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(...)

 

Separámo-nos no que restou desse dia. Ela saiu de casa no fim do silêncio que se instalou após termo-nos separado um do outro. O silêncio tem espessura e está vivo. É um muro que engorda a cada segundo que passa até nos empurrar para fora. Continuei encostado à parede, faltava-me o ar. Depois de ela ter saído tudo voltou ao normal, comigo dentro.

 

Catarina França voltou já era noite, depois de a Terra ter mudado de lugar e o dia ainda noite já ser outro, novo.

 

Tive de desenrascar um jantar para mim e para António, com os restos que amanhei na cozinha e com os dotes culinários que herdei de meu pai. O meu pai só começou a cozinhar depois da morte da minha mãe. Na verdade, ele não cozinhava, produzia alimentos apenas levemente comestíveis. Safei-me da fome porque sempre fui bom de boca. Atesta esse facto a minha barriga proeminente, redonda, um quarto crescente, inchada como uma lua estéril. António estranhou a falta de mimo e primor na comida. Apesar de rude, a comida de Catarina França não era descuidada.

 

Perguntou-me, largando o prato no meio do ar, como se esperasse que este flutuasse (o que não aconteceu), Que porcaria é esta? Está fria e sabe a nada…O prato de ferro esmaltado caiu com estrondo no chão, virou-se e espalhou a comida que veio a rebolar até junto dos meus pés, humilde. Disse-lhe primeiro que Catarina França não havia feito o jantar, como era costume, E por que é que Catarina França não fez o jantar hoje?, perguntou-me ele, intrigado. António tinha um instinto arguto e perigoso. A mais leve desordenação no mundo era suficiente para lhe despertar uma curiosidade doentia que não desistia até descobrir toda a verdade. Tudo o resto era-lhe indiferente.

 

Disse-lhe que Catarina França se sentira indisposta e que havia sido eu a preparar a comida, disse-lhe apenas uma meia mentira portanto, e as meias mentiras em mim sempre se pareceram com a verdade. Não gaguejei, não transpirei de vergonha, não virei a cara para o lado, olhei-o nos olhos como sempre faço. Ele ainda parou por um leve momento para avaliar o ordenamento do mundo e decidir se havia ali mentira, suspeita, mas desta vez ganhei eu.

 

 

(Não Levo Saudades)

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publicado às 00:13



Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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