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Ela Não É Minha Mulher

por P. Barbosa, em 26.11.11

5

 

O que aconteceu? Estás aqui há cinco dias (Vitória sorri). Não, o que aconteceu entre ti as outras duas mulheres? Por que discutiam…?

 

As paredes são brancas, o tecto é branco, os móveis são brancos, a cama e os lençóis são brancos, a médica que se aproxima traz uma bata branca. Por natureza (natureza), a morte é sempre representada pela ausência de cor, de luz, e o que é puro é sempre representado pela luz toda, arco-íris somado nas finas linhas de luz-seda (tão belas) que flutuam como uma sereia na minha frente. Entre os extremos fica a vida (só ela existe), e assim o hospital é uma promessa de cura (ilusão).

 

Pedia-lhe que saísse, preciso de falar a sós com o paciente. Vitória acena obediente com a cabeça, lança-me um último olhar, afasta-se enquanto eu esboço um último, Porquê? A médica aproxima-se, olha friamente a ficha médica dependurada na ponta da cama, sorri para mim, um sorriso falso, uma meia Gioconda, diz-me, Escapou por pouco…., ao fim de meia-dúzia de segundos de silêncio respondo, Sim. Ou será que devo dizer que falhou por pouco? Olhei a médica em silêncio até ela desviar o olhar. Daqui a alguns dias terá alta, mas quero que procure apoio psicológico, vou-lhe marcar uma consulta com um especialista. Não sou maluco. Não disse que era maluco, mas é evidente o que tentou fazer a si próprio. E? E, o quê? Não sou maluco… ninguém me perguntou se queria nascer, para que se preocupam as pessoas se quero morrer? Há quem diga que a vida é preciosa, que a devemos proteger. Mas também pode ser esmagadora. Esmagadora? Sim, faz-nos, e depois esmaga-nos. Não faz por maldade. Pouco me importa a maldade. Não acredita nela? Não me importa, já disse. Promete-me que vai à consulta com o psicólogo? Prometo que me mato. Por que quer morrer? É preciso uma razão? Não é preciso uma razão? Só se for obediente. Obediente? Sim. Obediente com o quê? Isso não interessa… mania das pessoas quererem ver sempre a origem, o centro, uma figura, algo que ocupe um espaço. Não o entendo. Obediente apenas, porra… pode dar-me alta? Ainda não. Quando, então? Já lhe disse, daqui a uns dias, dependendo da evolução desse corte, quero ver se tudo sara como deve ser, não quero que tenha uma hemorragia interna. Acha que não há suficientes facas no mundo? Para quê? Para me matar, o que é que havia de ser. Deixe-se dessas conversas, fale com a sua mulher e explique-se, precisa de lhe dar uma explicação. Ela não é minha mulher. Não foi o que ela disse.

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publicado às 17:24



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Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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