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Subiu para cima do muro do Muro dos Bacalhoeiros e fitou a morta lá em baixo (sorriu). Disse-me, na terceira pessoa, como se falasse de alguém distante enquanto andava equilibrista em cima do muro do muro (os transeuntes olhavam-na), Vitória era jovem, demasiado jovem, dona de uma beleza ainda inacabada (riu-se), quinze anos apenas, mas os homens e as mulheres vorazes não esperam pelo tempo certo, não esperam pela cama certa, não se satisfazem com a quantidade certa, detestam tudo o que é certo, satisfazem-se apenas com os momentos singulares e proibidos; singulares por serem proibidos, proibidos por serem singulares. João e Amélia (a mãe, disse eu baixinho para mim) tinham nomes cândidos e vulgares mas almas vorazes e inacabadas; vorazes por serem inacabadas, inacabadas por serem vorazes. No meio de tudo isto, penso agora, todos eles acabaram devorados pela vida, cada um à sua maneira, todos eles inacabados.

 

Veremos.

 

O presente cimenta-se, o futuro aproxima-se, o passado desvanece. É desta forma que nos concentramos naquilo que é imediato e tomamos as decisões que se impõem; uma faca apontada ao pescoço, por exemplo. Então, o futuro chega-nos de repente, e o presente torna-se saliente.

 

O cansaço não é dos ombros, mas sim dos olhos e das pálpebras, persianas semicerradas que escondem e mostram o mundo, à vez, ora agora vez isto, ora agora vez nada, conveniência do homem, sua salvação até, o que seria de nós se não os pudéssemos fechar.

 

É uma sorte a doença que tenho. O esquecimento perpétuo de que padeço é uma absolvição poderosa. Estou certo de que também eu sou tão inacabado quanto todos os outros, tão mau quanto todos os outros, tão perdido quanto todos os outros. 

 

Veremos. 

 

O esquecimento crónico que me começa agora a assentar tem, apesar de tudo, largas vantagens. Ao esquecer-me de tudo esqueço-me também das coisas más. Estou assim, sempre, a um simples passo da felicidade. Esquecendo-me de tudo torna-se-me impossível mentir. Esquecendo-me de a quem devo lealdade ou favor resta-me a justiça.

 

Por vezes penso que o esquecimento é o futuro da humanidade. E não me digam que precisamos não esquecer para evitar repetir os mesmos erros no futuro. O homem (que não eu) já provou que é tão amnésico quanto eu.

 

Especulo que a humanidade não quer ouvir ou ver. Elaboro a hipótese de que os erros repetidos não são erros repetidos mas tragédias calculadas. Desenvolvo a teoria de que o homem dotado da faculdade da memória perdeu já a capacidade para renascer. Agora só tem medo de morrer.

 

Tiro o meu livrinho do bolso.

 

Escrevo:

 

Teoria (não, Hipótese): O Homem é a memória de si e a memória de si controla o homem. Tudo o resto é um monte que vale nada.

 

Veremos.

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publicado às 23:32



Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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