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O Universo Mudou de Lugar Sem Me Levar

por P. Barbosa, em 22.04.11

...

 

Meto as mãos nos bolsos fundos do meu sobretudo. Toco o molho de cartas seguro por um baraço. Sinto, nos dedos, o papel velho, os altos da lama das Ardenas, e os buracos da guerra. Tiro uma ao calhas, como se estivesse a sortear um prémio. Sentei-me numa paragem de autocarro enquanto a chuva caía. Abri a carta.

Dizia:

 

1 de Outubro de 1949

 

Já não sabemos quem é o inimigo.

Hoje senti a morte pela primeira vez. Senti-a entrar, passar por mim, e depois deixou-me vivo para trás. Sempre achei que a morte fosse o menor dos sofrimentos, pois não há lembrança que resista a esse esquecimento. Mas não;


Está sempre frio. Um gelo que imobiliza. Ao fim de tanto tempo, não estou certo se é a guerra a culpada pelo gelo que sentimos, ou se foi o gelo deste sítio que pôs todos a disparar uns contra os outros. Já não estou certo se queremos matar para nos defendermos ou se para fazer um favor. Ao fim de um tempo desistimos.

 

Ao fim de um tempo desisti. Escondida atrás de uma porta; a casa estava esburacada pelas munições de diferentes calibres, mas a madeira da porta de entrada estava como nova. Distinguia-se claramente na fronte da casa como se tivesse luzes de néon. Era irresistível. Quando o é, irresistível, mesmo que desconfiados ou certos que a morte se esconde por detrás, somos sempre transportados para a sua frente, e depois de lá chegar é impossível desistir.

 

Chorei, em frente daquela porta fechada.

Abri a porta (que mais podia eu fazer?), abri a porta devagarinho, e esse movimento pareceu repetir-se uma e infinitas vezes, como se não se quisesse consumar, como se fosse uma fronteira que depois de atravessada fica fechada para sempre. Abri a porta, e por fim, quando ela acabou de abrir, levei com duas balas de canhão pelo peito adentro. Mal me segurei em pé.

 

Não queria acreditar no que estava a ver. Queria morrer mas as balas de canhão passaram por mim sem me beliscar. Atravessaram-me sem me matar, deixando apenas um dor que (estou certo) nunca irá acabar.

Olhei para o inimigo, no meio, empunhando a arma, ladeado por dois camaradas do meu pelotão. Riam-se, de mim, os três. Camaradas e inimigo confraternizando.

 

Fechei a porta devagarinho, uma e infinitas vezes, num movimento que não parecia terminar. Chorei, em frente daquela porta fechada. Estava no mesmo sítio que momentos antes, mas o universo já tinha mudado de lugar sem me levar.  

 

...

 

(Não Levo Saudades)

 

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publicado às 19:02



Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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