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Este homem nunca existiu (Não Levo Saudades)

por P. Barbosa, em 05.07.11

(...)

 

Vejo um esqueleto, ou um homem (não estou certo de quem faz quem), porque é só ossos, mas também porque se mexem sozinhos como se estivesse vivo.

 

Está sentado, escreve. Um cadeeiro a azeite alumia a mesa tosca de madeira. Coloca a mão no osso da testa. Osso contra osso, ouve-se um som oco. Está indeciso. Depois, após essa breve pausa que é o pensamento, escreve furiosamente até deter-se novamente. Repete e repete. Ao fim de cinco minutos daquilo noto (nota) que se acabou a folha branca. Abana a cabeça, desapontado. Amarrota a carta (pelo menos penso que é uma carta, de despedida) e recomeça numa folha nova.

 

Infinito é o pensamento, que nunca se acaba, pois não pode pensar que já não o é mais. Foi assim que ele fechou a sua carta de despedida. Agora só falta decidir-se quanto ao início. Sentado, tudo à volta é negro. Apenas a luz do candeeiro a azeite o sustenta. O esqueleto (ou o homem) não está certo do que acontecerá após terminar a sua carta de despedida. 

 

É um monte de ossos. É um homem inteiro. A despedida acontece quando nos esquecemos de nós próprios, quando olhamos para dentro e já não somos capazes de ver coisa alguma, não porque descobrimos que o conteúdo está vazio, mas porque perdemos o dom da visão. Foi assim que ele decidiu abrir a carta de despedida. Agora só faltavam as palavras que vão preencher a carta entre o princípio e o fim.

 

Não, ainda não. Amarrota a folha e atira-a para o negro que se encontra à sua direita. Não se ouve barulho algum. A carta foi engolida e desapareceu, para sempre. Foi como se nunca tivesse existido. Depois dele, depois de todos aqueles que isto leram, depois de todos aqueles a quem foi contada esta história que outros leram, depois. Esta carta de despedida não existiu. 

Decide recomeçar.

 

O azeite está já no mínimo. A luz diminui de intensidade. Ou acabas tu ou acabo eu. O monte de ossos move-se por uma vontade. Sente-se a ansiedade na impaciência de um esqueleto que não pára quieto. Desconforta-se na cadeira. Ameaça levantar-se, mas depois lembra-se que tem medo de se afastar da luz pequena e mergulhar na escuridão que o envolve já. Tem de escrever as letras que enchem a folha entre o início e o fim. Ou escreves tu ou escrevo eu. 

 

Ou escreves tu ou escrevo eu, não torno a avisar. Pega numa folha nova e repete o início e o fim que já conhece. O meio é um buraco branco para o qual perdeu o dom da visão. Esforça-se, sem saber se deve escrever a mentira ou a verdade. Falta-lhe a vontade, e as forças últimas perseguem-no já. Apressa-te. Colocou o lápis na folha branca e depois aguardou que este se mexesse sozinho. Escolheu a mentira. Escolheu a mentira, o cobarde. Apresso-me, não merece mais o meu tempo. Aproximo-me, escondido pela escuridão. Seguro na mão a última carta amarrotada. Apresso-me sobre ele e estendo o sopro que extingue o candeeiro a azeite. 

 

Deixamos de ver. Aguardo que o monte de ossos se desfaça em sons ocos enquanto tomba no chão. Mas não, nada se ouve.

Estou agora certo. Este homem nunca existiu.

 

(...)

 

(Não Levo Saudades)

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publicado às 19:23



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Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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