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Assim que chegou e acendeu o cigarro antecipei-me a Catarina França e fui falar com ele. 'Falar', é uma forma de expressão. Estava determinado a enxotá-lo para fora da vida de Catarina França, dizer-lhe na cara, Ela agora é minha!

 

Aproximei-me. Ele notou que alguém chegava e que esse alguém não era a do costume. Continuou a fumar como se não fosse nada com ele.

Parei quando fiquei a seu lado. Queria dizer-lhe, mas tudo aquilo que tinha ensaiado parecia ter desaparecido na penumbra do esquecimento. Enervei-me comigo mesmo. O pastor continuou imóvel. Depois escarrou para o chão. Olhei. Restos de sangue e tabaco. Fiquei mais nervoso ainda. Tinha elaborado um elegante teorema, um raciocínio perfeito, uma tenaz da razão que (tinha a certeza) iria enxotar o pastor para longe dali, como se faz a um pombo doente que procura um buraco para ser enterrado, e agora não tinha nada nas mãos, um monte de cinza, um monte cheio de nada e uma pequena pedra de mármore a encimar a minha indignação, com os dizeres, Ela Agora É Minha!

 

Disse-lhe, baixinho, lento, cobarde, Pastor, ela agora é minha. Fiquei à espera de uma reacção, de uma palavra, de um grito, de um pontapé ou de um estalo, mas o pastor nem se moveu, e assim ficou duas baforadas mais até o cigarro morrer-lhe nas mãos. Atirou-o para bem longe. Não me olhou, disse-me, Entendo a tua urgência. Escarrou novamente para o chão. Entende-me?, disse-lhe de volta, e depois, só cá dentro da minha cabeça, Entende-me? Continuou a olhar em frente. Tirou outro cigarro e começou a fumá-lo, disse-me, Sei o que procuras...mas o que escolheste vai-te levar a lado nenhum.

 

Olhei para trás, Catarina França estava na ombreira da porta olhando-nos. O cão, a seu lado. Olhei o pastor, E que procuro eu?, perguntei-lhe, desafiador, e depois, só cá dentro da minha cabeça, E que procuro eu? O pastor atirou o cigarro meio fumado para o chão, e a seguir olhou-me nos olhos. Vi-lhe a cara pela primeira vez, embora preferisse não a ter visto. Parecia uma caveira coberta por uma fina camada de pele. Os olhos eram negros, negros, e os dentes amarelos, sangue e nicotina. Exibia uma tristeza profunda. Disse-me (nunca esquecerei o que ele me disse), O homem é a luta com ele próprio. Compreendo-te.

 

Afastou-se, e nessa noite não houve gemidos compassados nas traseiras da casa de Catarina França.

 

(Não Levo Saudades)

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publicado às 10:21



Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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