Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Hoje assisti à morte da sensibilidade

por P. Barbosa, em 18.01.11

(de «Não Levo Saudades»)

 

Abro o meu livrinho e releio as palavras escritas vezes sem conta até ter certeza que as não vou esquecer. Pego no molho de cartas enegrecidas pela guerra do tempo e puxo uma do meio.

 

20 Dezembro de 1944

 

Hoje assisti à morte da sensibilidade. Faltam cinco dias para o Natal mas é como se faltassem cinco séculos. Travámos uma batalha e morremos. Vi Erich desmembrado. Caiu um obus junto a nós e numa fracção de segundo ele ficou sem braços e pernas.

 

Não há nada mais aterrador do que ver um homem caído na lama por lhe terem faltado de repente as pernas, e tentando agarrar-se à vida com braços que se evaporaram no ar. Ficou por ali caído, esventrado e ensanguentado, mas ainda vivo, esperando a morte que chegava devagarinho.

 

Aproximei-me dele e despedimo-nos com o olhar, eu pelo menos despedi-me, ele tremia no corpo que sobrava sem saber o que dizer ou o que pensar. Nada mais havia. Assistia, enquanto as balas e as bombas continuavam a cair sem cessar. Disse-lhe Adeus, mas estou agora certo que essa palavra de despedida não era para Erich, mas para a sensibilidade minha e de toda a gente, que morreu nesse dia e foi para o céu. Já não estou certo se existe um mundo para além das Adernas.

 

Acredito piamente que nasci aqui, no meio da guerra, no meio da lama, que cresci e brinquei no campo de batalha, enquanto os tanques e as metralhadoras enchiam o ar com som ensurdecedor e cheiro a pólvora queimada. Sou uma obra do acaso. Enfio as botas cheias de lama na lama e já não acredito nas imagens idílicas que me vêem à cabeça.

 

Não existe essa Berlim onde penso que nasci, nem tenho um pai Nazi, nem um Portugal onde vivi, nem Lisboa, nem Idanha-a-Nova, nem uma mulher e cinco filhos. Mulher, tu não existes. Estamos todos nas Ardenas. Estamos na guerra, faltam cinco dias para o Natal mas é como se faltassem cinco séculos.

 

O Natal não existe. Hoje assisti à morte e enterro da sensibilidade. Não contem com ela. Persisto na guerra, pois não me lembro de mais nada.

 

A saudade é uma mentira enganosa.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:13



Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

Disponível em
iBooks, Google Play, Kobo, Kindle











Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2012
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2011
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2010
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2009
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2008
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D


Mais sobre mim

foto do autor