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Quieto, combato o tempo que me devora ferozmente. Durante o dia fico à beira de uma cama de hospital. Olho o meu pai deitado, que vai morrendo. A espaços olha-me de volta, não sabe quem eu sou. Não sabe quem ele é, não sabe que olha, não sabe. Quando o horário de visita acaba saio e sento-me debaixo do eucalipto gigante plantado no jardim com vista para poente. Pego no livro que leio faz semanas, sento-me, abro-o sempre na mesma página, recosto-me a olhar o pôr-do-sol. Olho a luz quente por entre as nuvens de algodão, esqueço-me, combato o tempo que me devora ferozmente.

 

À noite permaneço imóvel em frente de uma qualquer loja de electrodomésticos. Passa um filme com um pastor certo do que diz, tem o dedo no ar e uma batina púrpura, prega para a assembleia quieta, diz, Basta uma bala para iniciar uma guerra, o realizador decide mostrar um grande plano da cara do pastor, de frente, ele olha-me agora directamente através do vidro da televisão, tão certo do que diz, não sabe quem eu sou, não sabe que me olha, não sabe quem ele é, não sabe, olho-o de volta e é como se olhasse o meu pai, respondo-lhe através da montra de electrodomésticos, As balas não iniciam guerras, levanto o meu indicador também, mas ele continua certo daquilo que acabou de dizer (e isso basta), continua de indicador no ar (uma estaca), a assembleia assiste impávida enquanto é devorada pelo tempo. Não sobrará nada.

 

Sou um cobarde que não serve nem para limpar fezes que flutuem nas poças de lama de uma trincheira. Sou um sonhador que aguarda quieto que o tempo traga algo de melhor. Sou um ou outro, ou os dois, à vez, em disputa. O tempo corrói, é certo (sinto-o nos ossos), mas também eu não sou boa peça. Estamos bem um para o outro. O tempo sempre chega, banalidade trágica, o tempo não perdoa (eu também não). O meu pai não sabe se há-de sorrir ou chorar. Sem memória somos nada, o meu pai olha-se dentro e vê-se como uma sombra sem sombra, olha-me e o melhor que consegue arranjar é a suspeita de um sentimento, chora em determinadas alturas, imediatamente antes de chegar o jantar, é matemático, meia hora depois de comer ri-se sem saber do quê. Olho-o sabendo o que me espera, sabendo que nada saberei; que irei chorar pouco antes do jantar, sem saber porquê, e que hei-de rir-me meia hora depois de ter comido, também sem saber porquê. Pego na mão do meu pai e tento criar-lhe um sentimento artificial através do calor da minha pele, digo (coisas banais e repetidas, ele não sabe que acabámos de falar delas uma hora atrás, ontem e antes de ontem), Apesar de tudo tivemos uma vida boa, não foi, pai? Sou velhaco, mas o meu pai sem memória sabe ainda mentir, Sim, diz ele, olhar incerto, as peles tremem e os lábios estão húmidos de saliva, não sabe o que a pergunta verdadeiramente significa, o que significa eu ser seu filho, o que significa ele ser meu pai, depois, ao fim de uma pausa que faz esquecer, muito seguro, como um pastor que veste de repente uma batina púrpura, do topo de um púlpito, diz-me, Devias arranjar um emprego e uma mulher (aperta levemente a minha mão para que preste atenção àquelas palavras). O tempo corrói, e o meu pai é velhaco também. 

 

(Não Levo Saudade)

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publicado às 11:30



Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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