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...

 

Vitória era jovem, demasiado jovem, dona de uma beleza ainda inacabada, talvez quinze anos apenas, mas os homens e as mulheres vorazes não esperam pelo tempo certo, os homens e as mulheres vorazes não se contentam com o tempo certo, nem com a cama certa, nem com a quantidade certa, detestam tudo isso, satisfazem-se apenas com os momentos singulares e proibidos; singulares por serem proibidos, proibidos por serem singulares.

 

Amélia e João tinham nomes cândidos e vulgares mas almas vorazes e inacabadas; vorazes por serem inacabadas, inacabadas por serem vorazes. No meio de tudo isto, penso agora, todos eles acabaram devorados pela vida, cada um à sua maneira, todos eles inacabados.

 

 

É uma sorte a doença que tenho. O esquecimento perpétuo de que padeço é uma absolvição poderosa. Estou certo que também eu sou inacabado, tão mau quanto todos os outros, tão perdido quanto todos os outros, e procuro vago e inutilmente esse mágico momento no tempo em que a minha alma estagnou, ainda não pronta para a vida que chega logo a seguir. E desde esse instante que vem definhando, estou certo disso. Sei bem o que acontecerá quando essa quantidade se esgotar.

 

(Não Levo Saudades)

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publicado às 22:39

E o que fizeste tu?

por P. Barbosa, em 27.08.11

(António está deitado, delirante e febril, fala para mim)

 

Enquanto andas não levantas apenas pó, percebes…?, mas sim letras de terra que no ar se juntam para falar do teu futuro iminente. Mas tu nunca olhas para trás ou para baixo para junto dos teus pés… percebes? Nunca olhas o pó que já foi ossos, percebes? Continuas indiferente no caminho como se fosses dono do futuro… Invejo-te, percebes? Não me podes levar a mal…, disse, enquanto sofria ao tentar engolir em seco através da garganta ferida pela febre e pela gripe.

 

Olhei-o, intrigado. Por que é que eu te haveria de levar a mal?, Olhei-o, ainda mais determinado, esperando uma resposta, e ele ficou ainda mais nervoso, não sabia onde havia de pôr as mãos e os olhos, continuou com aquela estranha lengalenga, Pode acontecer que soubesses mais do que eu, percebes..? Pode acontecer que eu não seja capaz, não tenha…, talvez o melhor que eu consiga é imaginar letras de terra ligadas pelo pó, e outro pó ainda mais fino que liga essas letras em palavras que falam do teu futuro… do nosso futuro… que pobre sou…(levou as mãos à cabeça).

 

Pensei que aquela conversa ficasse por ali, mas ele achou que não, levantou as mãos e começou a fazer desenhos no ar, tremia-lhe tudo, tossia, e a voz áspera parecia vir de uma garganta arrastada sem dó no alcatrão, disse-me, Quando falas das coisas mais banais, do tempo por exemplo (desenhou uma nuvem com os dedos), sussurras palavras secretas no meio das palavras vulgares, percebes? (olhou para mim, avaliando a minha reacção), e só os predestinados como eu são capazes de decifrar essas mensagens que falam do futuro imediato que está já para acontecer. Foi por isso que fiz o que fiz…, percebes? Tens de me perdoar, percebes?

 

Olhei-o, inquieto, E o que fizeste tu?, perguntei e voltei a perguntar, E o que fizeste tu?, E o que fizeste tu?, mas António não fez mais do que desenhar objectos indecifráveis no ar com os dedos, como se estivesse a pintar. Respondia-me, apenas, sem olhar para mim, Percebes?, Percebes? No fim, quando me calei, olhou-me uma última vez, disse-me, Só eu te posso entender, percebes? Só eu, pobre diabo. António virou lentamente a cabeça e tombou no sono do cansaço.

 

(Não Levo Saudades)

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publicado às 23:51

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publicado às 00:16

Sou um desmancha prazeres!

por P. Barbosa, em 22.08.11

Assumu-o: sou uma materialista vertebrado. E tal coisa pode atrapalhar a vida de um homem...

 

No outro dia a minha cara metade virou-se para mim e disse-me que me amava muito...Virei-me para ela e disse-lhe Ó filha, isso são apenas químicos no cérebro...

 

Escuso-me a reproduzir a resposta... A verdade e a mentira não é boa nem má na sua natureza: apenas o uso que se lhe dá pode ser assim qualificado. Nunca desprezem o seu poder para a paz... 

 

 

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publicado às 22:31

:)

 

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publicado às 13:03

(...)

 

António lançou-me um último olhar. Escolhemos sempre bem o sítio para onde lançamos os últimos fôlegos de uma vida. António olhou-me e desperdiçou metade do que lhe sobrava agarrando-me a mão com firmeza. Disse-me, fraco, Na história que é a tua vida só não entendi ainda uma coisa… (tossiu, débil) como foste dar com o túmulo de Gervásio… percebes? António cerrou os olhos e parou durante três segundos para ganhar mais algum fôlego, depois completou, O que te levou até ao Cemitério dos Prazeres… percebes? (tossiu, mais débil ainda) ...percebes?, foi dizendo aquilo enquanto se desvanecia António do mundo dos vivos. Chorava miudinho e tentava controlar o choro enquanto desabava para o outro mundo. Vi-lhe claramente a firmeza com que me agarrava a mão desaparecer, vi-a claramente tombar de encontro ao chão, e por arrasto todo o resto do seu corpo. Fiquei a olhá-lo um tempo. Não chorei por ele, limpei sim as minhas lágrimas dos olhos de António, meu irmão. No deve e haver da sua vida decidiu partir com tristeza. Eu não. Limpei as minhas lágrimas dos seus olhos e logo depois fui ter com Catarina França. Disse, baixinho para mim mesmo para não me esquecer, Onde está a pá que vi no outro dia? Precisamos de enterrar António já.

 

Cavar um buraco geométrico com uma medida certa de profundidade é um anacronismo na vida de um homem. Talvez, por já estar morto, não faça tanta diferença, mas a mim fazia-me espécie a preocupação com a perfeição dos ângulos dos quatro cantos da cova. Afinal de contas a morte também faz parte da história de um homem. Para bater certo com a vida, os buracos que nos enterram deviam ser feitos por coveiros cegos e desorientados por três voltas de cabra cega. Cavei a sepultura durante mais de duas horas, pazadas de terra suficientes para cobrir, cada uma delas, cada um dos dias da vida de António. Cavar a sepultura de um irmão é muito mais que uma actividade física. É um acto filosófico, uma purga de sentimentos, um confronto com a verdade, um tempo para pensar naquilo em que não se tem coragem para pensar no resto do tempo que sobra. Duas horas certas podem valer mais que duas vidas inteiras. Pensei no que não devia. Se pudéssemo-nos arrepender do que pensamos arrepender-me-ia, mas tal coisa é impossível e desprovida de sentido. Assaltava-me a última pergunta de António. Assaltava-me (como num ladrão que entra de rompante de arma em punho e depois fica calado sem saber o que quer roubar), a escolha que António havia feito. Que homem reserva para últimas palavras uma pergunta que não tem tempo de ver respondida? Assaltava-me a ideia de que a pergunta não era uma pergunta e de que a ele não lhe interessava a resposta; o último fôlego de António preocupado comigo, comigo, alguém que não leva saudades, meu irmão. Chorei nas mãos sujas de terra. Chorei.

 

(Não Levo Saudades)

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publicado às 11:36

Sempre que me deito na cama as moedas escorregam-me do bolso; o dinheiro foge de mim como uma mulher bela.

 

Um sinal que nunca esqueci.

 

Passo pelas pessoas da mesma forma que passo pelos pingos da chuva: encolho-me, corro e fujo delas, mas sempre levo os encontrões.

 

Viveria feliz numa ilha deserta, do primeiro ao último dia, sem nunca ver vivalma, sem nunca visitar a maior cidade do mundo ou a sua mais pequena aldeia, viveria feliz - mas só se soubesse que existem outros no mundo.

 

Só suporto as pessoas a uma certa distância (sou, pois, igual a todos os outros). Mas enquanto uns não são capazes de estar a mais de um metro de lonjura de alguém, eu preciso de fugir para lá do horizonte. Penso: Quando for, não levarei espelhos de tamanho algum; um sinal que nunca esqueci.

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publicado às 18:39

  

Sinto-me infalível; no topo do mundo, com óculos mágicos na mão; vejo o conjunto e o pormenor ao mesmo tempo. À minha volta há uma volta inteira de mundo para contemplar. Num único olhar, o mundo novo e o antigo, o profano e o religioso, o natural e o artificial, o humano e o animal. De raspão com o olhar, num movimento cego à razão, comprovo que o mundo tem ainda tamanho bastante para tudo isto misturado.

 

 

  

 

 

As rochas são poderosíssimas, e só parecem meigas por imóveis à escala humana. Enquanto iniciam o acto de uma maldade morrem entretanto mil gerações de homens.

Aceleremos o filme e finjamos que somos eternos; veremos as rochas a esventrar a terra a partir do seu interior, erguendo-se, julgando-se mais leves que o ar, vemo-las cair e serem novamente engolidas pelo chão. O último é sempre paciente, sabe que tudo retorna a ele. A primeira imita (mal) o homem.

 

 

 

 Antes, o topo das montanhas estava destinado a grandes igrejas e conventos, que assim melhor captavam o sinal que vinha de cima e melhor evitavam os maus cheiros que vinham de baixo. Hoje, esses espaços exíguos estão reservados para antenas de telemóvel e moinhos mágicos que moem o vento em electricidade. Apesar da fé forte, somos inteligentíssimos; sabemos que electricidade e dinheiro valem mais que mil orações juntas.

 

 

 

 

O artificial conquista de fora para dentro. É inteligentíssimo. O original eleva barreiras e protege o centro e o topo. O pastor de montanha é o primeiro artífice da conquista futura. A natureza tola tolera-o. Um dia arrepender-se-á.

O pastor segue sempre atrás. Não estou certo se as cabras são modo de vida do pastor ou vice-versa. Os cães, esses, seguem na frente e assumiram, há já muito tempo, o comando do destino do rebanho. 

 

 

 

 

 

Ao longe vislumbramos o futuro ténue. Não sobrará nada. 

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publicado às 23:31

(...)

 

Sei bem o que António quis dizer. Sou velho e ela mais velha ainda. Talvez pudesse ser minha mãe. Mas isso importa nada. Esqueço-me das coisas que os outros julgam importantes, pior para eles.

 

Na mulher (e no homem) é sempre grande a tragédia, ao não aceitar que a beleza pode chegar na altura menos conveniente. Pode não ser aos dezoito ou aos vinte anos, ou aos vinte e cinco, ou o que for conforme o uso e presunção de cada época. Confunde-se juventude com beleza. Perdemos todos. O dia de ontem foi dia não. Hoje é dia sim. Logo no final do sol se pôr aparecerá o pastor, esperando por Catarina França lá fora, faça chuva ou faça frio. Levantei-me cedo, procurei-a.

 

A casa estava vazia, chovia. Um estranho silêncio inundava os meus sentidos. Ouvia o gotejar da chuva fraca contra as telhas e os vidros, sentia o calor e os estalidos do fogo da lareira, via o pó frio flutuando vagarosamente no ar; só as coisas mortas davam sinal de vida. É um silêncio sepulcral, nuclear, como se todos os seres vivos tivessem morrido de repente e apenas eu tivesse ficado para contar. Contar o quê e a quem? Bocejei (sempre resolvi os problemas mais bicudos com um bocejo), e fingi que os outros ainda não tinham morrido; levantei-me e cortei duas fatias no pão duro, espetei-as em dois garfos e coloquei-as junto às brasas para fazer torradas. Barrei-lhes manteiga bruta dos dois lados, em grandes nacos que cortei do bloco duro do frio, e depois deixei-a ganhar vida, e enquanto aquecia e derretia e escorregava para os meus dedos saboreei-a como se estivesse vivo.

 

Catarina França entrou de rompante. Olhou-me parada à porta da cozinha, por um momento apenas, depois continuou apressada pelo corredor no seu passo acelerado. Escutei-a muito atento como se de repente a chuva tivesse sessado e o lume tivesse-se extinguido. Contei-lhe os passos. Abriu a porta do seu quarto (já tinha memorizado o chiar que a porta fazia), e depois voltou o silêncio sepulcral. Doze passos, disse em voz baixa para mim mesmo. Aguardei um minuto ou dois, depois mais cinco, depois outros cinco mais, e o último pedaço de torrada já estava congelado na minha mão. Não fiz um único ruído e aguardava o mínimo ruído. A porta ficou aberta, disse em voz baixa para mim mesmo. Doze passos, repeti. Levantei-me. Para mim seriam sempre doze mil passos.

 

Não sei como aqui cheguei, mas estou a um braço de distância da porta do quarto de Catarina França. A casa é simples; a porta de entrada que dá para uma pequena divisão onde se acumulam cestos, armários e baús. À direita a porta que dá para a cozinha. À frente o corredor. A meio do corredor uma porta para cada lado. Não sei para que servem aquelas divisões. Soltam um cheiro a mofo e é tudo. Ao fundo do corredor, à direita, o quarto de Catarina França. Estou encostado à parede e apenas consigo perceber que o quarto está na penumbra. Ouço um ligeiro arfar que vem lá de dentro. Em frente a esta porta está o quarto onde eu e António dormimos. Vejo António a dormir inquieto. Vejo-lhe o brilho da transpiração na cara. A febre voltou. Ao fundo do corredor fica a porta para a famosa casa de banho.

 

Não sei como entrei, mas estou no quarto de Catarina França, na penumbra. Vejo apenas uma sombra vaga enquanto os meus olhos se habituam à luz fraca. Catarina França esta sentada na beira da cama, de costas para mim. Avanço. Não fiz um único ruído e aguardo o mínimo ruído. Pouso os joelhos na beira da cama e aproximo-me dela. Ela apercebe-se de que chega alguém e que esse alguém é o do costume. O calor que me anuncia já chegou junto dela. É assim que os corpos se unem ou se repelem. O calor mútuo é a força magnética do mundo biológico. Ainda não lhe toquei mas os corações já aceleraram. Pouso-lhe suavemente as mãos nos ombros e deixo-as escorregar até aos peitos. Sinto-os. Encosto-me a ela. Sinto-lhe o calor que sobe, mais leve que o frio do ar. Estou de joelhos sobre o colchão, encostado às costas dela. Sinto-lhe o arfar inquieto através da lã grossa da camisola, a força desse vai-e-vem contra as minhas calças. Excito-me para além da dor. Toco-lhe nos seios. Toco-lhe o pescoço. Pego-lhe sofregamente na face e viro-a para cima, lanço-lhe um beijo vindo do céu.

 

O Mundo começou.

 

(Não Levo Saudades)

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publicado às 23:42


Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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