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Quando acaba isto?

por P. Barbosa, em 04.09.11

(...)

 

Catarina França terminou a conversa. Pronunciou a palavra certa e fez um gesto resoluto com as mãos. Colocou um ponto final em tudo, na conversa e na nossa relação.


Fiquei branco, petrificado, perdido, certo de estar em frente a uma parede, inacabado. Fiquei assim um tempo que não soube medir. Depois, deixei-me escorregar para o pequeno banquinho que estava junto a mim, as costas encostadas contra os nervos da cal da parede da cozinha. Do outro lado da cozinha, na minha frente, em cima de um pequeno baú onde Catarina França guardava o pão, uma abóbora.

 

O homem é o verdadeiro deus. Com uma palavra é capaz de dizimar um ou mais seres humanos e todo o universo inteiro em que eles vivem. O mundo pode mesmo acabar de repente, mas não um mundo qualquer; aquele que interessa, que apenas existe na nossa cabeça. O universo das estrelas e das pedras pode mudar de direcção milhares de vezes sem nunca me dar cavaco, como sempre fez, como sempre fará, mas não sabe mais do que isso. Não é bom nem mau, nem hábil nem inábil. É pachorrento. Infindáveis mecanismos e engrenagens terão de alinhar-se para tornar tal coisa possível (acabar), se é que é possível. São biliões de voltas e contravoltas sem direito a aviso nas vidas de inúmeros humanos, vidas inteiras de gerações inteiras, civilizações inteiras, a História inteira.

 

Olhava para a abóbora. Era a única coisa que tinha no meu novo universo; tinha começado agora e ali. O antigo universo tinha sido dizimado por uma palavra que descera dos céus como uma praga. Ao fim de um tempo, olhando fixamente a abóbora (a primeira fotografia captada no meu universo ainda virgem), olhando com atenção pormenorizada os seus veios geométricos, começou a surgir-me a leve impressão de que a abóbora olhava de volta para mim (vi múltiplos sorrisos verticais). E com o tempo a passar, sempre a passar, fiquei na dúvida se aquela abóbora não olharia também para mim como um alimento; foi assim; a princípio olhava eu para a abóbora e pensava que de ali poderia fazer uma bela sopa (uma ideia estúpida que serviu para desviar a atenção); no fim daquele jogo de olhares, tinha a certeza de que eu fora remetido para um vegetal e que a abóbora me dizia, Vou-te comer.


O meu novo universo começou. Tudo o que existia foi trucidado. Não é a primeira nem será a última vez. Tiro do bolso o lenço bordado com as minhas iniciais; M.L., chamo-me Lourenço, o M já não sei o que significa. Quando acaba isto?

 

(Não Levo Saudades)

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publicado às 01:32



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Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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