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30-06-2011, meia-noite e dez,


Tudo isto aconteceu, tudo o resto é imaginação.

 

Em passo acelerado, firme, no passeio, ela grita, gesticulando com os braços. Ele, mais atrás, vai calmo e sereno, como se não carregasse culpa alguma. Ela volta-se para trás sem parar de andar e grita-lhe, Antes achava-as uma merda e agora enrolas-te com ela. Para ti é tudo igual. Ela grita, para que toda a gente oiça. Ele segue-a, quatro seguros metros atrás, calmo e sereno, como se não fosse com ele que ela grita. 

 

Chegam ao carro. Ela do lado do condutor, ele do lado do passageiro. Não sabem se entram ou se ficam cá fora. Ela atira granadas e morteiros por cima do carro, ele abre a porta e entra. Ali fora não é território seguro. Ela entra também. Fecham as portas com toda a força que a raiva pede. Ela tem raiva, ele finge que tem raiva.

 

Vejo-os, da varanda. Agora, só se ouve o som abafado e baço que atravessa o vidro e o ferro do carro, dela, que continua a gritar, dele, que grita agora também.  A noite é fresca e o casal de namorados luta sem parar. Ela chora (pelo menos penso que chora), põe a cabeça no volante. Ele fala alto e grita também, não se fica atrás. Quando ela desencosta a cabeça do volante é a vez de ele encostar a cabeça no tablier do carro.

Vejo-os, ao longe. Animadas pelo vento, as folhas das árvores não param no bulício fresco que me acaricia a pele (parece que conversam educadamente umas com as outras).

 

Estou sem camisa, encostado à porta da varanda. É por casa do vento que estou sem camisa. Vejo-os, pequenos, sombras. Minúsculos no meu mundo grande, são como formigas enfiadas num carro de brincar, discutindo insignificâncias:  a vida. Ao longe, valem nada. Assisto. Como vai acabar? Ela liga as luzes do carro, ameaça que vai embora, grita-lhe para ele sair. Ele abre a porta, ameaça, mas não sai. Fecha a porta e agarra-lhe pelo braço. Como vai acabar?

 

Vejo os vultos agarrados dentro do carro. Será que se beijam já, ou é ele que a agarra à força? Talvez a mate eu terei de chamar a polícia, dizer-lhes, mais tarde, Sim senhor, foi aquele que está ali.

 

Lemos a história mas apenas o ponto final interessa. Abrimos os olhos e escutamos os arautos da desgraça, o mais que podermos, durante todo o tempo que aguentarmos, mas apenas procuramos o fim, aquele ponto minúsculo no final da folha onde tudo cabe.

 

Ele sai do carro. É um passo arriscado. Dentro do carro é como se estivessem deitados na mesma cama. Agora, assim, ela está liberta de qualquer obrigação conjugal. Caminha, lentamente, até ao banco de jardim a dez passos do carro. Senta-se, põe a cabeça entre os braços, finge que sofre (pelo menos julgo-o assim). Ela tem já os faróis ligados, mas não liga o carro, fica ali, no limbo da indecisão, sem saber ao certo o que perde e o que fica a ganhar. Faz contas.

 

Como irá terminar, tudo?

 

Os minutos voam, ele sentado no banco de jardim, ela sentada no banco do carro. Ninguém sede. O motor é ligado. Espera mais um pouco, como se o carro precisasse de aquecer as válvulas, depois, quando tudo fica demasiado óbvio, mete a marcha atrás, faz a manobra devida e vai-se embora. Ele permanece com a cabeça enfiada entre os braços. Ao fim de um tempo seguro, desmancha o sofrimento e levanta-se. Caminha agora, lento, perdedor, sem saber ao certo que rumo tomar, e grita-lhe, inútil, pois ela é já um ponto final no escuro da noite, Estou farto de ti!

Pergunto-me, secretamente encostado na ombreira da porta da minha varanda, Quando é que isto tudo vai terminar?  

 

Sinto-me um deus pequeno que toma nota da sua própria criação. Abro o computador e escrevo:

 

30-06-2011, meia-noite e dez,

 

Tudo isto aconteceu, tudo o resto é imaginação.

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publicado às 20:23

Sou magnânimo com o sofrimento dos outros, ou pelo menos assim gosto de me ver. Pousei a mão esquerda sobre o ombro de Catarina França e ela reprimiu-me o atrevimento, enquanto chorava as últimas gotas desse estranho suor capaz de expurgar o sofrimento do corpo. Contorcemo-nos por dentro e transpiramos pelos olhos.

 

Sou magnânimo, e por isso nada fiz nessa semana nem na seguinte, nem na outra que se seguiu a essa. Andei por ali, de roda de Catarina França, como um cão, igual ao cão. Ela fazia a comida e nós comíamos.

 

Mesmo com o frio de outubro, António atrevia-se com mergulhos fundos no ribeiro que passa rente a Alfaião, nunca tirando a roupa, sempre voltando encharcado para casa. No final da primeira semana adoeceu, gripe, febre, e teve de resignar-se a um regime de canja de galinha, enfiado entre duas mantas no nosso quarto anacrónico.

 

Catarina França tomou posse do molho de cartas e foi lendo-as, uma a cada dois dias. Chorava frequentemente. Nos dias em que não calhava ler, o pastor aparecia com o pôr-do-sol e era uma questão de minutos até se ouvir os gemidos nas traseiras da casa de Catarina França. Corria até à casa de banho, que dava para as traseiras da casa, para os ouvir com maior fulgor, e por mais de uma vez subi a um banquinho para espreitar pela janelinha minúscula que lá existia. Mas a janelinha não fora mandada fazer para apreciação de paisagens, apenas como escoadouro de vapores humanos. Colocada no topo da parede, julgava o arquitecto artista que assim impedia os olhares indiscretos vindos do exterior e, ao mesmo tempo,
assegurava o bom escoamento dos resíduos mais leves que o ar. Informo esse personagem, provavelmente amador, provavelmente a casa nem passou por qualquer tipo de projecto ou ideia, e nesse caso dirijo-me apenas àquele que recortou a janela na parede, que a intenção, sendo boa de coração, não funciona.

 

Não sei se era da alimentação, da altitude a que a casa fora construída, do microclima da região ou de uma qualquer anomalia na pressão atmosférica, mas naquela casa de banho todos os vapores humanos que saiam de mim, de António, de Catarina França, e incluindo o cão, não sabiam voar, ficavam por ali num nevoeiro invisível e rente ao chão, horas e horas seguidas, repugnando o nariz de quem lá entrasse, e qualquer ar fresco que chegava pela janela aberta não arranjava maneira de furar caminho e varrer com aquela porcaria dali. Felizmente, por novo e estranho fenómeno, aquele pequeno compartimento parecia ser perfeitamente hermético e estanque, como um cofre, pois estando o nosso quarto mesmo ali ao lado, nunca nos chegou o mais pequeno fedor.

 

(Não Levo Saudades)

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publicado às 14:02

Faz-te à vida ou a vida faz-te a ti

por P. Barbosa, em 27.06.11

Catarina França elabora um sorriso falso enquanto segura nas cartas. As mãos não sabem o que fazer a seguir. São da guerra?, diz, pedindo nova confirmação. Abano a cabeça que sim. Poiso o prato limpo a pedaços de pão (nem precisa de ser lavado). Sabias que ele combateu nas Ardenas durante a segunda guerra...? Catarina França abana a cabeça que sim, diz, Sim...mas não sabia que ele tinha escrito estas cartas...o que dizem? Observo as suas pernas até aos joelhos, onde começa a saia. Não estão depiladas como as pernas das mulheres modernas, mas eu não sou de modas. A resposta de Catarina França tranquiliza-me (não sei porquê). As dúvidas que ainda tinha, de que aquelas cartas tivessem sido forjadas, e de que Gervásio nunca estivera na guerra, terminaram. Levantei os olhos para ela, Ainda não as li todas, e todas as que li falam do sofrimento na guerra (minto descaradamente, omito que algumas cartas não dizem respeito à guerra, pelo menos à guerra das Ardenas). Catarina acena com a cabeça, diz que compreende, toca nas cartas com carinho e receio.

 

Desatou o nó e as cartas ameaçaram desfazer a cronologia segura pelo baraço. Vi-lhe claramente a indecisão, vi-lhe claramente a dúvida. Não sabia por qual carta começar, se como num romance mau em que queremos ler logo o fim para saber se vale a pena ler o início, se como num romance bom em que queremos sorver toda a história desde o princípio e descobrir o fim apenas no fim. Puxou uma carta do fundo do molho (penso, Ela receia o que procura). Pega na carta e desembrulha-a como se estivesse armadilhada. Suspirou. Suspirou uma segunda vez, um suspiro mais profundo, ganhando coragem. Nunca entendi como se extrai a coragem do ar. Limpo com a língua os restos de comida entre os dentes e aguardo. Olho à volta (Onde se meteu António? Onde se meteu o cão?).

 

Fiquei a observá-la enquanto os olhos dela percorriam a carta, linha após linha, como numa máquina de escrever das antigas. Depois, num rompante, como se de repente tivesse-se feito luz dentro de si, desatou a chorar e saiu da cozinha para a rua. Vi a carta cair em câmara lenta, como uma folha morta que se desprega da árvore mãe após a chegada do outono. Servida a sua função, cai ao chão e apodrece, alimento do alimento da próxima geração. Desejou ser cinza. Vi a carta cair em direcção ao fogo da lareira. Tocou ao de leve numa brasa minúscula e logo começou a deitar fumo e a ameaçar fogo. Levantei-me do meu banquinho como se tivesse recebido um choque eléctrico pelas costas acima e lancei-me para salvar a carta. Com as mãos apaguei o pequeno fogo e depois retirei-lhe os cantos negros queimados. Basta tocar neles ao de leve para se desfazerem no pó final. Ainda antes de tocarem o chão, mudam de cor. Cinza, cinza serás.

Peguei nela como se fosse de ouro.

 

Dizia:

 

10 de Maio de 1947

 

Pensava que sentir a guerra era o maior dos sofrimentos: matar porque outros nos mandam matar. A guerra é uma arena com o tamanho do mundo. Sem espectadores, só vítimas. Sem bancadas, só lama. Comprovo aquilo de que o homem é feito. Basta olhar.

Basta de olhar.

Tento imaginar o que possa ser pior que o sítio onde me encontro. Ter uma família que não se vê há muito tempo, de que se tem saudade, de que se tem amor. Ter um sítio quente e limpo onde possa repousar, olhar sem receio o céu, olhar as nuvens brancas na sua viagem pachorrenta, sentir as lufadas de ar fresco pelo meio do ar morno que nos acaricia a pele.

Sentir, sem receio de levar com uma bala cabeça adentro. Sentir, sem ser nítido a partir da orla da floresta.

Imagino isto tudo que me espera e não consigo entender como pode haver maior sofrimento do que a guerra em que me encontro. Esforço-me por imaginar, mas a verdade (que não consigo carregar) é que a vida não precisa do meu esforço para nada. Ela própria se encarregará de encontrar os cenários que agora, por incapacidade ou cobardia, não sou capaz de contemplar. Ou então já os vi; já os vi e esqueci-me deles logo a seguir.

 

Faço um esforço, e logo sofro. Imagino, ou recordo? Estou confuso. Será da lama? Vejo, a minha mulher, mãe, as minhas filhas, em cenários ignóbeis capazes de me fazer vomitar. Chove, e poças castanhas fazem flutuar as fezes que se acumulam na minha trincheira. Volúpias secretas, desejos torpes, êxtases que se querem perpetuar, repetir e repetir, vontades alheias que governam os que se querem satisfazer. E eu, onde fico no meio disto tudo? Venho de um guerra e parto para outra? Olho para fora da trincheira e rogo a Deus que lá esteja alguém a quem possa atirar. A matar.

É mentira, é mentira.

Imagina.

Eu não preciso de imaginar.

 

Já não quero sair daqui.

Matem-me.

 

Saí atrás dela.

Estava na altura de meter a conversa que me interessava, que diabo. Ela deu-nos Botelo, deu-nos um quarto para dormir, mas eu e o meu irmão (onde se enfiou ele?) não fizemos tão grande viagem, tão grande sacrifício, para continuar sem saber quem verdadeiramente era Gervásio, e por que razão escreveu ele aquelas palavras tumulares no mármore que lhe enfeita a morte. Virei-me para ela, decidido, como se soubesse o que queria, perguntei-lhe, O que aconteceu em 1944?

Mas é mentira, tudo isto é mentira e aconteceu apenas na minha cabeça. Só faço aquilo que antes sonhei fazer, mas bastas vezes não faço aquilo que sonho fazer, dormindo ou acordado. Não me virei para ela e não lhe fiz a pergunta que devia. Estou a seu lado, na berma do muro de pedra, ela chora baixinho, já estou com as pontas dos sapatos no abismo (e ela também), e permaneço calado.

 

Sempre me regi por uma imobilidade que vagarosamente vai progredindo no tempo.

Lembro-me do meu pai me dizer (e já não me lembro de mais nada dele), Faz-te à vida ou a vida faz-te a ti. Dizia aquilo com o indicador no ar, não apontado a mim, mas para cima, para o céu. Nesses momentos, sentia um impulso de urgência que durava não mais do que um minuto, uma força interior logo atordoada pelo punho fechado que segura o meu coração. Depois, ainda o minuto não tinha acabado, sentia esse fechar do punho, o poder da sua força imobilizadora, cá dentro, e faltava-me o ar e a vontade.

Delego no tempo o favor de me fazer aquilo que eu devia ter feito em devido tempo. Hei-de fazer a pergunta que interessa a Catarina França, tarde de mais.

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publicado às 14:43

Assim que chegou e acendeu o cigarro antecipei-me a Catarina França e fui falar com ele. 'Falar', é uma forma de expressão. Estava determinado a enxotá-lo para fora da vida de Catarina França, dizer-lhe na cara, Ela agora é minha!

 

Aproximei-me. Ele notou que alguém chegava e que esse alguém não era a do costume. Continuou a fumar como se não fosse nada com ele.

Parei quando fiquei a seu lado. Queria dizer-lhe, mas tudo aquilo que tinha ensaiado parecia ter desaparecido na penumbra do esquecimento. Enervei-me comigo mesmo. O pastor continuou imóvel. Depois escarrou para o chão. Olhei. Restos de sangue e tabaco. Fiquei mais nervoso ainda. Tinha elaborado um elegante teorema, um raciocínio perfeito, uma tenaz da razão que (tinha a certeza) iria enxotar o pastor para longe dali, como se faz a um pombo doente que procura um buraco para ser enterrado, e agora não tinha nada nas mãos, um monte de cinza, um monte cheio de nada e uma pequena pedra de mármore a encimar a minha indignação, com os dizeres, Ela Agora É Minha!

 

Disse-lhe, baixinho, lento, cobarde, Pastor, ela agora é minha. Fiquei à espera de uma reacção, de uma palavra, de um grito, de um pontapé ou de um estalo, mas o pastor nem se moveu, e assim ficou duas baforadas mais até o cigarro morrer-lhe nas mãos. Atirou-o para bem longe. Não me olhou, disse-me, Entendo a tua urgência. Escarrou novamente para o chão. Entende-me?, disse-lhe de volta, e depois, só cá dentro da minha cabeça, Entende-me? Continuou a olhar em frente. Tirou outro cigarro e começou a fumá-lo, disse-me, Sei o que procuras...mas o que escolheste vai-te levar a lado nenhum.

 

Olhei para trás, Catarina França estava na ombreira da porta olhando-nos. O cão, a seu lado. Olhei o pastor, E que procuro eu?, perguntei-lhe, desafiador, e depois, só cá dentro da minha cabeça, E que procuro eu? O pastor atirou o cigarro meio fumado para o chão, e a seguir olhou-me nos olhos. Vi-lhe a cara pela primeira vez, embora preferisse não a ter visto. Parecia uma caveira coberta por uma fina camada de pele. Os olhos eram negros, negros, e os dentes amarelos, sangue e nicotina. Exibia uma tristeza profunda. Disse-me (nunca esquecerei o que ele me disse), O homem é a luta com ele próprio. Compreendo-te.

 

Afastou-se, e nessa noite não houve gemidos compassados nas traseiras da casa de Catarina França.

 

(Não Levo Saudades)

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publicado às 10:21

E tens medo?

 

Fiz uma breve pausa antes de lhe responder, mas a pausa não era dúvida, apenas o tempo necessário para recordar o filme armazenado, sempre que essas palavras, vindas através das orelhas ou não, surgiam para me fazer estremecer.

 

Disse-lhe, Sonho com o jogo da Glória marcado a giz no chão da minha escola primária. Sou pequeno, sete ou oito anos, tenho uma camisola amarela, sou um peão do jogo. Quatro casas atrás de mim está um homem alto vestido de negro e de capuz. Sempre que ele avança uma casa eu avanço uma casa também, embora se quisesse podia avançar duas ou três. É fácil.

 

Depois (não sei como), tenho trinta ou quarenta anos, visto uma camisola branca, e o homem vestido de negro está três casas atrás de mim. Quando avança fica apenas a duas e vejo-lhe o sorriso a flutuar no negro do capuz. Dou um passo em frente, avanço uma casa e tremem-me as pernas. Olho sempre para trás. Não aguento mais.

 

Depois (não sei como), sou eu agora, velho, fraco, visto uma camisola preta e o homem vestido de negro está apenas a duas casas de mim. A espaços, avança e fica logo atrás de mim. Passa a mão lentamente na minha frente como se quisesse tocar-me (uma carícia que só ele entende, talvez), mas nunca me toca. Tremem-me os pés. Faço um esforço de gigante para avançar uma mísera casa, um simples passo em diante. Penso muito se devo dar esse passo, ou não. Não sei se é medo do que vem à frente ou medo do homem de negro que vem atrás...Não. Não, não é medo, é a vertigem do desconhecido.

 

 

(Não Levo Saudades)

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publicado às 01:13

Foi uma grande viagem a que fizeram!

 

Como disse antes, preparava-me para quebrar o silêncio, mas quando a segunda garfada ainda só ia no início da sua descida ao inferno, Catarina França adiantou-se e meteu ela a conversa que lhe interessava. Melhor assim. Não é que me faltasse coragem, mas faltava-me saber suficiente para escolher a ponta por onde se deve começar. Só faço aquilo que antes sonhei fazer. Só digo aquilo que já imaginei em sonho, deitado ou acordado. Mas como me aflige a doença que já todos conhecem, sobra-me pouco saber para saber por qual ponta devo pegar. É por isso que passo pela vida calado. É por causa disso que vivo uma existência inútil. Esqueço-me sempre daquilo que antes sonhei fazer ou dizer. Equilibro-me na ponta da agulha (dói), roubo moedas da carteira do meu pai, vou até ao jardim esperar pela rapariga do vestido azul, visito o morto no Cemitério dos Prazeres, escrevo no meu caderninho preto que já é negro.

 

Sim, tem sido uma grande viagem, tão grande que já lhe perdi o início, respondi-lhe. Sorrio no meu sorriso estúpido enquanto Catarina França fita-me na sua ansiedade controlada. Ela acha que nós temos aquilo que ela procura. Desmonto o sorriso e pergunto-lhe, curioso, Como foi que nos encontrou? Ela engole um copo de vinho, Vi o anúncio que vocês deixaram, e uma senhora, que me viu ali especada, disse-me que os dois mendigos que afixaram aquele anúncio costumavam dormir debaixo das arcadas do centro-comercial. Ela pousou o prato e o copo no chão, ajeitou as brasas disfarçando a ansiedade, e depois, olhando-me fundo nos olhos (desvio-os), pede-me (talvez suplicasse), Fala-me do meu pai. Atrevo-me a olhá-la de volta. É bela (dói). Do teu padrasto? Com um sinal contido reprime-me a precisão inútil, Era como se fosse meu pai, responde-me. Enfia as mãos entre as pernas e aperta-as.

 

Não sei o que fazer. Não sei o que lhe responder. Não imaginei nada disto, estou perdido no meio do deserto sem horizonte. Não sei nada de jeito sobre Gervásio. Fizemos tamanha viagem, eu e tu meu irmão, para descobrir mais sobre o homem que dorme no Cemitério dos Prazeres, e agora tenho de arranjar notícias para a mentira que afixámos no hipermercado. António não liga aos meus pensamentos e à minha preocupação. Continua a comer. Meto a mão ao bolso e sinto o baraço velho que segura as cartas da guerra. Puxo-as para fora e ofereço-as a Catarina França. Digo-lhe, São da guerra (tremem-me as mãos). Ela pega nas cartas, mas enquanto aproximava as mãos senti-lhe o calor crescente, como uma chama que crescia em direcção a mim, e a dor que queima quando os dedos dela tocam ao de leve nos meus (transpiro). Desculpo-me, A lareira aquece bem a casa (a voz treme-me, as mãos tremem-me, ela sabe).

 

(Não Levo Saudades)

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publicado às 00:59

O Garanhão do Chiado

por P. Barbosa, em 08.06.11

Para quem ainda não viu, imperdível.

 

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publicado às 23:24

Serviu-nos Butelo com cascas. Disse, enquanto servia o António de prato estendido como se pedisse uma esmola, É Butelo com cascas. António não ficou convencido. A carne tinha bom aspecto, mas o resto parecia minhocas mortas secas ao sol. Engelhou o nariz. Catarina França percebeu e conteve um pequeno sorriso. O Butelo é enchido feito com o bucho do porco. O resto são cascas secas de feijão-verde. É uma especialidade da região.

 

Disse aquilo e fiquei certo de que ela procurava algo julgando que nós o teríamos.

Ela oferecia-nos Botelos com cascas, uma especialidade. Oferecia o melhor que tinha numa casa pobre enfiada no meio de um lugar miserável. Enchido do bom (posso-o dizer agora, enquanto saboreio na boca a carne, o sal e o sabor da defumação). As cascas é que não valem grande coisa, mas em compensação enchi-me de broa de milho, da boa.

 

Já tinham passado mais de doze horas desde a altura em que Catarina França apareceu de rompante e de rompante nos levou para casa dela. Já tinham passado doze horas e ainda não havíamos trocado uma palavra que fosse sobre as circunstâncias que nos reuniram, estranhos uns dos outros doze horas atrás e estranhos agora. Comíamos, com os pratos na mão, sentados junto à pequena lareira em banquinhos de madeira feitos para duendes minúsculos. Prometo que daqui a duas garfadas, depois de já ter despachado mais de metade do Botelo, meto a conversa que interessa, que isto de ficar atascado calado não serve ao fim de tão grande viagem, que me trouxe a mim e ao António.

 

Mastigo, devagar, a primeira garfada. Vim para quê? Disse aquilo baixinho sem pensar e Catarina França fixou o olhar na minha direcção. Sacudi a cabeça assinalando-lhe que não me fizesse caso, que me tomasse por parvo. Apontei os olhos para o chão. Tenho a certeza que me achou parvo. Respondo-me (falo apenas na minha cabeça, vocês não têm nada com isso). Elaboro uma expressão de surpresa pequena. Catarina observa-me e acha-me parvo. António devora o segundo prato de Botelos, cascas, broa e azeitonas. Foi tudo. Engulo. Meto a segunda garfada na boca. O cão aparece do nada, silencioso, como se fosse feito de plástico e mexendo-se como um boneco de plástico. Olha indiferente para o Botelo. Não saliva com a gula nem abana a cauda com a satisfação antecipada de uma bondade humana. Olha-nos com olhos mortos e fica imóvel na entrada da cozinha. Talvez sofra do mesmo mal que eu. Talvez também sofra de esquecimento perpétuo. Talvez se esqueça que tem gula. Talvez se esqueça que está vivo.

 

Olho para o cão morto e lembro-me do que sou. A lembrança pequena afoga-me diariamente no mar da indiferença. Valho pouco, e o pouco que valho não lhe dou valor algum. Quase que me esqueço da promessa que fiz. Foi por uma unha negra. Engulo a segunda garfada e meto a conversa que interessa.

 

(Não Levo Saudades)

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publicado às 20:00

O Vencedor das Eleições de Domingo?

por P. Barbosa, em 01.06.11

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publicado às 18:15


Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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