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(...)

 

Não sei por que o fiz, mas tirei o meu caderninho preto e abri-o sem medo frente a António. Folhei-o até chegar à carta escrita por não sei quem, passei indiferente por essas palavras, continuei sem medo de descobrir o que estava adiante. Apenas uma folha branca.

Escrevo:

 

Fui condenado à vida com sentença perpétua. Um dia, dar-me-ão saída precária.

 

António esticava o pescoço como se quisesse ser girafa, tentando ler o que estava eu a rabiscar, Que fazes, que raio tanto escreves aí? Olhei-o por um canto do olho, Para que tentas tu ler, se mal sabes e pior entendes o que estou a escrever? Fez-me cara de quem não gostou da comida que lhe pus à frente, Posso não saber ler mas sou curioso… E apenas isso interessa, completei eu entre os dentes, Estou é com uma fome dos raios…disse, brandindo os braços, O que havia de dar à velha agora…há uma semana que ando a comer canja, que raios, um homem precisa de substância…

 

Continuava debruçado sobre o meu caderninho preto como se estivesse a escrever um romance de mil páginas de tamanho, mas, tragicamente, havia conseguido enfiar tudo, desde o princípio até ao fim da vida, num único e exclusivo parágrafo, por isso continuei a escrever as mesmas letras, umas por cima das outras, as mesmas palavras, umas por cima das outras, no fim do parágrafo, o mesmo destino, a mesma conclusão, o mesmo ponto final, o mesmo fim repetido, por desejo ou resignação não sei, é apenas destino, basta.

Não sei porquê, mas achei que ali estava o princípio.

 

Disse-lhe, indiferente, sem medo, sem tirar os olhos da folha de papel, Catarina França não fez o jantar porque a fodi há umas horas atrás (disse-lhe assim mesmo, fodi), e saiu para pensar na vida, no que fez, sei lá…

 

António ficou momentaneamente chocado, surpreendido e chocado, e depois só surpreendido. É assim que funciona o tempo e o modo dos verbos que nos controlam. O modo que regula o tempo que puxa o próximo verbo, que depois regula o modo seguinte e por aí adiante, um rebolar infinito do nosso rolo compressor. O mecanismo, para sua própria protecção e do ocupante, apenas tem de garantir que a sequência nunca ficará vazia, sem qualquer buraco pelo meio, nem que seja por um milésimo de segundo apenas. Todos nós sabemos o que acontece quando esse vazio chega pela primeira e última vez.

 

Posso não ser letrado mas penso. Posso ter aprendido a escrever sozinho, mas não me acanho. Não sou inteligente mas também não sou estúpido. Aliás, não acredito que a inteligência exista, apenas a estupidez tem uma oportunidade na vida. A «inteligência» é apenas perseverança nos obstinados. Certos asnos sempre vão dar com o feno que procuram, por mais escondido e distante que este esteja. É apenas uma questão de tempo. É apenas uma questão de modo. Nada mais há. 

 

 

(Não Levo Saudades)

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publicado às 23:36



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Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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