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Ninguém merece a alma que tem

por P. Barbosa, em 04.03.11

Preso por um atilho.

Ninguém merece a alma que tem.
Têm-na de oferta, dívida não pronunciada, mas sempre presente. Chama-se medo.

A corrente que prende chama-se medo. A verdade que me prende chama-se mentira.

Hoje vi um mendigo mendigar junto de outro mendigo. Uma realidade impossível que se tornou realidade. O mendigo olhou para aquela verdade, olhou para o outro mendigo que lhe pedia uma moeda, e não teve mais certeza do universo onde havia chegado.

O atilho transformou-se num baraço laço. Que foi apertando sem se notar. Conveniente vontade. Conveniente realidade.

Fechou os olhos, o mendigo, e deixou a verdade passar. Fechei os olhos também, com o sorriso que fiz ao contemplar aquele outro universo longínquo ao qual não pertencia, regido por uma lei da gravidade que não era.

Se naquele momento tivesse surgido um espelho na minha frente, teria deixado de sorrir. Mas estava já de olhos fechados, protegido de qualquer mal que por ali pudesse andar.

É um truque banal. É uma artimanha da humanidade.

Acautelo-me sempre. Chama-se medo.

Abano a cabeça. Abanas a cabeça. O teu universo é previsível como o vento. Humedeço o dedo com a saliva que aponto no ar. Sinto-o, está ali. É uma verdade banal. Chama-se mentira.

O baraço transforma-se num arame farpado que fere a carne que não te pertence. Pára de sentir a dor que não é tua. Culpado és por sofreres na pele e na carne emprestada. Que fizeste, malvado? Devolve-ma.

Chama-se cobardia. Chama-se medo. Tirano encurralado entre quatro paredes. Sentes os pés soterrados na lama. Sentes o céu cair-te em cima numa bátega de água sôfrega que te quer afogar. Que fizeste, malvado, para merecer? Chama-se medo. Inventas a mentira que te há-de salvar. Chama-se verdade. Que fizeste, malvado?

Devolve-me a verdade. Amanha-te com o medo.

Fica preso por um atilho.

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publicado às 01:07



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Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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