Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




E o Pai, Acha Que Foi Feliz?

por P. Barbosa, em 13.12.11

O meu pai pede-me bolachas, Tem fome, meu pai? Não, quero bolachas. Ali, na gaveta, tira-as. Levanto-me e abro a gaveta. Do outro lado da cortina que separa esta cama da próxima ouço alguém a tossir. Uma cortina de plástico é tudo o que separa este quase morto do próximo. A morte tem limites, e esta parede feita de quase nada é um protótipo de caixão.

 

O homem não é velho mas parece velho. Respira com dificuldade e depressa, tem a mão no peito, a dor na face, a mulher e um filho estão em pé a seu lado, imóveis, o homem vira ligeiramente a cabeça para mim e observa-me observando-o, diz, nítido, com aquela expressão, Não sei se morro já ou daqui a mais um bocadinho. Liberto-me da imagem e presto atenção à gaveta. Abro-a. Vários objectos pessoais do meu pai, a carteira dele, uma pequena bíblia, folheio-a à pressa e todos os pontos finais estão encimados por interrogações, um baralho de cartas, não vejo as bolachas, meto a mão no fundo e toco num objecto grande, retiro-o do escuro, uma moldura baça e uma fotografia. Olho-me antigo. Tenho ou cinco ou seis anos na fotografia a preto e branco que seguro, estou muito sério, camisa escura de lã espessa apertada até ao pescoço, bata branca como num cientista sério, com um livro de colorir na minha frente.

 

Esforço-me dentro, procuro recordar-me, encontrar em algum recanto daquela imagem uma memória do que sou e do que já fui; uma ponte que atravesse o tempo por mim. Olho-o como um estranho sabendo que sou eu. Apenas o estojo branco decorado a banda desenhada mexe comigo dentro. Lembro-me vagamente dele, de lhe tocar no plástico mole e do seu cheiro a petróleo, do som e da vibração do fecho quando o abria e fechava, de sentir os lápis de colorir arrumados e empilhados, de os tirar e pôr. Sinto algo mover-se dentro de mim, mas sem nunca o saber nomear. Desapego-me da fotografia e coloco a moldura, caixão alegre de uma memória, no fundo escuro da gaveta.

 

Procuro mais e encontro as bolachas. Dou-as a meu pai. Ele gosta daquelas bolachas, quase parece um ser normal enquanto as come. Aproveito, E o pai, acha que foi feliz? Como? O pai, acha que foi feliz? Dá uma última mordida na bolacha e mastiga-a. Aguardo a resposta, aproveito para engolir em seco. Para que queres tu a felicidade? Como…? Há mais bolachas? Não… já as comeu todas. É pena, são mesmo boas… Então o pai acha que não devemos ser felizes…? Saíste-me cá um parvo. Que disse? Saíste-me cá um parvo, é o que é, um parvo, um parvo… Fiz-lhe um sinal atrapalhado com as mãos de que queria interromper esta conversa, já me perdi no diálogo e não sei como vou registar isto tudo no meu caderninho preto. Terei de esperar uma hora, voltar atrás e recomeçar tudo de novo. 

 

(Não Levo Saudade)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:15



Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

Disponível em
iBooks, Google Play, Kobo, Kindle











Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2012
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2011
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2010
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2009
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2008
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D


Mais sobre mim

foto do autor