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O mundo é redondo para que não seja possível aos homens adormecerem todos ao mesmo tempo. Se isso acontecesse o mundo acabaria. Acredita-me, o mundo acabaria.

 

O mundo é redondo para que as trincheiras possam ser construídas mais próximas umas das outras, caso contrário as guerras seriam inviáveis ou os homens teriam de ser substancialmente mais altos. Os homens nunca gostaram de guerras à distância, onde o sangue já não é discernível.

 

O mundo é redondo para que a maldade possa ter um certo descanso em cada parte do mundo, e ao mesmo tempo uma continuidade temporal e geográfica que lhe assegura a perenidade.

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publicado às 00:33

(...)

 

O meu novo universo recomeçou, não tenho dúvida. Não é o primeiro nem será o último. Tudo o que antes existia foi trucidado; nem tanto; pequenos restos, estilhaços de estrelas, memórias fugazes, que não tenho maneira de saber ao certo se são verdadeiras ou falsas, trago-as agarradas ao corpo; fecho os olhos e lembro o meu pai entregando-me uma bíblia pela primeira vez, novo eu, criança, disse, Lê-a toda. Ao fim de uma semana entreguei-a, Já está. Sorriu, mas durou pouco tempo esse sorriso. Assim que a abriu percebeu que eu havia acrescentado pontos de interrogação sobre todos os pontos finais;

 

Se Cristo vos libertar, verdadeiramente sereis livres?

 

Eu sou o bom Pastor, o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas?

 

O amor é tudo?

 

Deu-me um estalo, e julgo que foi a única vez em que me bateu. Será verdade ou mentira? Tiro do bolso o lenço bordado com as minhas iniciais. O lenço é real, as iniciais também; M.L., chamo-me Lourenço, o M já não sei o que significa.

 

Quando acaba isto?

 

(Não Levo Saudades)

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publicado às 22:40

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publicado às 18:52

O meu corpo, a minha cela.

por P. Barbosa, em 06.09.11

 

O universo é uma prisão bela e


espaçosa. O meu corpo, a minha

 

cela.

 

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publicado às 00:33

Quando acaba isto?

por P. Barbosa, em 04.09.11

(...)

 

Catarina França terminou a conversa. Pronunciou a palavra certa e fez um gesto resoluto com as mãos. Colocou um ponto final em tudo, na conversa e na nossa relação.


Fiquei branco, petrificado, perdido, certo de estar em frente a uma parede, inacabado. Fiquei assim um tempo que não soube medir. Depois, deixei-me escorregar para o pequeno banquinho que estava junto a mim, as costas encostadas contra os nervos da cal da parede da cozinha. Do outro lado da cozinha, na minha frente, em cima de um pequeno baú onde Catarina França guardava o pão, uma abóbora.

 

O homem é o verdadeiro deus. Com uma palavra é capaz de dizimar um ou mais seres humanos e todo o universo inteiro em que eles vivem. O mundo pode mesmo acabar de repente, mas não um mundo qualquer; aquele que interessa, que apenas existe na nossa cabeça. O universo das estrelas e das pedras pode mudar de direcção milhares de vezes sem nunca me dar cavaco, como sempre fez, como sempre fará, mas não sabe mais do que isso. Não é bom nem mau, nem hábil nem inábil. É pachorrento. Infindáveis mecanismos e engrenagens terão de alinhar-se para tornar tal coisa possível (acabar), se é que é possível. São biliões de voltas e contravoltas sem direito a aviso nas vidas de inúmeros humanos, vidas inteiras de gerações inteiras, civilizações inteiras, a História inteira.

 

Olhava para a abóbora. Era a única coisa que tinha no meu novo universo; tinha começado agora e ali. O antigo universo tinha sido dizimado por uma palavra que descera dos céus como uma praga. Ao fim de um tempo, olhando fixamente a abóbora (a primeira fotografia captada no meu universo ainda virgem), olhando com atenção pormenorizada os seus veios geométricos, começou a surgir-me a leve impressão de que a abóbora olhava de volta para mim (vi múltiplos sorrisos verticais). E com o tempo a passar, sempre a passar, fiquei na dúvida se aquela abóbora não olharia também para mim como um alimento; foi assim; a princípio olhava eu para a abóbora e pensava que de ali poderia fazer uma bela sopa (uma ideia estúpida que serviu para desviar a atenção); no fim daquele jogo de olhares, tinha a certeza de que eu fora remetido para um vegetal e que a abóbora me dizia, Vou-te comer.


O meu novo universo começou. Tudo o que existia foi trucidado. Não é a primeira nem será a última vez. Tiro do bolso o lenço bordado com as minhas iniciais; M.L., chamo-me Lourenço, o M já não sei o que significa. Quando acaba isto?

 

(Não Levo Saudades)

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publicado às 01:32


Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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