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(...)

 

António lançou-me um último olhar. Escolhemos sempre bem o sítio para onde lançamos os últimos fôlegos de uma vida. António olhou-me e desperdiçou metade do que lhe sobrava agarrando-me a mão com firmeza. Disse-me, fraco, Na história que é a tua vida só não entendi ainda uma coisa… (tossiu, débil) como foste dar com o túmulo de Gervásio… percebes? António cerrou os olhos e parou durante três segundos para ganhar mais algum fôlego, depois completou, O que te levou até ao Cemitério dos Prazeres… percebes? (tossiu, mais débil ainda) ...percebes?, foi dizendo aquilo enquanto se desvanecia António do mundo dos vivos. Chorava miudinho e tentava controlar o choro enquanto desabava para o outro mundo. Vi-lhe claramente a firmeza com que me agarrava a mão desaparecer, vi-a claramente tombar de encontro ao chão, e por arrasto todo o resto do seu corpo. Fiquei a olhá-lo um tempo. Não chorei por ele, limpei sim as minhas lágrimas dos olhos de António, meu irmão. No deve e haver da sua vida decidiu partir com tristeza. Eu não. Limpei as minhas lágrimas dos seus olhos e logo depois fui ter com Catarina França. Disse, baixinho para mim mesmo para não me esquecer, Onde está a pá que vi no outro dia? Precisamos de enterrar António já.

 

Cavar um buraco geométrico com uma medida certa de profundidade é um anacronismo na vida de um homem. Talvez, por já estar morto, não faça tanta diferença, mas a mim fazia-me espécie a preocupação com a perfeição dos ângulos dos quatro cantos da cova. Afinal de contas a morte também faz parte da história de um homem. Para bater certo com a vida, os buracos que nos enterram deviam ser feitos por coveiros cegos e desorientados por três voltas de cabra cega. Cavei a sepultura durante mais de duas horas, pazadas de terra suficientes para cobrir, cada uma delas, cada um dos dias da vida de António. Cavar a sepultura de um irmão é muito mais que uma actividade física. É um acto filosófico, uma purga de sentimentos, um confronto com a verdade, um tempo para pensar naquilo em que não se tem coragem para pensar no resto do tempo que sobra. Duas horas certas podem valer mais que duas vidas inteiras. Pensei no que não devia. Se pudéssemo-nos arrepender do que pensamos arrepender-me-ia, mas tal coisa é impossível e desprovida de sentido. Assaltava-me a última pergunta de António. Assaltava-me (como num ladrão que entra de rompante de arma em punho e depois fica calado sem saber o que quer roubar), a escolha que António havia feito. Que homem reserva para últimas palavras uma pergunta que não tem tempo de ver respondida? Assaltava-me a ideia de que a pergunta não era uma pergunta e de que a ele não lhe interessava a resposta; o último fôlego de António preocupado comigo, comigo, alguém que não leva saudades, meu irmão. Chorei nas mãos sujas de terra. Chorei.

 

(Não Levo Saudades)

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publicado às 11:36



Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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