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Não Levo Saudades

por P. Barbosa, em 15.01.11

Desatei o nó e tirei a primeira carta. Abri-a.

Dizia:

 

4 Dezembro de 1944.


Hoje foi um dia mau. Hoje foi um dia igual aos outros.

 

Perdi a cor. Eu e os meus camaradas confundimo-nos com a lama da trincheira. Não sei se odeio mais a água que me ensopa a roupa ou o gelo que me mata os membros. Erich disse-me que vamos atacar em breve. Atacar o quê? Não temos forças para nos defendermos, quanto mais atacar e derrotar os americanos e ingleses.

 

Arrependo-me da decisão que tomei. Arrependo-me, não por achar que não sairei vivo desta guerra (estou certo disso), mas por ter sido conivente. Devia ter ficado por Idanha-a-Nova. Devia continua a achar-me português em vez de sucumbir aos apelos de um pai distante e achar-me alemão. Não devia ter lido a carta dele. Não devia ter voltado a Berlim.

 

Mal cheguei enfiou-me num comboio para a linha da frente. Para servir a pátria. Mal me cumprimentou. E aqui estou eu, no meio das Ardenas, com a roupa ensopada em lama gelada, no meio do nada, com uma arma na mão pronta a matar quem vier do outro lado. Aqui, defendo a loucura dos homens.

 

Ainda não te tinha dito, mas também eu já sucumbi a essa loucura. Matei um homem na semana passada. Matei um homem e não senti nada. Fizemos uma emboscada aos americanos e matámos quatro com a primeira rajada de disparos. Eles fugiram e nós fomos atrás deles. Vi-lhe claramente as costas, do inimigo, com a espingarda na mão. Vi-lhe claramente o vapor da respiração, enquanto corria na lama. Vi-lhe claramente o medo. Premeditei a matança.

 

Vi claramente isto tudo e depois fiz-lhe pontaria. Dei a ordem de execução ao indicador pendurado no gatilho.

 

No momento certo ele virou-se e olhou para mim. Ele soube o que eu me preparava para fazer. Ele olhou para mim e parou-se na morte instantânea que lhe entreguei. Caiu na lama. Ele transformou-se em lama. Olhei para cima e vi o que ele estava a ver.

 

Não senti nada por o ter morto. Não senti nada mas não durmo desde então.

 

Hoje foi um dia mau. Hoje foi um dia igual aos outros.

 

Virei a carta:

 

Aqui jaz a morte.

A mão invisível que nos estrangula e mata.

Vejo o medo. Quero ir embora.

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publicado às 11:12



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Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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