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Serviu-nos Butelo com cascas. Disse, enquanto servia o António de prato estendido como se pedisse uma esmola, É Butelo com cascas. António não ficou convencido. A carne tinha bom aspecto, mas o resto parecia minhocas mortas secas ao sol. Engelhou o nariz. Catarina França percebeu e conteve um pequeno sorriso. O Butelo é enchido feito com o bucho do porco. O resto são cascas secas de feijão-verde. É uma especialidade da região.

 

Disse aquilo e fiquei certo de que ela procurava algo julgando que nós o teríamos.

Ela oferecia-nos Botelos com cascas, uma especialidade. Oferecia o melhor que tinha numa casa pobre enfiada no meio de um lugar miserável. Enchido do bom (posso-o dizer agora, enquanto saboreio na boca a carne, o sal e o sabor da defumação). As cascas é que não valem grande coisa, mas em compensação enchi-me de broa de milho, da boa.

 

Já tinham passado mais de doze horas desde a altura em que Catarina França apareceu de rompante e de rompante nos levou para casa dela. Já tinham passado doze horas e ainda não havíamos trocado uma palavra que fosse sobre as circunstâncias que nos reuniram, estranhos uns dos outros doze horas atrás e estranhos agora. Comíamos, com os pratos na mão, sentados junto à pequena lareira em banquinhos de madeira feitos para duendes minúsculos. Prometo que daqui a duas garfadas, depois de já ter despachado mais de metade do Botelo, meto a conversa que interessa, que isto de ficar atascado calado não serve ao fim de tão grande viagem, que me trouxe a mim e ao António.

 

Mastigo, devagar, a primeira garfada. Vim para quê? Disse aquilo baixinho sem pensar e Catarina França fixou o olhar na minha direcção. Sacudi a cabeça assinalando-lhe que não me fizesse caso, que me tomasse por parvo. Apontei os olhos para o chão. Tenho a certeza que me achou parvo. Respondo-me (falo apenas na minha cabeça, vocês não têm nada com isso). Elaboro uma expressão de surpresa pequena. Catarina observa-me e acha-me parvo. António devora o segundo prato de Botelos, cascas, broa e azeitonas. Foi tudo. Engulo. Meto a segunda garfada na boca. O cão aparece do nada, silencioso, como se fosse feito de plástico e mexendo-se como um boneco de plástico. Olha indiferente para o Botelo. Não saliva com a gula nem abana a cauda com a satisfação antecipada de uma bondade humana. Olha-nos com olhos mortos e fica imóvel na entrada da cozinha. Talvez sofra do mesmo mal que eu. Talvez também sofra de esquecimento perpétuo. Talvez se esqueça que tem gula. Talvez se esqueça que está vivo.

 

Olho para o cão morto e lembro-me do que sou. A lembrança pequena afoga-me diariamente no mar da indiferença. Valho pouco, e o pouco que valho não lhe dou valor algum. Quase que me esqueço da promessa que fiz. Foi por uma unha negra. Engulo a segunda garfada e meto a conversa que interessa.

 

(Não Levo Saudades)

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publicado às 20:00



Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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