Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Foi uma grande viagem a que fizeram!

 

Como disse antes, preparava-me para quebrar o silêncio, mas quando a segunda garfada ainda só ia no início da sua descida ao inferno, Catarina França adiantou-se e meteu ela a conversa que lhe interessava. Melhor assim. Não é que me faltasse coragem, mas faltava-me saber suficiente para escolher a ponta por onde se deve começar. Só faço aquilo que antes sonhei fazer. Só digo aquilo que já imaginei em sonho, deitado ou acordado. Mas como me aflige a doença que já todos conhecem, sobra-me pouco saber para saber por qual ponta devo pegar. É por isso que passo pela vida calado. É por causa disso que vivo uma existência inútil. Esqueço-me sempre daquilo que antes sonhei fazer ou dizer. Equilibro-me na ponta da agulha (dói), roubo moedas da carteira do meu pai, vou até ao jardim esperar pela rapariga do vestido azul, visito o morto no Cemitério dos Prazeres, escrevo no meu caderninho preto que já é negro.

 

Sim, tem sido uma grande viagem, tão grande que já lhe perdi o início, respondi-lhe. Sorrio no meu sorriso estúpido enquanto Catarina França fita-me na sua ansiedade controlada. Ela acha que nós temos aquilo que ela procura. Desmonto o sorriso e pergunto-lhe, curioso, Como foi que nos encontrou? Ela engole um copo de vinho, Vi o anúncio que vocês deixaram, e uma senhora, que me viu ali especada, disse-me que os dois mendigos que afixaram aquele anúncio costumavam dormir debaixo das arcadas do centro-comercial. Ela pousou o prato e o copo no chão, ajeitou as brasas disfarçando a ansiedade, e depois, olhando-me fundo nos olhos (desvio-os), pede-me (talvez suplicasse), Fala-me do meu pai. Atrevo-me a olhá-la de volta. É bela (dói). Do teu padrasto? Com um sinal contido reprime-me a precisão inútil, Era como se fosse meu pai, responde-me. Enfia as mãos entre as pernas e aperta-as.

 

Não sei o que fazer. Não sei o que lhe responder. Não imaginei nada disto, estou perdido no meio do deserto sem horizonte. Não sei nada de jeito sobre Gervásio. Fizemos tamanha viagem, eu e tu meu irmão, para descobrir mais sobre o homem que dorme no Cemitério dos Prazeres, e agora tenho de arranjar notícias para a mentira que afixámos no hipermercado. António não liga aos meus pensamentos e à minha preocupação. Continua a comer. Meto a mão ao bolso e sinto o baraço velho que segura as cartas da guerra. Puxo-as para fora e ofereço-as a Catarina França. Digo-lhe, São da guerra (tremem-me as mãos). Ela pega nas cartas, mas enquanto aproximava as mãos senti-lhe o calor crescente, como uma chama que crescia em direcção a mim, e a dor que queima quando os dedos dela tocam ao de leve nos meus (transpiro). Desculpo-me, A lareira aquece bem a casa (a voz treme-me, as mãos tremem-me, ela sabe).

 

(Não Levo Saudades)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 00:59



Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

Disponível em
iBooks, Google Play, Kobo, Kindle











Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2012
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2011
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2010
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2009
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2008
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D


Mais sobre mim

foto do autor