Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Faz-te à vida ou a vida faz-te a ti

por P. Barbosa, em 27.06.11

Catarina França elabora um sorriso falso enquanto segura nas cartas. As mãos não sabem o que fazer a seguir. São da guerra?, diz, pedindo nova confirmação. Abano a cabeça que sim. Poiso o prato limpo a pedaços de pão (nem precisa de ser lavado). Sabias que ele combateu nas Ardenas durante a segunda guerra...? Catarina França abana a cabeça que sim, diz, Sim...mas não sabia que ele tinha escrito estas cartas...o que dizem? Observo as suas pernas até aos joelhos, onde começa a saia. Não estão depiladas como as pernas das mulheres modernas, mas eu não sou de modas. A resposta de Catarina França tranquiliza-me (não sei porquê). As dúvidas que ainda tinha, de que aquelas cartas tivessem sido forjadas, e de que Gervásio nunca estivera na guerra, terminaram. Levantei os olhos para ela, Ainda não as li todas, e todas as que li falam do sofrimento na guerra (minto descaradamente, omito que algumas cartas não dizem respeito à guerra, pelo menos à guerra das Ardenas). Catarina acena com a cabeça, diz que compreende, toca nas cartas com carinho e receio.

 

Desatou o nó e as cartas ameaçaram desfazer a cronologia segura pelo baraço. Vi-lhe claramente a indecisão, vi-lhe claramente a dúvida. Não sabia por qual carta começar, se como num romance mau em que queremos ler logo o fim para saber se vale a pena ler o início, se como num romance bom em que queremos sorver toda a história desde o princípio e descobrir o fim apenas no fim. Puxou uma carta do fundo do molho (penso, Ela receia o que procura). Pega na carta e desembrulha-a como se estivesse armadilhada. Suspirou. Suspirou uma segunda vez, um suspiro mais profundo, ganhando coragem. Nunca entendi como se extrai a coragem do ar. Limpo com a língua os restos de comida entre os dentes e aguardo. Olho à volta (Onde se meteu António? Onde se meteu o cão?).

 

Fiquei a observá-la enquanto os olhos dela percorriam a carta, linha após linha, como numa máquina de escrever das antigas. Depois, num rompante, como se de repente tivesse-se feito luz dentro de si, desatou a chorar e saiu da cozinha para a rua. Vi a carta cair em câmara lenta, como uma folha morta que se desprega da árvore mãe após a chegada do outono. Servida a sua função, cai ao chão e apodrece, alimento do alimento da próxima geração. Desejou ser cinza. Vi a carta cair em direcção ao fogo da lareira. Tocou ao de leve numa brasa minúscula e logo começou a deitar fumo e a ameaçar fogo. Levantei-me do meu banquinho como se tivesse recebido um choque eléctrico pelas costas acima e lancei-me para salvar a carta. Com as mãos apaguei o pequeno fogo e depois retirei-lhe os cantos negros queimados. Basta tocar neles ao de leve para se desfazerem no pó final. Ainda antes de tocarem o chão, mudam de cor. Cinza, cinza serás.

Peguei nela como se fosse de ouro.

 

Dizia:

 

10 de Maio de 1947

 

Pensava que sentir a guerra era o maior dos sofrimentos: matar porque outros nos mandam matar. A guerra é uma arena com o tamanho do mundo. Sem espectadores, só vítimas. Sem bancadas, só lama. Comprovo aquilo de que o homem é feito. Basta olhar.

Basta de olhar.

Tento imaginar o que possa ser pior que o sítio onde me encontro. Ter uma família que não se vê há muito tempo, de que se tem saudade, de que se tem amor. Ter um sítio quente e limpo onde possa repousar, olhar sem receio o céu, olhar as nuvens brancas na sua viagem pachorrenta, sentir as lufadas de ar fresco pelo meio do ar morno que nos acaricia a pele.

Sentir, sem receio de levar com uma bala cabeça adentro. Sentir, sem ser nítido a partir da orla da floresta.

Imagino isto tudo que me espera e não consigo entender como pode haver maior sofrimento do que a guerra em que me encontro. Esforço-me por imaginar, mas a verdade (que não consigo carregar) é que a vida não precisa do meu esforço para nada. Ela própria se encarregará de encontrar os cenários que agora, por incapacidade ou cobardia, não sou capaz de contemplar. Ou então já os vi; já os vi e esqueci-me deles logo a seguir.

 

Faço um esforço, e logo sofro. Imagino, ou recordo? Estou confuso. Será da lama? Vejo, a minha mulher, mãe, as minhas filhas, em cenários ignóbeis capazes de me fazer vomitar. Chove, e poças castanhas fazem flutuar as fezes que se acumulam na minha trincheira. Volúpias secretas, desejos torpes, êxtases que se querem perpetuar, repetir e repetir, vontades alheias que governam os que se querem satisfazer. E eu, onde fico no meio disto tudo? Venho de um guerra e parto para outra? Olho para fora da trincheira e rogo a Deus que lá esteja alguém a quem possa atirar. A matar.

É mentira, é mentira.

Imagina.

Eu não preciso de imaginar.

 

Já não quero sair daqui.

Matem-me.

 

Saí atrás dela.

Estava na altura de meter a conversa que me interessava, que diabo. Ela deu-nos Botelo, deu-nos um quarto para dormir, mas eu e o meu irmão (onde se enfiou ele?) não fizemos tão grande viagem, tão grande sacrifício, para continuar sem saber quem verdadeiramente era Gervásio, e por que razão escreveu ele aquelas palavras tumulares no mármore que lhe enfeita a morte. Virei-me para ela, decidido, como se soubesse o que queria, perguntei-lhe, O que aconteceu em 1944?

Mas é mentira, tudo isto é mentira e aconteceu apenas na minha cabeça. Só faço aquilo que antes sonhei fazer, mas bastas vezes não faço aquilo que sonho fazer, dormindo ou acordado. Não me virei para ela e não lhe fiz a pergunta que devia. Estou a seu lado, na berma do muro de pedra, ela chora baixinho, já estou com as pontas dos sapatos no abismo (e ela também), e permaneço calado.

 

Sempre me regi por uma imobilidade que vagarosamente vai progredindo no tempo.

Lembro-me do meu pai me dizer (e já não me lembro de mais nada dele), Faz-te à vida ou a vida faz-te a ti. Dizia aquilo com o indicador no ar, não apontado a mim, mas para cima, para o céu. Nesses momentos, sentia um impulso de urgência que durava não mais do que um minuto, uma força interior logo atordoada pelo punho fechado que segura o meu coração. Depois, ainda o minuto não tinha acabado, sentia esse fechar do punho, o poder da sua força imobilizadora, cá dentro, e faltava-me o ar e a vontade.

Delego no tempo o favor de me fazer aquilo que eu devia ter feito em devido tempo. Hei-de fazer a pergunta que interessa a Catarina França, tarde de mais.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:43



Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

Disponível em
iBooks, Google Play, Kobo, Kindle











Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2012
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2011
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2010
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2009
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2008
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D


Mais sobre mim

foto do autor