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Adormeci. Acordei. Esqueci-me de comer o jantar oferecido pela bondade. Adormeci. Acordei. Era de dia e estava parado no passeio. Adormeci. Acordei. Estava deitado e era escuro como breu. Caía uma chuva miudinha que encharcou a minha casa de cartão. Levantei-me e fui urinar junto a uma árvore.

Adormeci. Acordei. Estava a comer um guisado de vitela quente perfumada com hortelã, como há muito não me lembro de saborear. O meu velho companheiro dizia-me que tínhamos de aproveitar estes momentos em que a delícia do estômago e da língua é a nossa própria delícia. Adormeci. Acordei. Estava no meio da estrada e os carros buzinavam à minha volta. Uma senhora ao meu lado mulher abriu o vidro do carro e perguntou-me, não sei porquê, Está bem?

 Adormeci. Acordei. Estava em frente a uma campa, e o meu velho amigo a meu lado perguntando-me, Era isto que procuravas? São estas as palavras de que me falaste? Palavras?, olhei; Não levo saudade Adormeci. Acordei. Estava a dar o noticiário na televisão da montra de electrodomésticos. 

Adormeci. Acordei. Doía-me o corpo, era escuro, estava num beco que não reconhecia, e um grupo de jovens ria-se muito. De mim. Acharam que eu era parvo. Tenho a certeza de que me acharam parvo. Adormeci. Acordei. Olhei para o lado e o meu velho amigo chorava silenciosamente. Disse-lhe, Não achas que o tempo está a passar depressa demais?

Adormeci. Acordei. Vi o sol dependurado no céu. Adormeci. Acordei. Está bem?, disse-me alguém. Adormeci. Sonhei com o meu pai e com a minha mãe.

Acordei. Estava deitado num lugar luminoso, mas em vez do amarelo do sol caía em mim uma luz branca vinda de todos os lados. Não se mexa, disse-me alguém. Está no Hospital de Santa Maria. Estamos a cuidar de si. Não se mexa. Como se chama? Virei o olhar e vi uma cara angélica de bata branca, auscultando o meu interior com um estetoscópio. Aí não há nada, disse-lhe, enquanto ela procurava medir o meu coração. Enrugou a testa. Parou de me auscultar e olhou-me novamente. Como se chama? Lembra-se? Meti a mão ao bolso, trémulo, e tirei um velho lenço sujo com as iniciais M.L. Chamo-me Manuel, o L já não sei o que significa. Não sei o dia certo em que faço anos. Não me lembro já quem é o meu pai e quem foi a minha mãe. Sei que sempre vivi em Benfica. Tenho um amigo chamado António que dorme comigo junto às Portas de Benfica, eu num caixote de cartão de um frigorífico, ele no caixote de cartão de uma arca frigorífica.

 

(Não Levo Saudade) 

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publicado às 22:59



Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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