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...

Por vezes o mundo muda de direcção sem avisar. Olhamos o chão e descobrimos que já lá não está. Avançamos a toda a velocidade em direcção ao muro de betão e não temos maneira de travar. O mundo sabe desviar-se, desvia-se, nós não. Não se ri das artimanhas que nos monta a espaços, somos nada, mas sabemos sofrer. Olhamos incrédulos o pesadelo que entra pela porta de um café de Idanha-a-Nova e achamos que sonhamos. Abanamos a cabeça e dizemos a palavra, Não. Dizemo-la, mas ela é real e logo volta pelas orelhas para nos fazer estremecer os ossos, Não, diz novamente, é um sonho, mas a palavra entra e sai do mundo para nos dizer, Vês, fui e voltei, existo, estou aqui, e por isso tudo isto é a verdade. Sofre. 

Sofre a velha de negro, um sofrimento que não merece piedade. Olho a velha, incrédula ela, sentada numa mesa do café, aproximo-me, vejo-a como um monte de ossos. Tem a mão na testa, osso contra osso ouço um som oco. A seu lado, uma sombra negra que espera, murmura-lhe, Ou fazes tu ou faço eu.

Por momentos penso que a velha me reconhece e recorda o mal que me fez, que se envergonha do dinheiro que me deve, mas à medida que nos aproximamos reparo que a velha não tem os olhos aflitos postos em mim, mas em Vitória. Tomo o facto como um caso extremo de estrabismo. Levanto o dedo, o que indica, o que segura na ponta a determinação que vem de dentro. O indicador dependurado no ar é uma lâmina imaginária. Olho a faca do pão poisada na mesa, mas ainda não chego lá. Travo Vitória com a mão esquerda, com a direita aponto o indicador à velha estrábica, ameaço-a, Venho reclamar o dinheiro que me deve! Ela olha para mim (ou será que, estrábica, olha agora para Vitória?), quase que elabora um pequeno gozo, levanta-se, Tu por aqui, que me queres? O meu dinheiro… o dinheiro que me deve por uma vida inteira de trabalho! Qual vida de trabalho, palhaço? …Palhaço!

 

(Não Levo Saudades) 

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publicado às 06:52



Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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