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(...)

 

Catarina França levou-nos para sua casa. Ficava num lugarejo chamado Alfaião, a meia-dúzia de quilómetros de Bragança. Tinha pouco mais de cem vivalmas. Apesar de estar tão perto de Bragança, aquela meia-dúzia de quilómetros pareceu-nos ter transportado para uma época e para um tempo que já passou.

 

A casa de Catarina França acentuava essa ideia de que havíamos sido teletransportados para outro universo. De xisto, de cima a baixo, incluindo o telhado, tinha janelas de madeira velha, pintadas de vermelho já escamado pela idade, e uma porta branca coberta por uma latada que crescia ao lado. Por dentro, a casa era surreal. Nunca esquecerei a sensação penetrante que me ficou daqueles primeiros dias na casa de Catarina França em Alfaião. Não tinha electricidade ou água canalizada, ou qualquer sistema de esgotos. Era uma casa parada no tempo.

 

Quando acordava de manhã cedo, com o sol a espreitar inclinado através das janelas, via-se o pó a flutuar na luz do sol e o brilho baço e lento da cal irregular das paredes. Havia um cheiro único no ar. Havia um silêncio irreal. Agora, no mundo em que as outras pessoas vivem, é impossível assistir a este tipo de solidão. Há sempre um zumbido de um electrodoméstico qualquer, mesmo que pequeno, mesmo que não o notemos de tão habituados que estamos. Há sempre uma luz ligada. Há sempre um objecto qualquer que nos assegura que vivemos neste século e não no século passado.

 

Na casa de Catarina França não havia nada. Apenas paredes caiadas de branco, um chão de pedra tosca, móveis simples e velhos de madeira, a pequena lareira enegrecida pelo fumo, as panelas pretas de ferro fundido encostadas às brasas que crepitavam, o aroma das refeições rudes que Catarina França cozinhava. Havia, acima de tudo, um silêncio imponente, um pó fino e único que flutuava eterno na imobilidade do tempo que decorria naquele lugar.

 

Gostava daquela casa. Gostava de ficar quieto, em pé ou sentado num banquinho de madeira, olhando aquelas coisas todas que me penetravam e que se transformaram numa memória que nunca mais fui capaz de esquecer.

 

António preferia o exterior. Levantava-se cedo e ia calcorrear as colinas redondas e nuas das redondezas. Dizia que eram carapaças pré-históricas de tartarugas gigantes. Frequentemente, chegava a casa com a roupa encharcada dos mergulhos que dava na ribeira que passava rente a Alfaião. Não se dava ao trabalho de tirar a roupa. Entrava na água como tinha chegado, e voltava para casa como havia saído. Sempre com um sorriso nos lábios.

 

Catarina França vivia sozinha com um cão velho que mancava de uma perna e que tinha já perdido metade do pêlo. Mexia-se como um boneco insuflável de plástico. O cão não era propriamente dela, mas de um pastor velho que por ali passava dia sim, dia não, com o seu rebanho de ovelhas. Um dia entrou na casa de Catarina França e decidiu que não queria mais voltar para o pastor. O cão nunca saía de casa, o pastor nunca entrava em casa. Nos dias sim, o pastor passava com o rebanho de manhã para as pastagens a norte de Alfaião, e na direcção oposta ao final da tarde. Nos dias não, aparecia sozinho quando o sol tinha acabado de se deitar e ficava lá fora a fumar até a sua presença ser notada por Catarina França.

 

Ela saía e dirigiam-se sempre para a horta que ficava ao fundo da pequena encosta, nas traseiras da casa. Ao fim de um tempo sempre igual, ouvia-se o gemido compassado do prazer. Ou seria satisfação, ou talvez alívio, pois nunca soube distinguir nas pequenas nuances dessa dor chamada prazer a verdadeira razão para fazer o que ela fazia com o velho pastor. Demoravam sempre o mesmo tempo. No final, o pastor abandonava o local fumando mais um cigarro e Catarina França voltava para dentro de casa. O cão esperava por ela na ombreira da porta. Quando ela entrava o cão cheirava-a e abanava a cauda de satisfação (era o único momento em que notava, no cão, um pingo de emoção).

 

 

(Não Levo Saudades)

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publicado às 20:22



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Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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