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O Estafermo

por P. Barbosa, em 22.04.11

Doía-lhe o rabo em brasa. E a cabeça também. Fervilhava de raiva com a sua impotência para a vingança, que desejava, e que a sua pequenez por agora impedia. Prometeu a ele próprio que um dia haveria de ser ele a vergastar rabo alheio.

 

O nome dele não era em vão. Manel dos Ossos, naquele tempo, aos dezasseis anos, notava-se ao longe. Sofria de uma enfermidade que em Vila do Bispo não era propriamente original; os ossos das suas clavículas eram desproporcionadamente salientes, dando cabo da natural noção de proporção corporal. A magreza do seu corpo prejudicava a equação, e os habitantes de Vila do Bispo evitavam olhá-lo quando por ele passavam, como quem se desvia de uma encenação do Diabo. Para ele, naquela altura, tanto lhe fazia.

 

Mas agora doía-lhe o rabo. Mal podia andar com as dores angulares que lhe fustigavam as nádegas de todos os lados. O seu pai dera-lhe uma dúzia de vergastadas por ter roubado laranjas e maçãs na Terra Pequena de D. Januário. E a força com que as deu foi tal que ficou sem perceber qual a verdadeira razão para tamanha desproporção. O seu pai era um bêbado ausente da vida, da dele e da sua. D. Januário, por razões que só Manel sabia, não o castigou quando o apanhou na Terra Pequena em flagrante delito. «Seu estafermo», foi o que disse, sem convicção, quando o agarrou e o abanou de tal forma que as maçãs e as laranjas que segurava no regaço dos braços caíram ao chão.

 

O seu capataz, Juvenal, que o acompanhava para todo o lado, estranhou tanta leveza na acção. Em tempos não muito distantes, ele próprio teve de sofrer com a ira de D. Januário por muito menos que o roubo de algumas laranjas e maçãs.

 

- Pega nesta besta e leva-o a casa. – Manel sabia a razão de tão anormal comportamento. Olhava D. Januário directamente nos olhos, lembrando-lhe assim o que aconteceria se ele se atrevesse a levantar a mão contra ele.

- E avisa o pai de que se ele não o ensinar a ter respeito pela minha propriedade, então será ele próprio a sofrer o castigo pelo roubo daquilo que é meu. – completou D. Januário, mal disfarçando a frustração que sentia dentro de si.

- Sim, D. Januário. – o capataz apreçou-se a levar Manel pelo braço até à pequena casa construída à saída da Vila do Bispo atrás de um grande carvalho, escondida dos olhos dos transeuntes.

 

A escolha do local não tinha sido inocente. Apesar de serem os mais pobres da vila, apesar do seu pai ser um bêbado sem destino, e da sua mãe ser uma pobre mulher que sofria de verdadeiras enfermidades, que a não deixavam mover, a não ser pela força da sua enorme determinação, tinham um estranho orgulho oculto. A casa, se formos bondosos no adjectivo, era um quadrado com não mais do que o tamanho de dois homens deitados. O telhado estava coberto por palha semi-apodrecida, que já fedia, ou talvez fosse do chão, um lamaçal. Dentro de casa, objectos dignos de nome não havia.

 

Um molhe de pedras elevava um molho de feno, que assim podia passar por cama, e a casa era apenas isso, o sítio onde Manel vinha dormir e fugir das chuvas de inverno, e a espaços saber se havia alguma coisa para comer. O resto do tempo passava-o a deambular pela vila e pelas terras vizinhas, comendo o que ia encontrando ou roubando, de Verão dormindo ao relento e desaparecendo de casa dias e semanas seguidas a fio, como um guerreiro que vai para uma expedição a Jerusalém. Os seus pais pouco se preocupavam, e quando ele voltava dessas suas expedições nunca lhes sentiu qualquer tipo de cuidados com o seu desaparecimento.

 

Ele era um cão vadio. 

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publicado às 00:55


1 comentário

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De Jogos a 22.04.2011 às 15:55

Interessante, obrigado por partilhar, Luisa

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Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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