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Uma noite, ao adormecer, o medo apoderou-se de mim. Era um medo de desaparecer que não tinha razão de ser. Por aquela altura, vivia entre o desejo de morrer e o conforto do torpor proporcionado pelo viver.

 

Mas naquela noite em particular, quando senti a consciência escorregar para o adormecimento, nasceu uma acelerada palpitação no coração, um estranho instinto do corpo que só podia ser esse tal medo de desaparecer. Não voltei a dormir nessa noite nem na seguinte, e só quando me senti satisfeito com uma explicação é que o sono voltou a vencer.

 

Tenho agora a estranha opinião de que aquilo que comummente se costuma chamar de alma é uma vontade que não quer desaparecer ao adormecer, porque não sabe que outra vai acordar no seu lugar. É apenas mais uma vontade, a juntar à colecção que o homem detém, mas especial e de diferente qualidade.

 

A maior parte das vontades são estrelas cadentes que se consomem numa grande explosão de emoção, e quanto mais cedo melhor. A fome, e a correspondente vontade de comer, não desiste enquanto não leva o burro à palha.

 

E se este se atrasa torce-lhe o estômago e a fome torna-se agonizante, capaz até de o fazer correr a quatro patas. Mas depois de satisfeita a fome, esta desaparece na obscuridade, remetida para uma não existência.

 

Desaparece num acto de suicídio natural, satisfeita consigo própria, tal como o louva-a-deus macho faz quando se coloca à disposição da fêmea, após o acto que o justifica, e é alegremente devorado por esta.

 

Talvez estas vontades saibam que o seu desaparecimento é apenas temporário, como se ficassem subitamente cansadas e precisassem de ir dormir, ou então não dão importância nenhuma à sua morte.

 

Mas o que importa é que o mesmo se passa com quase todas as outras vontades, seja a dor (não o sentimento de dor, mas o sentido de urgência que toma conta do bicho logo de seguida), a vontade de ser feliz (e não digam que há pessoas que são felizes para sempre, até dói de pensar nisso), o amor, a sede e a vontade de beber, e outras que tais.

 

Mas em contraponto a este formato de funcionamento e de ser, está um outro que faz movimentar uma estranha vontade, uma vontade única e especial que não quer ou não deseja um toque, um sabor, um som, uma imagem, ou simplesmente uma emoção. Quer apenas ser perene.

 

Quer apenas nunca ter de ir dormir, de não deixar de existir, com medo de desaparecer, mesmo sabendo que a seguir a dormir pode voltar a acordar.

 

Talvez seja por isso que o homem tem tanta dificuldade em se explicar a si próprio, em classificar e identificar a sua existência, em perceber a noção de que está aqui, que existe, porque essa vontade que o define não tem como missão procurar um sabor, evitar uma dor, ou sentir uma emoção.

 

Quer apenas, numa existência asséptica e inodora, continuar a ser, para sempre.

 

Não sabe a nada.

 

Como pode tal coisa ser percebida, classificada?

 

Acho que o louva-a-deus não deve ter alma.

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publicado às 18:13



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Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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