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Devo ir, ou devo ficar?

por P. Barbosa, em 27.07.10

...

 

Olhou para tudo o que tinha sido e perguntou-se se a sua vida tinha valido a pena. Se a medida de tudo o que tinha feito e não tinha feito seria suficiente para lhe pôr um sorriso nos lábios ou angústia na alma. Olhou-se no espelho interior, percorrendo imagens de felicidade e tragédia, como quem vê filmes das férias.

 

Mas a realidade era apenas crua; não tinha ninguém, não tinha amor, era um falhado, sem ainda sequer ter começado.

 

Recordou, momentaneamente, a visita que fez em criança a um museu. Um quadro pendurado na parede branca, feito de cacos de loiça de várias cores. Ao perto era apenas isso, uma colecção sem sentido de lixo colado.

 

O seu pai aproximou-se e disse-lhe «Vai para ali e olha de novo». Afastou-se uns cinco metros e os cacos desapareceram, surgindo do caos a face de uma mulher de linhas suaves e lábios pintados de vermelho.

 

Fez um último esforço e olhou para os cacos que seguravam a sua vida. Olhou-os de vários ângulos e distâncias. Não via nada para além de entulho.

 

O destino estava traçado, mas tinha sido outra coisa a traçá-lo. Ele limitava-se a segui-lo. A tristeza apoderou-se de si, descendo cinicamente até às profundidades da sua alma e do seu corpo, estraçalhando com suprema violência toda e qualquer vontade que por ali restasse. Quando chegou ao fundo, quis morrer.

 

A vontade de viver já não queria mais.

 

Decidiu atirar-se da varanda. Arrastou-se até ao quarto, parou e pergunto se o devia fazer.

 

Amanheceu lá fora. O sol oblíquo entrou devagarinho na sua imponência educada, surgindo detrás de uma nuvem de aguaceiro. Aqueceu-lhe a face, e com o calor surgiu novamente  o cansaço da vida, lembrando-lhe ao que vinha.

 

Um pardal pousou no gradeamento da varanda, chilreando alegremente, contente com a vida que a vida lhe dava. Olhou para ele como quem olha para a felicidade dos outros e fica feliz com isso. Gostou do que sentiu.

 

Foi voar com ele.

 

 

...

 

 

Ainda abriu os braços, esperando ver surgir asas como as que foram entregues a Ícaro. Ainda chorou uma lágrima, que saiu com saudades do que já deixava para trás.

 

Depois chegou o chão. As veias rebentaram e a visão encheu-se de vermelho, antes de mergulhar na escuridão.

 

Ainda pensou que estava apenas a adormecer.

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publicado às 21:50



Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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