qualquer que nos assegura que vivemos neste século e não no século passado.

 

Na casa de Catarina França não havia nada. Apenas paredes caiadas de branco, um chão de pedra tosca, móveis simples e velhos de madeira, a pequena lareira enegrecida pelo fumo, as panelas pretas de ferro fundido encostadas às brasas que crepitavam, o aroma das refeições rudes que Catarina França cozinhava. Havia, acima de tudo, um silêncio imponente, um pó fino e único que flutuava eterno na imobilidade do tempo que decorria naquele lugar.

 

Gostava daquela casa. Gostava de ficar quieto, em pé ou sentado num banquinho de madeira, olhando aquelas coisas todas que me penetravam e que se transformaram numa memória que nunca mais fui capaz de esquecer.

 

António preferia o exterior. Levantava-se cedo e ia calcorrear as colinas redondas e nuas das redondezas. Dizia que eram carapaças pré-históricas de tartarugas gigantes. Frequentemente, chegava a casa com a roupa encharcada dos mergulhos que dava na ribeira que passava rente a Alfaião. Não se dava ao trabalho de tirar a roupa. Entrava na água como tinha chegado, e voltava para casa como havia saído. Sempre com um sorriso nos lábios.

 

Catarina França vivia sozinha com um cão velho que mancava de uma perna e que tinha já perdido metade do pêlo. Mexia-se como um boneco insuflável de plástico. O cão não era propriamente dela, mas de um pastor velho que por ali passava dia sim, dia não, com o seu rebanho de ovelhas. Um dia entrou na casa de Catarina França e decidiu que não queria mais voltar para o pastor. O cão nunca saía de casa, o pastor nunca entrava em casa. Nos dias sim, o pastor passava com o rebanho de manhã para as pastagens a norte de Alfaião, e na direcção oposta ao final da tarde. Nos dias não, aparecia sozinho quando o sol tinha acabado de se deitar e ficava lá fora a fumar até a sua presença ser notada por Catarina França.

 

Ela saía e dirigiam-se sempre para a horta que ficava ao fundo da pequena encosta, nas traseiras da casa. Ao fim de um tempo sempre igual, ouvia-se o gemido compassado do prazer. Ou seria satisfação, ou talvez alívio, pois nunca soube distinguir nas pequenas nuances dessa dor chamada prazer a verdadeira razão para fazer o que ela fazia com o velho pastor. Demoravam sempre o mesmo tempo. No final, o pastor abandonava o local fumando mais um cigarro e Catarina França voltava para dentro de casa. O cão esperava por ela na ombreira da porta. Quando ela entrava o cão cheirava-a e abanava a cauda de satisfação (era o único momento em que notava, no cão, um pingo de emoção).

 

 

(Não Levo Saudades)

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publicado às 20:22

Jerónimo x Portas

por P. Barbosa, em 07.05.11

Portas é um político astuto, e inteligente. Ontem vi-o desmantelar, com mestria sub-reptícia, uma das tácticas que mais me irrita nos partidos de esquerda (fundamentalmente no PCP e BE, a espasmos, no PS): a cultura dos «Bons» contra os «Maus».

 

A retórica de combate do PCP (por ingenuidade) e do BE (por astúcia) é a de que a direita são os «Maus da Fita», e eles são os «Bons da fita». É a mesma táctica que é usada por líderes sindicais (os políticos da 2ª divisão) e por uma panóplia de outros representantes do nosso «grande» ecossistema de lobbys, «líderes» e «representantes».

 

Nunca lhes ocorreu, ao PCP (por imobilidade ideológica), e ao BE (como estratégia de sobrevivência ideológica), que não há verdades absolutas, que todas as opiniões são válidas até prova em contrário, e o que interessa são os resultados, não as ideologias.

 

Revela (no PCP), a meu ver, falta de entendimento daquilo que é a democracia moderna e (ao BE) desrespeito (com alguma razão, verdade seja dita) pela inteligência da população.

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publicado às 15:58

Para quê?

por P. Barbosa, em 06.05.11

Para quê a moral, se o universo nasce de um nada e esgotar-se-á noutro?

 

Para quê tudo, quando tudo se resumo a um ponto?

 

Para quê a consciência, se não podemos mandar carta de amor ou ódio àqueles que repetirão as palavras que são sempre inventadas?

 

Para quê deus, se é tudo pó?

 

Para quê o livre arbítrio, quando o fim é fim?

 

Para quê?

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publicado às 23:49

O tempo passa por mim como uma aragem agreste. Sinto o demónio.

 

O rapaz à beira da estrada olha-me e diz-me adeus. O cão fiel aponta os olhos ao chão e ignora-me. Quero perguntar-lhe qualquer coisa, mas não sei o que é. Nada consegue sair. Fico mudo pelo tempo morto que passa por mim, agreste.

 

É apenas medo, é apenas solidão, é apenas a certeza de que em mim tudo parte sem nunca antes ter chegado. Olho o rapaz que vai diminuindo de tamanho no mundo que encolhe até caber na palma da minha mão.

 

Digo-lhe adeus de volta (que mais posso eu fazer?). Estico o braço e faço pontaria ao horizonte pequeno. O meu universo encolheu, ou então partiu sem me levar com ele.

 

(Não Levo Saudades)

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publicado às 09:38


Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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