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(...)

 

Sei bem o que António quis dizer. Sou velho e ela mais velha ainda. Talvez pudesse ser minha mãe. Mas isso importa nada. Esqueço-me das coisas que os outros julgam importantes, pior para eles.

 

Na mulher (e no homem) é sempre grande a tragédia, ao não aceitar que a beleza pode chegar na altura menos conveniente. Pode não ser aos dezoito ou aos vinte anos, ou aos vinte e cinco, ou o que for conforme o uso e presunção de cada época. Confunde-se juventude com beleza. Perdemos todos. O dia de ontem foi dia não. Hoje é dia sim. Logo no final do sol se pôr aparecerá o pastor, esperando por Catarina França lá fora, faça chuva ou faça frio. Levantei-me cedo, procurei-a.

 

A casa estava vazia, chovia. Um estranho silêncio inundava os meus sentidos. Ouvia o gotejar da chuva fraca contra as telhas e os vidros, sentia o calor e os estalidos do fogo da lareira, via o pó frio flutuando vagarosamente no ar; só as coisas mortas davam sinal de vida. É um silêncio sepulcral, nuclear, como se todos os seres vivos tivessem morrido de repente e apenas eu tivesse ficado para contar. Contar o quê e a quem? Bocejei (sempre resolvi os problemas mais bicudos com um bocejo), e fingi que os outros ainda não tinham morrido; levantei-me e cortei duas fatias no pão duro, espetei-as em dois garfos e coloquei-as junto às brasas para fazer torradas. Barrei-lhes manteiga bruta dos dois lados, em grandes nacos que cortei do bloco duro do frio, e depois deixei-a ganhar vida, e enquanto aquecia e derretia e escorregava para os meus dedos saboreei-a como se estivesse vivo.

 

Catarina França entrou de rompante. Olhou-me parada à porta da cozinha, por um momento apenas, depois continuou apressada pelo corredor no seu passo acelerado. Escutei-a muito atento como se de repente a chuva tivesse sessado e o lume tivesse-se extinguido. Contei-lhe os passos. Abriu a porta do seu quarto (já tinha memorizado o chiar que a porta fazia), e depois voltou o silêncio sepulcral. Doze passos, disse em voz baixa para mim mesmo. Aguardei um minuto ou dois, depois mais cinco, depois outros cinco mais, e o último pedaço de torrada já estava congelado na minha mão. Não fiz um único ruído e aguardava o mínimo ruído. A porta ficou aberta, disse em voz baixa para mim mesmo. Doze passos, repeti. Levantei-me. Para mim seriam sempre doze mil passos.

 

Não sei como aqui cheguei, mas estou a um braço de distância da porta do quarto de Catarina França. A casa é simples; a porta de entrada que dá para uma pequena divisão onde se acumulam cestos, armários e baús. À direita a porta que dá para a cozinha. À frente o corredor. A meio do corredor uma porta para cada lado. Não sei para que servem aquelas divisões. Soltam um cheiro a mofo e é tudo. Ao fundo do corredor, à direita, o quarto de Catarina França. Estou encostado à parede e apenas consigo perceber que o quarto está na penumbra. Ouço um ligeiro arfar que vem lá de dentro. Em frente a esta porta está o quarto onde eu e António dormimos. Vejo António a dormir inquieto. Vejo-lhe o brilho da transpiração na cara. A febre voltou. Ao fundo do corredor fica a porta para a famosa casa de banho.

 

Não sei como entrei, mas estou no quarto de Catarina França, na penumbra. Vejo apenas uma sombra vaga enquanto os meus olhos se habituam à luz fraca. Catarina França esta sentada na beira da cama, de costas para mim. Avanço. Não fiz um único ruído e aguardo o mínimo ruído. Pouso os joelhos na beira da cama e aproximo-me dela. Ela apercebe-se de que chega alguém e que esse alguém é o do costume. O calor que me anuncia já chegou junto dela. É assim que os corpos se unem ou se repelem. O calor mútuo é a força magnética do mundo biológico. Ainda não lhe toquei mas os corações já aceleraram. Pouso-lhe suavemente as mãos nos ombros e deixo-as escorregar até aos peitos. Sinto-os. Encosto-me a ela. Sinto-lhe o calor que sobe, mais leve que o frio do ar. Estou de joelhos sobre o colchão, encostado às costas dela. Sinto-lhe o arfar inquieto através da lã grossa da camisola, a força desse vai-e-vem contra as minhas calças. Excito-me para além da dor. Toco-lhe nos seios. Toco-lhe o pescoço. Pego-lhe sofregamente na face e viro-a para cima, lanço-lhe um beijo vindo do céu.

 

O Mundo começou.

 

(Não Levo Saudades)

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publicado às 23:42



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Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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