Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Devias Ter Tido Filhos Meus

por P. Barbosa, em 22.11.11

...

 

4

 

Por vezes o universo muda de lugar e esquece-se de nos avisar. Olhamos o chão e descobrimos que já lá não está. Avançamos a toda a velocidade em direcção ao muro de betão e não temos maneira de travar. O mundo sabe desviar-se, desvia-se, nós não. Não se ri das artimanhas que nos monta a espaços, somos nada, mas sabemos sofrer. Olhamos incrédulos o pesadelo que entra pela porta de um café de Idanha-a-Nova e achamos que sonhamos. Abanamos a cabeça e dizemos a palavra, Não. Dizemo-la, mas ela é real e logo volta pelas orelhas para nos fazer estremecer os ossos, Não, diz novamente, é um sonho, mas a palavra entra e sai do mundo para nos dizer, Vês, fui e voltei, existo, estou aqui, e por isso tudo isto é a verdade. Sofre.

Sofre a velha de negro, um sofrimento que não merece piedade. Olho a velha, incrédula ela, sentada numa mesa do café, aproximo-me, vejo-a como um monte de ossos. Tem a mão na testa, osso contra osso ouço um som oco. A seu lado, uma sombra negra que espera, murmura-lhe, Ou fazes tu ou faço eu.

Por momentos penso que a velha me reconhece e recorda o mal que me fez, que se envergonha do dinheiro que me deve, mas à medida que nos aproximamos reparo que a velha não tem os olhos aflitos postos em mim, mas em Vitória. Tomo o facto como um caso extremo de estrabismo. Levanto o dedo, o que indica, o que segura na ponta a determinação que vem de dentro. O indicador dependurado no ar é uma lâmina imaginária. Cobiço a faca do pão poisada na mesa do lado, mas ainda não chego lá. Travo Vitória com a mão esquerda, com a direita aponto o indicador à velha estrábica, ameaço-a, Venho reclamar o dinheiro que me deve! Ela olha-me de volta (ou será que, estrábica, olha agora para Vitória?), quase que elabora um pequeno gozo, levanta-se, Tu por aqui, que me queres? O meu dinheiro… o dinheiro que me deve por uma vida inteira de trabalho! Qual vida de trabalho, palhaço? …Palhaço!

A terra mastiga-nos e depois cospe-nos fora. Valemos nada, e apenas os nossos ossos servem para calcar a lama. Fiquei sem palavras, com o indicador perdido no ar apontado para «ali». Palhaço!, repetiu a velha, e agora já se via a saliva, o veneno, Palhaço!, agora mais alto e com desprezo, directamente nos meus olhos, o estrabismo já havia desaparecido, dei dois passos atrás mas ela não se deteve, deu dois passos na minha direcção, Palhaço, repetiu, agora sim, dava-lhe gozo.

 

Os fracos ganham força trucidando fracos, eis uma verdade banal e trágica. Sempre foi mais fácil roubar que construir. A derrota ilumina o derrotado, a vitória ilumina a semente do homem (tantas verdades banais, banais). A velha achou que assim ganharia forças para travar a guerra que se preparava. Olhou para baixo, o chão tinha desaparecido e o muro de betão aproximava-se a toda a velocidade. Dei dois passos atrás e encolhi por dentro.

Encolhi.

Fora de mim agora só vejo uma névoa e as palavras são um zumbido indiscernível. Encolho para um centro pequeno, ao longe vejo os contornos internos da pele translúcida do balão que sou por fora (por dentro). Entre mim e esse balão voam corvos negros com os olhos postos em mim, e sombras negras que flutuam de foice em punho e que murmuram, Ou fazes tu ou faço eu. Uma das sombras aproxima-se, tira um caderninho preto do bolso e lê para mim:

Devias ter tido filhos meus. Devia ter voltado e ter-te procurado uma vez mais, e outra, e outra mais ainda, depois de na primeira e última vez me teres afastado de cima de ti. É um arrependimento que me custou uma vida; a que tenho.

Disse, Não. Não, tiro do bolso o meu livrinho preto já negro como eu dentro, folheio-o com mestria como se fosse um baralho de cartas. Travo o andamento no lugar preciso onde acabam as palavras e se inicia a folha branca. Abro o caderninho, abro-o, e o gesto pareceu repetir-se infinitas vezes, como se não se quisesse consumar.

 

Dizia:

Devias ter tido filhos meus…

Devias ter tido filhos meus…

Devias ter tido filhos meus…

Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres...

Nunca descobri. Olho através da pele translúcida do balão que sou por dentro (por fora) e vejo a velha exaltada discutindo com Vitória. A emoção tem um andamento, como uma partitura. A emoção é linguagem com gramática e ortografia. A velha é obediente, segue o caminho de cinza já traçado por uma infinidade de gente (olho o caminho de cinza, assusto-me com as bermas), sente, pois, submissa, primeiro o espanto, depois a dúvida, depois o medo (Não), depois a raiva, depois o ódio, por fim a vergonha. Vitória grita com ela (não sei o que grita ela), aproxima-se da velha, juro que lhe vi o olhar cobiçar a faca do pão, aponta-lhe o indicador ao coração, depois ao meio dos olhos, agarra-lhe o braço e a velha repele-a, ameaça-lhe um estalo de volta, a velha grita alto agora, sinto o som estridente, apercebo-me de algumas palavras, Vaca, Puta, Cabra, Vitória agarra-a com os dois braços e tenta tombá-la ao chão. Aproxima-se um vulto esguio e jovem e as duas mulheres imobilizam-se momentaneamente.

...

 

(Não Levo Saudade)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:48



Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

Disponível em
iBooks, Google Play, Kobo, Kindle











Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2012
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2011
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2010
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2009
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2008
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D


Mais sobre mim

foto do autor