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Sou magnânimo com o sofrimento dos outros, ou pelo menos assim gosto de me ver. Pousei a mão esquerda sobre o ombro de Catarina França e ela reprimiu-me o atrevimento, enquanto chorava as últimas gotas desse estranho suor capaz de expurgar o sofrimento do corpo. Contorcemo-nos por dentro e transpiramos pelos olhos.

 

Sou magnânimo, e por isso nada fiz nessa semana nem na seguinte, nem na outra que se seguiu a essa. Andei por ali, de roda de Catarina França, como um cão, igual ao cão. Ela fazia a comida e nós comíamos.

 

Mesmo com o frio de outubro, António atrevia-se com mergulhos fundos no ribeiro que passa rente a Alfaião, nunca tirando a roupa, sempre voltando encharcado para casa. No final da primeira semana adoeceu, gripe, febre, e teve de resignar-se a um regime de canja de galinha, enfiado entre duas mantas no nosso quarto anacrónico.

 

Catarina França tomou posse do molho de cartas e foi lendo-as, uma a cada dois dias. Chorava frequentemente. Nos dias em que não calhava ler, o pastor aparecia com o pôr-do-sol e era uma questão de minutos até se ouvir os gemidos nas traseiras da casa de Catarina França. Corria até à casa de banho, que dava para as traseiras da casa, para os ouvir com maior fulgor, e por mais de uma vez subi a um banquinho para espreitar pela janelinha minúscula que lá existia. Mas a janelinha não fora mandada fazer para apreciação de paisagens, apenas como escoadouro de vapores humanos. Colocada no topo da parede, julgava o arquitecto artista que assim impedia os olhares indiscretos vindos do exterior e, ao mesmo tempo,
assegurava o bom escoamento dos resíduos mais leves que o ar. Informo esse personagem, provavelmente amador, provavelmente a casa nem passou por qualquer tipo de projecto ou ideia, e nesse caso dirijo-me apenas àquele que recortou a janela na parede, que a intenção, sendo boa de coração, não funciona.

 

Não sei se era da alimentação, da altitude a que a casa fora construída, do microclima da região ou de uma qualquer anomalia na pressão atmosférica, mas naquela casa de banho todos os vapores humanos que saiam de mim, de António, de Catarina França, e incluindo o cão, não sabiam voar, ficavam por ali num nevoeiro invisível e rente ao chão, horas e horas seguidas, repugnando o nariz de quem lá entrasse, e qualquer ar fresco que chegava pela janela aberta não arranjava maneira de furar caminho e varrer com aquela porcaria dali. Felizmente, por novo e estranho fenómeno, aquele pequeno compartimento parecia ser perfeitamente hermético e estanque, como um cofre, pois estando o nosso quarto mesmo ali ao lado, nunca nos chegou o mais pequeno fedor.

 

(Não Levo Saudades)

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publicado às 14:02



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Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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