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Conluio Com A Memória

por P. Barbosa, em 26.12.11

Estamos bem um para o outro, eu e o tempo, pacto diabólico que não posso (não posso) quebrar (saímos do hospital, o meu pai ficou para trás).

 

***

 

O meu pai morreu e foi cremado três dias depois. Lanço agora as cinzas do topo de uma escarpa de pedra negra que fica para os lados de Cascais. Três dias depois esquecerei que o meu pai morreu, e três dias depois desses esquecerei que tive um pai. Sei-o através de Vitória, que me olha e esboça um sorriso doloroso, não me engana, vejo nítido a verdade representada na sua face (nas suas rugas, uma trincheira).

 

***

 

Toma.

Vitória segura-me o braço quando quer a minha atenção. Vitória cuida de mim numa casa em Lisboa que foi de alguém que já esqueci. Tudo me é familiar e não é, vejo apenas a sombra de uma sombra, sentimento de suspeita de um sentimento, fito Vitória e digo-lhe, Não me lembro, não me lembro de nada…Ponho a mão magra na testa e ouço dentro o som oco de osso contra osso. Vitória segura-me o braço, Toma. Pego o comprimido branco e tomo-o na boca. Engulo-o. Digo-lhe, Sabes… (fico-me por ali).

 

***

 

Os pulhas não têm consciência, ou memória, tanto faz. Estou em casa (numa casa, não sei qual).

 

***

 

Ainda escrevo (Vitória por vezes diz-me, Não sei como ainda consegues escrever). Tiro um livrinho preto já velho como eu dentro, folhei-o (não me interessa já o que lá está escrito, apenas procuro uma folha livre),

 

O amor, contigo, é sempre uma tentativa desesperada para fugir do meu corpo. Não me contes o que acontece quando a luz se apaga. Preciso de te tocar e fingir que toco na minha pele. Preciso acreditar que escapo ao destino. O amor, a cama, a escuridão do quarto, é o desespero a fugir de mim mesmo (perdoa-me). Não me contes nada, nada. Acordemos e vivamos sonâmbulos enquanto a luz durar. Aguardemos que esta se extinga. Depois, viveremos, almas conjuntas, sombras sobrepostas, cada uma escapando-se do corpo do outro por entre os lençóis de logo à noite (fantasma puro).

Quando finalmente partir, não te esqueças de mim (o destino não dói).

A mulher a meu lado lê e pergunta-me, Onde leste isto?

(ela não acredita em mim)

 

***

 

Estás bem?

Não sinto nada.

É melhor chamar o médico.

 

Da janela da ambulância vejo os ramos das árvores despidas pelo outono como raízes que crescem em direcção ao céu.

Vivo ao contrário, mundo inventado, o meu, mas na verdade não sei (não sei) se são as raízes da terra que alimentam as raízes do céu ou o seu oposto.

Nada importa (agora), e a ambulância é o meu primeiro caixão. Percorro a estrada enfeitada por plátanos despidos, percorro o destino já conhecido, nada importa (já).

 

***

 

Deitado na cama do hospital olho fixamente as pessoas à minha volta (não as reconheço). Digo em voz alta, Esta cama já foi do meu pai! (sinto raiva). Um médico aproxima-se e pergunta à mulher que não enverga bata branca, É o seu marido? Juro que se montou um burburinho, e todos colocaram a mão em frente da boca para que não se lesse os seus lábios. Digo duas vezes (quase que me levanto com a raiva que sinto), Não, não!

 

***

 

Tudo é cinza e prata, um enorme campo de batalha. Abro os olhos dentro de mim e o meu mundo é largo, faço-lhe pontaria ao horizonte mas não há maneira de este encolher. Lama e cinza a perder de vista. A espaços, vejo trincheiras que rodopiam no chão como se procurassem desviar-se de alguma coisa. Estão atulhadas de ossos, podemos caminhar em cima deles, e ao longe houve-se o som oco de explosões. Está frio, gelo, caminho ofegante com os pés nus enterrados na lama. Uso a luz da lua como guia para o destino. Continuo sem parar. Atrás de mim, a sombra de um cão e de um rapaz que me diz adeus.

 

Por vezes acordam-me e obrigam-me a engolir qualquer coisa.

Não quero mais. Quem são vocês?

 

***

 

Quanto tempo mais?

Algumas horas… a qualquer momento.

 

Prometo que não me mato até lá.

 

***

 

(alguém segura uma fotografia)

Quem é esta?

…não sei…

 

 

 

 

 

(Não Levo Saudade)

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publicado às 23:36



Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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