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Quero que fique bela, como tu.

por P. Barbosa, em 08.03.11

 

Desde muito pequeno que, ainda imberbe, sofria com a beleza alheia.


Vivia numa casa pequena e pobre. Tinha duas divisões, e em metade delas não havia telhado que merecesse o nome. As paredes seguravam apenas as paredes. Tijolo nu, num dos lados, pedra segura por barro, no lado oposto.


Apesar de já ter idade para ir à escola, não ia. Ficava a guardar as ovelhas e as cabras no monte, enquanto olhava as crianças da sua idade com a mochila às costas na rua que levava à escola. A mãe disse, um dia, ao jantar, à luz da única vela que havia, O miúdo devia ir à escola, para aprender a ler e a escrever...O pai não fez caso enquanto comia a maçã. Comia-a sempre com casca, comia-a sempre em talhadas direitas que cortava com a navalha. Comeu dois pedaços, e nesse silêncio que tremeluzia com a respiração pequena da mulher, disse, tumular, O miúdo dá-me jeito a cuidar dos bichos. Cortou um pedaço mais e comeu-o. Não levantou os olhos da maçã. Disse, tumular, As letras não matam a fome. Bebeu o vinho que restava no copo. Foi-se deitar. Não voltaram a falar.
Já não me lembro do nome dele. Chamemos-lhe António.

 

António levava as cabras e as ovelhas a pastar, mas desde essa noite, em que ficou decidido que ele não haveria de saber ler ou escrever, António fazia sempre um desvio no caminho. Passava pela colina sobranceira ao pátio da escola, e demorava-se a ver os outros miúdos através das janelas, sentados e escrevendo nas ardósias, enquanto a professora, de pé, maestro, falava e caminhava entre as filas de carteiras, fazendo festas nos cabelos dos alunos que lhe respondiam certo. Ela era uma professora diferente, e António sabia disso sem nunca ter ido à escola. Era bela e jovem, doía. A mais jovem que alguma vez havia aparecido naquela terra. Em vez de usar reguadas como remédio para respostas erradas, como era tradição, em vez disso a professora metia os dedos nos cabelos dos miúdos, em gestos lentos, sempre que lhe respondiam certo. António demorava-se ali, junto ao muro da escola, em passos atómicos, enquanto a olhava. Acelerava o passo apenas quando as cabras, já longe, o chamavam.

 

A mãe da professora, professora reformada, abnegava-se em acções de caridade pelas aldeias da redondeza. Ao longo desses anos, aprimorou os métodos e as estratégias de convencimento, quer junto daqueles a quem pedia, quer junto daqueles a quem oferecia. Descobriu, com tristeza solene, que precisava de distribuir igual esforço entre os dois. Usava a influência e o dinheiro do marido falecido. Usava o suborno. Usava o engano. Conseguia o que queria.

 

Meteu na cabeça que havia de ajudar a família de António. Ofereceu-se para fazer arranjos na casa. O pai de António disse-lhe que não. Insistiu uma e outra vez, ofereceu-lhe um copo de vinho. O pai de António cedeu.

 

Um dia, a professora e a mãe da professora apareceram para ver a casa, para decidir que arranjos podiam fazer. Nesse dia, António olhou-a como se não houvesse sol no céu. Ao fim de um tempo que não podia ser ignorado, a professora aproximou-se de António, abaixou-se, e perguntou-lhe, Como queres que fique a tua casa? Sorria, e António sorriu-lhe. Olhou para trás, para as paredes de tijolo cru, para as madeiras podres da janela e da porta, para o chão de terra, olhou aquilo tudo, certo do que estava a ver, voltou a olhar os olhos verdes da professora, e disse-lhe, Quero que fique bela, como tu.

 

A professora alargou o sorriso, acrescentando-lhe outra coisa que não pode ser medida, e passou a mão pelos cabelos encaracolados de António.

 

Chamemos-lhe Felicidade.

 

 

(Não Levo Saudades)

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publicado às 22:36



Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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