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O Demónio

por P. Barbosa, em 26.09.10

Quando acordava não abria os olhos enquanto não pusesse a dentadura falsa. Não queria ver-se sem ela. Andava nu pela casa, exibindo bíceps e peitorais salientes. E fazia-o em movimentos lentos, em frente das dezenas de espelhos que tinha nas paredes.

 

Mas não era essa a sua vaidade. Depilava-se meticulosamente; não tinha um único pêlo no corpo, bronzeava a pele apenas um pouco, apenas o suficiente para lavar o branco, apenas o necessário para que as tatuagens listadas que cobriam o seu corpo - as tatuagens que imitavam a pele de um tigre africano - ondulassem nos músculos do corpo enquanto ele se movia em passos de câmara lenta em frente das dezenas de espelhos espalhados pela casa. Ficava horas naquela encenação, durante o dia, fechado em casa e com as persianas entreabertas. Via os raios de sol que entravam e desenhavam riscas nas paredes, que pareciam avançar com o seu próprio avançar, e ficava naquilo o dia todo, abrindo a boca o mais que conseguia exibindo os caninos falsos de tigre africano.
 

Não comia durante o dia, bebia apenas água gelada engarrafada, limpava o suor do corpo que o calor sufocante do quarto fechado lhe fazia crescer nos sovacos depilados, nas virilhas depiladas, na pele lisa que ondulava riscas de tigre africano em movimentos lentos e teatrais; aquilo tudo não era mais do que a preparação de uma caçada, a construção da ideia que o fazia sair à noite para devorar qualquer gazela que se atravessasse em frente dos seus caninos falsos de tigre africano. Tinha sido a última aquisição da colecção de Jaq. Não falava, não pronunciava palavra. Nunca. Respondia abanando a cabeça que sim ou que não, ou usando uma expressão de indiferença ou interrogação, ou exibindo um sorriso cínico e malicioso; não, não era um sorriso; era uma ideia voraz que lhe tomava conta da vontade. Não, não era uma ideia; era uma satisfação retardada que lhe lembrava a última mulher que tinha sido caçada e devorada. E a próxima a morrer não era mais que a preparação do sorriso cínico de satisfação que montava na cara pintada com bigodes tatuados de tigre africano, enquanto Jaq se aproximava dele e lhe dizia «É a tua vez».

 

Saía de casa embrulhado numa gabardine cinzenta que escondia aquele corpo tatuado fingido animal. Fechava-se nesse casulo para não se deixar ver e para se proteger do mundo exterior que o magoava com uma dor lancinante sempre que uma gota de chuva lhe tocava na pele, sempre que o perfume esvoaçante de uma mulher passava por ele, sempre que um sorriso de alguém lhe atravessasse o olhar. Era a dor de um passado esquecido mas sempre relembrado, era a dor que não se quer sentir mas que sempre volta para nos atormentar, e ele, assim, desde que se lembrava de ser assim, embrulhava-se dentro da sua gabardina cinzenta e suja e punha-se a ruminar ideias de vingança e a planear atalhos para saltar para cima das gazelas indefesas que atravessavam a rua.

 

Como estas pessoas vinham parar ao CC não se sabia bem. Talvez o mundo seja regido não apenas por uma única força da gravidade mas por múltiplas leis de gravitação, que atraem para um centro uns e outros que sejam iguais. E o mundo está repleto de gente de diferente qualidade e feitio que não sabe como chegou aqui. Perdidos na dúvida de um passado que não pode ser relembrado, existem como fantasmas futuros habitando o presente. E a sombra que são, daquilo que virão a ser, é o medo que os transporta para dentro de gabardines cinzentas ou para emoções encenadas que escondem o tigre amedrontado que há em nós. E se uns aí ficam quietos, vida fora, outros há que se consomem na comichão interior até não aguentarem mais, e depois de descoberto o seu vil interior, depois de expostas as cicatrizes na pele listada, terá de abrir a boca e mostrar os seus dentes, saltar para cima daquele que mais próximo se encontrar, saciar-se com o sangue alheio que lhe permita continuar, como um vampiro, como um vampiro que também é um fantasma futuro habitando o presente.

 

Aquele homem, que não tinha nome, era um ciclone do tempo futuro estraçalhado no presente, e que desaparecia num passado escuro que deixava de existir agora e somente existia aqui. Olhado de fora, olhado a partir do céu, era Satanás em pessoa, era o vácuo que suga tudo sem escolha ou comiseração.

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publicado às 23:33



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Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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